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EXPOSIÇÕES ATUAIS


Vista da exposição. Fotografia: Pedro Figueiredo.


Michael Krebber em Serralves. Fotografia: Pedro Figueiredo.


Michael Krebber “MK/M 2014/04â€, 2014 acrylic on canvas, 160 x 120 cm. Fotografia: Filipe Braga.


Michael Krebber “Jahresgabeâ€, 2007 - 2015 acrylic and lacquer on canvas 75 x 105 x 2 cm. Fotografia: Filipe Braga.


Michael Krebber, “Axxis 258â€, 2011 surfboard 6 parts, polystyrene, plastic 53.5 x 420 cm. Fotografia: Filipe Braga.


Vista da exposição. Fotografia: Pedro Figueiredo.

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MICHAEL KREBBER

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MUSEU DE SERRALVES - MUSEU DE ARTE CONTEMPORÂNEA
Rua D. João de Castro, 210
4150-417 Porto

14 OUT - 15 JAN 2017

MICHAEL KREBBER EM SERRALVES

 


Em 1980, o trabalho de Michael Krebber foi exibido, pela primeira vez, numa exposição coletiva no Künstlerhaus, centro cultural de Hamburgo. Na mesma cidade, seis anos mais tarde, a Alemanha descobriu mais profundamente a obra do artista na ocasião da sua estreia a solo numa pequena galeria. Desde então e de modo consistente, o artista continuou a mostrar o seu trabalho e desenvolveu um extenso repertório de exposições por vários países que o receberam a si e ao seu olhar e criação muito particulares e altamente contemporâneos. Contudo, faltava, ainda, ser apresentado ao público português, algo identificado pela instituição que, afincadamente, se dedica a trazer a arte mais atual a Portugal: o Museu de Arte Contemporânea de Serralves.

É com a curadoria de João Ribas que a obra de Michael Krebber se estende pelas galerias do museu numa agradável surpresa e de uma proposta tão inovadora quanto singular. O curador consegue apresentar no espaço todo o percurso do artista para que, de modo conciso mas profundo, se conheça a sua criação. Através de uma criteriosa seleção de obras, o corpo do trabalho encontra-se apresentado, em certa medida, como retrospetiva mas com um cuidado particular para esta não ser redutora. Ribas procurou mostrar ao espetador como se desenvolveu a produção artística de Krebber e de que modo algumas ideias nasceram, à medida que outras foram sendo abandonadas.

Também no âmbito de conhecer plenamente o artista, é necessário visitar a sua história, as suas raízes e as influências que o despertaram para a arte: Michael Krebber, nascido a 1954 em Colónia, na Alemanha, desenvolveu grande parte da sua experiência e pensamento artísticos num período passado em Nova Iorque. Nesta cidade, a sua visibilidade cresceu exponencialmente e multiplicaram-se as suas exposições, tanto nos EUA como na Europa, angariando reconhecimento à escala internacional e tendo sido selecionado como digno do prémio Wolfgang Hahn Prize, em 2015. Krebber é, justamente, um dos artistas alemães mais relevantes das últimas duas décadas e, como Suzanne Cotter explica, é tão extraordinário que opera uma ponte entre a arte alemã desenvolvida a partir dos anos 80 e a arte mais contemporânea.

Dedicado ao estudo da pintura, defende a importância da arte de pintar e, simultaneamente, de a reinventar através de um distanciamento das conceções estabelecidas sobre essa prática artística. Por isso, aborda a pintura, particularmente a sua forma mais abstrata, através de um uso inovador e arrojado dos materiais e da exploração destes consoante o conteúdo ou o contexto de toda a ação sobre a tela. Num jogo desafiante à perceção e até mesmo à interpretação, o artista apela ao debate sobre a atualidade da pintura, algo fundamental e que raramente ocorre, pois, como Ribas explana, "é difícil falar de pintura". Este meio, desde sempre trabalhado e, por isso, hiper-definido e padronizado, é sempre considerado arte, ideia resistente que despoletou em Krebber a vontade de experienciar este médium de um novo modo. Assim, mesmo não sendo particularmente apreciador da tinta e do pincel, o artista avançou, questionando a prática e explorando ideias que a ela surgiam ligadas tais como a noção de pintura conceptual.

Reconhecendo e admirando os grandes talentos da pintura, entre os quais, Jackson Pollock, Krebber sentia que não precisava de seguir as suas técnicas e modos de pintar. Não obstante, deixou-se influenciar, tanto por eles como por outros artistas com quem se relacionou pessoalmente, é o caso de Joseph Kosuth ou Dan Graham, este último principalmente pela sua conceção de objetos híbridos, obras de arte polissémicas, concebidas com materiais variados, resultados da fusão de práticas artísticas. Em acréscimo, Krebber compreendeu que o prazer está na produção, independentemente do que a obra é e comporta, ou do contexto em que foi criada. De acordo com tal linha de pensamento, deteve-se, também, na questão que Duchamp lançou ao mundo artístico: o que é arte?

Impelido por estas problemáticas, a criação artística de Krebber cresceu e, para sua surpresa, foi sendo acompanhada de crescentes convites para desenvolver exposições individuais e coletivas. A várias obras realizadas para essas ocasiões, entre outras, reporta-se com humor, reconhecendo terem sido movidas por um simples e genuíno impulso de jogar com o médium e outras temáticas. Caso disso é a reprodução e apropriação em tela de um desenho que a princesa Kate Middleton recentemente realizou em visita a uma escola.

Ainda como parte do desenvolvimento artístico de Krebber conta-se uma breve experimentação do trabalho de ator e a realização de dois filmes. Talvez por isso, reporta-se à arte e à sua exposição enquanto coreografia ou teatro, ou seja como algo que ocorre num palco, sendo este último a instituição ou o museu e os seus espaços e paredes. Também por isto, o seu trabalho deve ser contemplado e recebido, apelando à disponibilidade para uma singular experiência artística.

Ao mesmo tempo, para induzir uma maior relação de proximidade com a obra, João Ribas colocou uma cunha - wedge - no centro de uma zona da exposição, tornando necessário contornar o bloco de parede e percorrer a sala para descobrir e sentir a obra. Diferentemente, próximo do final da exposição, as obras encontram-se harmoniosamente dispostas no espaço e bem evidenciadas, umas na parede, outras no chão. Destacam-se essencialmente pela sua natureza, pois tratam-se de pranchas de windboard nas quais o artista interveio de um modo original, pintando-as e desconstruindo-as. Foi-lhes retirada a sua função e os objetos que eram antes compreendidos em relação ao desporto e ao corpo humano, passam a ser observados através da sua forma e interpretados como suportes de produção artística, como telas que comportam pinturas.

Deste modo, verifica-se uma heterogeneidade ao longo das mais de 100 peças apresentadas, que, apesar de não exibirem um nítido estilo, definível e caracterizável, comportam uma determinada e constante linguagem, uma espécie de "efeito Krebber", como João Ribas lhe chama. Talvez se trate de uma certa energia que o trabalho emana, tão crítica e séria quanto cómica, adjetivos que servem, precisamente, para caracterizar o estado de espírito do artista no momento de criação e algo que o próprio procura estender ao seu público.

A visita a esta exposição é, certamente, o passo para uma nova compreensão, a um nível altamente contemporâneo, da mais clássica e tradicional prática artística. É um convite para renovar o olhar sobre a pintura e, por momentos, aprendermos com Michael Krebber e crescermos com ele.



CONSTANÇA BABO