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TRISHA DONNELLYTRISHA DONNELLYMUSEU DE SERRALVES - MUSEU DE ARTE CONTEMPORÂNEA Rua D. João de Castro, 210 4150-417 Porto 01 JUL - 10 JUL 2016 TRISHA DONNELLY ABRE A CASA DE SERRALVES
No dia 1 de Julho, a Casa de Serralves tornou-se palco de uma nova experiência estética, através do segundo momento do recente programa de exposições concebidas para o espaço. A primeira exposição esteve patente de 10 de junho a 20 de setembro de 2015 e foi fruto do trabalho da inovadora artista Yto Barrada [1] . Nessa singular ocasião, o histórico edifício foi ocupado por múltiplas práticas artísticas e marcado pela dupla nacionalidade da artista, europeia e norte-africana. O espaço tornou-se, assim, multicultural, etnográfico e diverso. Desse modo, Serralves possibilitou um renovado olhar sobre a casa de arquitetura Art Déco dos anos 30, algo que, agora, acontece de novo mas de modo totalmente distinto. Trisha Donnelly é a reconhecida artista convidada a intervir de forma a proporcionar uma nova perceção da Casa de Serralves. Assim, enfrentou o espaço e apropriou-se dele com o objetivo de interpelar e desafiar o público. A ação de Donnelly é imediatamente visível na abertura da casa de modo inédito, através da remoção de algumas paredes que impediam a conceção de openspace. A artista também abriu todas as janelas e várias portas, inclusivamente as duas portas do antigo vestíbulo da condessa que outrora habitou a casa, espaço nunca antes explorado para a produção artística. Deste modo, o espaço ficou aberto e mais uniforme, tornando-se mais convidativo à visita e à descoberta. Em certa medida, há uma reaproximação à forma prévia da casa à sua adequação a museu, quase se expondo a estrutura na sua plenitude, permitindo observar a tão particular arquitetura. Suzanne Cotter, na visita de imprensa, explica que, para Donnelly, é importante observar o caráter histórico do edifício no tempo presente. Ao longo do espaço, encontram-se obras pontualmente distribuídas, fixadas a paredes ou móveis, havendo uma permanente vista para o exterior, com o qual a arte se relaciona e funde na criação de um ambiente totalmente novo. Uma linha de horizonte anuncia-se, delineada pelo céu e as árvores dos jardins, particularmente vibrantes nesta altura do ano, que circundam todo o edifício. O olfato é despertado pelos cheiros da natureza e o som do vento sobre as folhas e ramos das árvores entram no espaço e invadem-no. Vários sentidos são ativados, o que provoca, inevitavelmente, uma experiência forte e única ao público. Vi isto neste jardim. Um campo de cilindros massivos. Tão amplos quanto o alcance do olhar sobre um campo. O caminho solidificado de uma esfera lançada para diante. A extensão de água visível. Este é o primeiro verso de um poema que a artista escreveu propositadamente para acompanhar o espetador ao longo da exposição. Presente na folha de sala, relaciona-se com a Casa de Serralves tanto pela forma como esta é apresentada, como pela poesia visual que o próprio edifício comporta. O poema é o elemento mais narrativo desta obra, sendo que os versos ainda preservam um certo caráter abstrato, o qual também está contido em todas as obras apresentadas. A preferência pela abstração, patente em todo o trabalho de Trisha Donnelly, é justificada pelo seu entendimento de que a arte é real, tão real quanto tudo o resto. A artista dispõe obras que funcionam como fragmentos da sua própria vida e existência. Habita a casa e move-se nela imprimindo em determinados espaços uma presença que é realmente sentida. Essa realidade transpõe-se ao espetador, que encontra a casa, novamente, viva, sentida, experienciada. Cada trabalho detém, contudo, uma forma abstrata que permite significações múltiplas e pessoais. E, precisamente, por ser passível disfrutar a exposição de modo individual, o espetador retira as suas próprias emoções, considerações e análises. Na verdade, a artista defende que as suas exposições devem ser livres e não necessitam de explicação, história ou qualquer conceito descriminado. O único aspeto que deverá ser comum a todo o público, quando confrontado com o trabalho da artista, é a sua compreensão num sentido amplo que engloba tanto os objetos artísticos como a própria alteração do espaço. A obra vale como um todo, inclusivamente no modo como se insere no ambiente. A luta pela afirmação deste entendimento do trabalho artístico, para além do simples objeto faz parte da contribuição de Donnelly na criação de novas perspetivas, desenvolvendo a noção de arte e entendendo esta nas suas vastas possibilidades. Essa valorização do espaço constituiu na realidade, um desafio particularmente intimidante na altura de construção e conceção desta exposição. Uma das problemáticas que esta casa detém, quando utilizada como espaço expositivo, é a excessiva força da sua arquitetura característica e dramática em relação a todo o objeto que nela se insere. Rapidamente o gosto déco presente no edifício pode tornar as peças meramente decorativas, o que é agravado quando a artista expõe maioritariamente fotografias ou projeções de vídeos de pequeno e médio formato. Trisha Donnelly refletiu sobre o assunto e, tal como Suzanne Cotter explica, acabou por optar por um modo muito cauteloso da sua obra existir no espaço. É assim que a artista insere o seu trabalho de modo que não entre em conflito com a arquitetura déco. A única obra que se assume, indiscutivelmente, com forte presença, ocupando e dominando o espaço, encontra-se na área central do edifício. Composta por um grande painel com a projeção de uma imagem, é acompanhada por uma melodia de séries de músicas do compositor Wendy Carlos, também ele americano, nas quais Donnelly interveio formalmente. Assim se verifica como esta artista, conhecida por desafiar as conceções estabelecidas na arte, avança na procura de novas formas de a entender, com o particular objetivo de suscitar múltiplas interpretações por parte do público. Com esse mesmo objetivo, Donnelly não atribui título tanto às suas obras como à própria exposição. As palavras habitualmente condicionam o espetador no momento de confronto com um trabalho artístico limitando a sua compreensão. É a lingua, médium da comunicação, que muitas vezes atribui sentido e significado à arte. Em contrapartida, sem legendas, a obra permanece num plano livre e autónomo, valorizando, acima de tudo, a experiência estética. Estas propostas são valiosas, tanto quanto é crucial estender a arte a toda a área de Serralves, para além do Museu. Trisha Donnelly contribui precisamente para isso: expandir a arte e fazê-lo, desde já, em Serralves.
Constança Babo
::: Notas [1] Mais info. http://www.artecapital.net/exposicao-461-yto-barrada-yto-barrada-salon-marocain
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