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HAEGUE YANGPARQUE DE VENTO OPACO EM SEIS DOBRASMUSEU DE SERRALVES - MUSEU DE ARTE CONTEMPORÂNEA Rua D. João de Castro, 210 4150-417 Porto 22 JUN - 18 DEZ 2016 HAEGUE YANG - PROJETO SONAE/SERRALVES 2016
Na edição de 2016 do projeto Sonae/Serralves, os jardins laterais ao edifício do Museu de Serralves são invadidos pela obra de Haegue Yang. O trabalho invulgar desta artista coreana, expressamente encomendado para a ocasião, prova o alcance e a potencialidade da relação entre as duas instituições e o seu sério compromisso na procura de representar a arte mais contemporânea e atual. Suzanne Cotter, na visita de imprensa, fez questão em saudar o desempenho da Sonae como mecenas, proporcionando ao museu a oportunidade de trabalhar com esta artista. A diretora do museu justifica que nunca teve tanta confiança numa parceria como nesta. Por sua vez, Luís Reis, em representação da Sonae, confessou que este era um dos momentos mais felizes resultantes dos 27 anos de relação com Serralves, tendo mantido ao longo do tempo o objetivo de "trazer a cultura às comunidades". Com tal propósito, o valor do projeto foi também potenciado numa nova adaptação que incluiu conferências em universidades pelo país, das quais três estudantes foram escolhidos para participar ativamente no projeto de Haegue Yang. Esta nova abordagem mostra igualmente uma forma pedagógica de proceder à projeção da arte no país, algo crucial e que é por vezes subvalorizado. O projeto, que partiu diretamente da equipa de Catarina Fernandes, em representação da Sonae, e de Suzanne Cotter e Odete Patrício, por Serralves, apresenta um resultado magnífico para observar, experienciar e sentir. Intitulada Parque de Vento Opaco em Seis Dobras, a obra enquadra-se na paisagem e no ambiente que a circunda, inserindo-se harmoniosamente no contexto do parque. Tratam-se de cinco torres, que constituem subdivisões de dimensões distintas, construídas em tijolo, e que se encontram delimitadas no espaço por bases quadradas, de pedra, de 72x72 cm. A obra incorpora alguma vegetação, desde o próprio relvado do jardim até outras plantas, como cactos e suculentas, sujeitos a alterações ao longo do tempo da exposição. Esta durará um ano, encerrando apenas no dia 4 de Junho de 2017, incluindo as quatro estações, período durante o qual as plantas irão alterar-se, tornando esta obra mutável e, de cada vez, diferente e nova mediante um longo processo de renovação e de construção. Com esse objetivo, de conceber uma obra que incorpore as alterações da natureza, ela própria vivendo o passar do tempo, e por ser uma construção no jardim que contém elementos naturais, esta peça requereu um trabalho de equipa de diversos especialistas, entre os quais arquitetos, engenheiros, jardineiros e grande parte da equipa de Serralves. Suzanne Cotter considera que este trabalho é especial precisamente por trazer a arte para o espaço exterior, relacionando-a com a arquitetura e, assim, expandindo os seus horizontes. Destaca, também, a importância de ser uma mulher artista, que introduz um equilíbrio com as restantes obras que se encontram no exterior, maioritariamente de autorias masculinas, como é o caso da mais visível Colher de Jardineiro (2001) de Claes Oldenburg e Coosje Van Bruggen, entre peças de outros grandes autores como Alberto Carneiro ou Richard Serra. Quanto a Haegue Yang, confessa que tinha expetativas altas em relação ao desafio que lhe foi proposto, o qual a entusiasmou, e espera que mais artistas continuem nesse mesmo circuito de exploração do espaço público pela via artística. Quer, essencialmente, que o projeto e o seu progresso sejam acompanhados pelo público e que este testemunhe e experiencie toda a obra. Expor é parte da realidade da artista e da sua vida, sendo que, habitualmente, começa com um determinado plano do qual acaba muitas vezes por se libertar para alguma improvisação que lhe pareça adequada. A imprevisibilidade é algo que Yang aprecia, algo conveniente para os artistas de arte em espaço público que aceitem e saibam lidar com as circunstâncias que lhes são alheias. O trabalho artístico, quando realizado no espaço interior de uma instituição, tem, a priori, uma maior segurança e, assim, a arte de intervenção na área pública pode ser entendida como um maior desafio e requer uma grande capacidade de ajustamento e flexibilidade por parte do seu produtor. Em relação a esta obra, uma parte determinante do seu processo de criação é o próprio título, algo a que a artista atribui sempre um específico significado e, por isso, bastante importância. Para o Parque de Vento Opaco em Seis Dobras, o seu processo mental iniciou-se na ideia de aproveitar a força do vento captada exteriormente, de acordo com a decisão de incluir algo que se altera ao longo do tempo e que está, verdadeiramente, em constante atividade e mutação. Este efeito ocorre a partir de ventiladores eólicos colocados no topo de cada torre. Também o elemento geométrico é de enorme importância, de modo que até as vegetações que inclui comportam alguns traços geométricos. Desta maneira, toda a obra é um dinâmico espaço de cruzamento de formas. A disposição geométrica das lajes de tijolo de barro amarelo, suportado por dois tons de cinzento, terá uma influência no traçado da geometria islâmica. Assim, verifica-se que entre o material e a forma que o próprio apresenta, há uma mistura de diferentes produções industriais. A artista, sendo coreana e evocando traços e referências a outras culturas, trazendo-as para o Porto, cria uma obra multicultural, com significado a nível mundial e, por isso, com uma complexidade e profundidade conceptual atingidas de modo altamente contemporâneo. Também atual é o conceito subjacente ao trabalho, incorporado no título, na referência ao opaco. Yang preocupa-se com a ideia de que o tempo contemporâneo parece imputar uma espécie de transparência para todos. O alcance das redes sociais e a invasão do privado, este último dissimulado e tornado público, quando seria o lugar de valorização de intimidade e comportamento mais genuínos, conduzem o homem a se encontrar mais exposto e, consequentemente, a mostrar-se mais. A artista, por sua vez, reforça a ideia de que cada um tem o direito de não exibir toda a sua verdade e realidade, podendo, se assim o desejar, permanecer opaco. Apesar de haver inúmeras possibilidades tecnológicas e comunicacionais atuais, estas não devem necessariamente ser cumpridas. Assim, Haegue Yang pretende enaltecer o espaço individual, o qual considera que se encontra rarefeito. É, então, numa narrativa de individualidade, que o trabalho tanto objetual como abstrato foi realizado neste museu, espaço que a artista considera ser "estável o suficiente para se sentir apoiada e segura, mas aberto o suficiente para se expandir". A partir deste resultado magnífico, em setembro Serralves irá publicar um livro que contém não só o arquivo deste projeto e a sua construção, como aborda a questão das obras em espaços públicos. A utilização do espaço público para a criação artística é fundamental e, complementando o grande trabalho que se produz no interior do museu, acrescenta um outro motivo para a visita a todo o conjunto de Serralves.
Constança Babo
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