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CRISTINA ATAÍDE / MARTA ALVIMUNDER ALL OF THIS / CORPOS SELVAGENSGALERIA BELO-GALSTERER Rua Castilho 71 r/c esq 1250-068 Lisboa 20 OUT - 07 JAN 2016 CRISTINA ATAÍDE: UNDER ALL OF THIS A Natureza da artista plástica Cristina Ataíde sempre revelou a possibilidade de um modo de “ver” a transformação dinâmica fenomenológica do sentir e do estar. Transforma e capta em pequenos detalhes todas as coisas do Universo - way of seeing - tal como designou Frederick Amrine a Goethe, no seu artigo The Metamorphosis of the Scientist. Under All of This de Cristina Ataíde expressa semelhante conceito way of seeing, por dizer respeito ao encontro entre ciência e arte, através do caminho que percorre na Terra de baixo das estrelas, em três espaços da Galeria Belo-Galsterer. Entre o desenho e a escultura, a artista entrelaça a experiência de um caminhante que presencia a dinâmica cosmológica no seu entendimento profundo, enquanto corpo e Universo. Numa das salas, deslumbramos o movimento das cores dos fenómenos naturais, através dos desenhos. A artista revela a transformação do corpo, enquanto cosmos. Regista a ação entre o corpo-cor e o movimento da pigmentação alterada pela própria natureza, numa série de desenhos de Segundos, Minutos, Horas com e sem Neve, de 2014-2016 [por exemplo, 3 hours of Snow, 2014 ou 19 Minutes without Snow, 2016]. Cria imagens sensíveis, que determinam passagens temporais de umas para outras, de modo a contemplarmos o inatingível. Estas imagens sensíveis lembra-nos também de missing pictures de Ronald Brady, referentes a um dos seus estudos científicos sobre a natureza orgânica, por traduzirem o movimento transitório das formas do Universo. A cor vibra a impressão de um tempo preciso, sem interrupção e contínuo. Capta cada intervalo, numa repetição do instante, que geralmente se dilui. A metamorfose do corpo, enquanto cor e sensação, transforma a pigmentação no papel, produzindo texturas de variáveis tonalidades cromáticas, desde encarnado, magenta a roxo. Todavia, esse corpo é também humano. Do microcosmos olhamos para o macrocosmos, por sua vez, descobrimos o ser e o nada, através dos objectos escultóricos. Funde-se com o cosmos e as estrelas projetam-se para dentro do espaço da galeria. Quando caminhamos pelo espaço da exposição, vemos os mapas celestes traçados por Cristina Ataíde. Nos desenhos Under all of This #1 a #6, 2016, a artista cartografa vários mapas estelares, em cor vermelha, por vezes, aponta o equador, ou também identifica uma das estrelas, que se apropriou. Levamos ao questionamento e à dúvida da nossa existência, enquanto seres humanos, por inverter as várias dimensões como se fossem lentes e espelhos. Assim, contemplamos os círculos de mármore, encostados à parede e no chão [nas peças Observador da Chuva, Observador do Céu #3 e #4, S/Título, díptico, 2016]. Estas esculturas [Observador do Céu #1 e #2, 2016], situadas na sala e uma fora do espaço, reforçam esta visão existencial do ser humano. Por um lado, são uma espécie de objectos do Observatório astrológico. Por outro, deparamos com a ausência do céu e das estrelas nesse mesmo espaço. Cada uma, de grandes dimensões, convida-nos a percepcionar o Universo de um outro prisma. Observamos as estrelas dentro (e fora) do espaço artístico. Tal como afirma Emília Ferreira, “a escultura faz a sua aparição como posto de análise”. O cosmos é revisitado através das formas escultóricas, em que a artista suspende o nosso olhar, convergindo-o num outro objecto, uma espécie de telescópio em mármore, que nos direcciona para o infinito [na peça Ser e Nada, 2015]. Porventura, descobrimos o devaneio de um caminhante solitário em campo aberto de baixo das estrelas. Esta visão multidimensional que nos escapa ao nosso entendimento do senso-comum, origina um sentimento que modifica a consciência. Abarcamos a existência, corpo, o cosmos e o Universo: Under All of This.
MARTA ALVIM: CORPOS SELVAGENS A artista Marta Alvim, com um projecto intitulado Corpos Selvagens, expõe simultaneamente, numa outra sala da Galeria Belo-Galsterer, um vídeo, um objecto e três grupos de fotografias. Não contempla a Natureza, mas sim a experiência dela. Transmite também a multidimensão da natureza, que nos parece inacessível ao ser humano. A artista transparece a impermanência da Natureza, que se manifesta pela transitoriedade de todos os fenómenos naturais. No vídeo Strange form of Life – I, 2016, apresenta-nos um instante do vento e da chuva sobre um lago, quase imperceptível. Num movimento calmo e discreto. A essência é expressa por uma imagem dinâmica, agitando algo que é sentido, mas que nos escapa da aparência. Tal como afirma Sérgio Fazenda Rodrigues: “Uma membrana que, acusando a força do vento e da chuva, é fustigada e impressa por algo que é sentido mas que não é visto.” Esta invisibilidade que existe na natureza, mas que se pode sentir, é presente em todos os seus trabalhos desta exposição. A artista Marta Alvim convida ao espectador uma experiência sensorial da natureza, captando-a através de um estado meditativo. Transmite-nos através de um sentimento de existência, uma subtil dimensão não-humana. Vislumbra a passagem de todas as coisas, que pode ser sentido pelo tríptico de fotografias intituladas When shall we three meet again…?, 2016, referente à obra de Shakespeare, Macbeth, bem como noutra imagem, não literária, mas filosófica e espiritual dada pelo díptico Telepathic: Experiences, fig. 1 e fig.2, 2016. Quando contemplamos o Negro, na fotografia An Image of Happiness, 2016, atingimos a felicidade, num estado meditativo, tal como os budistas afirmam: um caminho para o “não-eu”, na medida em que o “eu” se transforma até à sua inexistência, alcançando, deste modo, a libertação, o nirvana. Por outro, temos Empathy, 2016, que somos direccionados para o pormenor, em que a mudança ocorre no desvanecimento da imagem. Também, relembra com a paisagem da montanha, o que os escritores românticos norte-americanos exaltavam da natureza enquanto selvagem – wildness – como um lugar espiritual e de entendimento cósmico, de unidade e de totalidade. O outro, a natureza, em que o ser humano faz parte integrante dela. O caminhante modifica-se com a passagem, possibilitando a libertação espiritual, quando contempla a essência. “I wish to speak a word for Nature, for absolute freedom and wildness, as contrasted with a freedom and culture merely civil – to regard man as an inhabitant, or a part and parcel of Nature, rather than a member of society”.
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