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COLECTIVACONVERSAS: ARTE PORTUGUESA RECENTE NA COLEÇÃO DE SERRALVES / PROJETOS CONTEMPORÂNEOS: RACHEL ROSEMUSEU DE SERRALVES - MUSEU DE ARTE CONTEMPORÂNEA Rua D. João de Castro, 210 4150-417 Porto 16 SET - 22 JAN 2017 A ideia de narrativa é frequentemente utilizada na referência de uma obra ou conjunto de trabalho de um determinado artista, sendo menos comum utilizá-la ao envolver trabalhos de múltiplas autorias, isto porque, geralmente, cada um se apresenta com as suas próprias expressões. Contudo, quando artistas detêm a mesma nacionalidade, vivem num mesmo tempo e partilham uma mesma história, do país e respetiva cultura, surge um terreno comum. Este é um espaço que pode e deve ser trabalhado e, em relação a Portugal, contém relações inesperadas entre obras e seus autores, os quais, mesmo com várias idades e gerações, se encontram unidos pela produção artística contemporânea portuguesa. Com tal ponto de partida, nasceu uma exposição que suscita conversa entre obras, artistas, curadores e visitantes, estes últimos estimulados pela reunião, num mesmo espaço, de numerosos exemplares de arte nacional. É precisamente o diálogo que os curadores Suzanne Cotter e Ricardo Nicolau procuraram despertar. O espólio exposto no Museu de Serralves, rico e valioso, surge das aquisições da instituição desde o ano 2000 até 2015. Em 2013, tinha já sido produzida, pela primeira vez, uma exposição que apresentou o acervo até então reunido, algo que, no ano seguinte, se repetiu. O objetivo é manter uma continuidade destas exposições para que o público acompanha o desenvolvimento e crescimento da coleção do museu. A partir dessa vontade, há um esforço em expor as obras também fora do museu, como foi o caso da recente mostra da obra de Monika Sosnowska no Palácio da Bolsa. Como a presidente da administração Ana Pinho explica, foi também essa a razão pela qual se anuncia, agora, uma parceria com o Museu da Casa da Misericórdia. Ainda para fortalecer este desígnio, foi criado um programa de publicações, as quais irão acompanhar as exposições e apresentar os seus processos de concepção. É assim que, em Novembro, sairá uma edição especial que promete contar toda a história da coleção de Serralves. Em relação à exposição que, desde 15 de Setembro, se encontra patente e marca o recomeço da programação de 2016, torna-se claro o elevado critério da seleção de obras e da valorização dos artistas. Com 16 nomes reconhecidos, entre os quais Julião Sarmento, Pedro Barateiro ou Alberto Carneiro, é proporcionada, ao espetador, uma experiência densa e múltipla, através dos vários meios e formas utilizados. No momento em que se entra na exposição, a atenção é reclamada pela instalação de Pedro Cabrita Reis, de 2003, com o título I Dreamt Your House was a Line (Dartmouth version). A obra estende-se ao longo do corredor lateral da ala direita do Museu, iluminando o espaço com luzes brancas, intensas, sobre as paredes cor-de-laranja. Ricardo Nicolau explica que podemos entender esses elementos que compõem o trabalho como referenciais às construções operárias. É também importante identificar como esta obra, mesmo sendo adquirida por Serralves, apenas existe quando se instala no espaço e é visitada. É sitespecific, concebida para a ocasião, sem advir de quaisquer esboços e, mesmo que partilhe o conceito com outras obras do artista, este exemplar, na sua totalidade formal, apenas existe aqui e agora. Assim permanecerá até ao final da exposição, altura em que será desconstruído e guardado no acervo do Museu. Após este despertar da experiência visual, ao entrar na primeira sala, desenha-se a promessa de uma visita sedutora e envolvente, a começar com um trabalho inesperadamente colorido de Jorge Molder, artista conhecido pelas suas fotografias a preto e branco. A partir daí, as obras surgem cada uma com a sua particularidade mas unidas por surpreendentes pontos de contacto, mesmo os casos que, aparentemente, se distanciam mais, como os registos fotográficos dos projetos SAAL, de André Cepeda, em relação à instalação Artigos (2004) de Leonor Antunes. Suzanne Cotter justifica como se processam as narrativas na exposição e de que modo, em cada espaço, predomina um caráter particular: a primeira sala deixa-se ocupar pelos traços e registos dos artistas, pelos seus gestos, compreendidos em larga escala, tanto através de desenhos como de fotografias ou objetos tridimensionais. Na seguinte área, a representação de uma época manifesta-se relacionando a história portuguesa, do país, com a sua evolução cultural. Já de modo bem distinto, a terceira sala estabelece contacto com realidades surrealistas e expande os limites da arte, abrindo caminho para que, no último espaço da exposição, seja observada a pintura levada ao limite das suas possibilidades. Com uma noção fortemente contemporânea, esta exposição rompe com barreiras e manifesta o desejo de reinvenção das práticas artísticas mais tradicionais.
A partir de uma mesma vontade de invocar a arte mais atual, surge a exposição que, no mesmo dia, ocupou outro espaço do Museu. Na sala do andar superior de Serralves, encontra-se uma das formas mais atuais de produção artística, ainda em descoberta e que provoca complexas e plenas experiências sensoriais e estéticas. Com curadoria de João Ribas, uma sala escura, com tapete negro, exibe um vídeo de Rachel Zoe que, com apenas 30 anos, já se está a tornar reconhecida internacionalmente. A artista americana vive e trabalha em Nova Iorque, chegando pela primeira vez a Portugal para participar nos Projetos Contemporâneos de Serralves, uma programação que pretende surgir como plataforma para a apresentação de meios e formas atuais e inovadoras de produção artística. A participação da artista divide-se em dois momentos: o primeiro, agora patente, intitulado A Minute Ago (2014) e o segundo, Everything and More (2015) que irá inaugurar em outubro. Ambos têm como ponto de partida o vídeo, a forma de criação mais utilizada pela artista. Na obra já exposta mostra-se uma singular abordagem ao tempo, ao espaço e à condição humana. De uma complexidade visual e de conteúdo, a obra de Zoe instala-se de um modo muito próprio no espaço e cativa do primeiro ao último instante de projeção.
Através de uma inauguração dupla é assim potenciada a exposição de novos artistas, internacionais e inovadores, como é o caso de Rachel Zoe, e, ao mesmo tempo, é relembrada a importância dos nacionais que, nas últimas décadas, têm sido fundamentais no crescimento artístico e cultural do país. Estes últimos são, verdadeiramente, os que fortalecem e desenvolvem a arte contemporânea e que, apoiados com determinação pelo Museu de Arte Contemporânea de Serralves, são expostos para que o espetador os conheça pela primeira vez ou os reveja e redescubra sobre novos olhares.
Constança Babo
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CONVERSAS: ARTE PORTUGUESA RECENTE NA COLEÇÃO DE SERRALVES Artistas: Sónia Almeida, Leonor Antunes, Pedro Barateiro, Pedro Cabrita Reis, Alberto Carneiro, André Cepeda, Mauro Cerqueira, Bruno Cidra, Pedro Henriques, José Loureiro, Jorge Molder, Musa paradisiaca, Jorge Queiroz, Diogo Pimentão, Ana Santos, Julião Sarmento, André Sousa
PROJETOS CONTEMPORÂNEOS: RACHEL ROSE A Minute Ago, 2014 Everything and More, 2015
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