Links

EXPOSIÇÕES ATUAIS


Vista da exposição Under All of This de Cristina Ataíde. Cortesia da Galeria Belo-Galsterer e artista. Fotografia: Fernando Piçarra


Vista da exposição Under All of This de Cristina Ataíde. Cortesia da Galeria Belo-Galsterer e artista. Fotografia: Fernando Piçarra


Vista da exposição Under All of This de Cristina Ataíde. Cortesia da Galeria Belo-Galsterer e artista. Fotografia: Fernando Piçarra


Cristina Ataíde, Ser e Nada, 2015. Cortesia da Galeria Belo-Galsterer e artista. Fotografia: Joana Portela


Vista da exposição Corpos Selvagens de Marta Alvim. Cortesia da Galeria Belo-Galsterer e artista. Fotografia: Marco Pires


Vista da exposição Corpos Selvagens de Marta Alvim. Cortesia da Galeria Belo-Galsterer e artista. Fotografia: Marco Pires


Vista da exposição Corpos Selvagens de Marta Alvim. Cortesia da Galeria Belo-Galsterer e artista. Fotografia: Marco Pires

Outras exposições actuais:

COLECTIVA

1º CICLO EXPOSITIVO 2026


Museu Arpad Szenes - Vieira da Silva, Lisboa
CATARINA REAL

SUSANA PILAR

NOT ALONE


Galleria Continua (Paris - Marais), Paris
FILIPA BOSSUET

JOSÉ MAÇÃS DE CARVALHO

21 MINUTES POUR UNE IMAGE


CAPC - Círculo de Artes Plásticas - Sede, Coimbra
CONSTANÇA BABO

WILFRID ALMENDRA

HARVEST


Galeria Municipal de Arte de Almada, Almada
CARLA CARBONE

RITA MAGALHÃES

FACE A FACE – RITA MAGALHÃES E A NATUREZA-MORTA NA COLEÇÃO DO MNSR


Museu Nacional de Soares dos Reis, Porto
MARC LENOT

SUSANA ROCHA

LEAKING BODIES


Plato (Porto), Porto
SANDRA SILVA

ANDRÉ ROMÃO

INVERNO


Galeria Vera Cortês (Alvalade), Lisboa
MARIANA VARELA

PEDRO CASQUEIRO

DETOUR


MAAT, Lisboa
CARLA CARBONE

HUGO LEITE, ED FREITAS E THALES LUZ

EU SOU AQUELE QUE ESTÁ LONGE


Espaço MIRA, Porto
LEONOR GUERREIRO QUEIROZ

ANNE IMHOF

FUN IST EIN STAHLBAD


Museu de Serralves - Museu de Arte Contemporânea, Porto
MAFALDA TEIXEIRA

ARQUIVO:


CRISTINA ATAÍDE / MARTA ALVIM

UNDER ALL OF THIS / CORPOS SELVAGENS




GALERIA BELO-GALSTERER
Rua Castilho 71 r/c esq
1250-068 Lisboa

20 OUT - 07 JAN 2016


CRISTINA ATAÍDE: UNDER ALL OF THIS

A Natureza da artista plástica Cristina Ataíde sempre revelou a possibilidade de um modo de “ver” a transformação dinâmica fenomenológica do sentir e do estar. Transforma e capta em pequenos detalhes todas as coisas do Universo - way of seeing - tal como designou Frederick Amrine a Goethe, no seu artigo The Metamorphosis of the Scientist.

Under All of This de Cristina Ataíde expressa semelhante conceito way of seeing, por dizer respeito ao encontro entre ciência e arte, através do caminho que percorre na Terra de baixo das estrelas, em três espaços da Galeria Belo-Galsterer. Entre o desenho e a escultura, a artista entrelaça a experiência de um caminhante que presencia a dinâmica cosmológica no seu entendimento profundo, enquanto corpo e Universo.

Numa das salas, deslumbramos o movimento das cores dos fenómenos naturais, através dos desenhos. A artista revela a transformação do corpo, enquanto cosmos. Regista a ação entre o corpo-cor e o movimento da pigmentação alterada pela própria natureza, numa série de desenhos de Segundos, Minutos, Horas com e sem Neve, de 2014-2016 [por exemplo, 3 hours of Snow, 2014 ou 19 Minutes without Snow, 2016]. Cria imagens sensíveis, que determinam passagens temporais de umas para outras, de modo a contemplarmos o inatingível.

Estas imagens sensíveis lembra-nos também de missing pictures de Ronald Brady, referentes a um dos seus estudos científicos sobre a natureza orgânica, por traduzirem o movimento transitório das formas do Universo. A cor vibra a impressão de um tempo preciso, sem interrupção e contínuo. Capta cada intervalo, numa repetição do instante, que geralmente se dilui. A metamorfose do corpo, enquanto cor e sensação, transforma a pigmentação no papel, produzindo texturas de variáveis tonalidades cromáticas, desde encarnado, magenta a roxo.

Todavia, esse corpo é também humano. Do microcosmos olhamos para o macrocosmos, por sua vez, descobrimos o ser e o nada, através dos objectos escultóricos. Funde-se com o cosmos e as estrelas projetam-se para dentro do espaço da galeria.

Quando caminhamos pelo espaço da exposição, vemos os mapas celestes traçados por Cristina Ataíde. Nos desenhos Under all of This #1 a #6, 2016, a artista cartografa vários mapas estelares, em cor vermelha, por vezes, aponta o equador, ou também identifica uma das estrelas, que se apropriou. Levamos ao questionamento e à dúvida da nossa existência, enquanto seres humanos, por inverter as várias dimensões como se fossem lentes e espelhos. Assim, contemplamos os círculos de mármore, encostados à parede e no chão [nas peças Observador da Chuva, Observador do Céu #3 e #4, S/Título, díptico, 2016].

Estas esculturas [Observador do Céu #1 e #2, 2016], situadas na sala e uma fora do espaço, reforçam esta visão existencial do ser humano. Por um lado, são uma espécie de objectos do Observatório astrológico. Por outro, deparamos com a ausência do céu e das estrelas nesse mesmo espaço. Cada uma, de grandes dimensões, convida-nos a percepcionar o Universo de um outro prisma. Observamos as estrelas dentro (e fora) do espaço artístico. Tal como afirma Emília Ferreira, “a escultura faz a sua aparição como posto de análise”. O cosmos é revisitado através das formas escultóricas, em que a artista suspende o nosso olhar, convergindo-o num outro objecto, uma espécie de telescópio em mármore, que nos direcciona para o infinito [na peça Ser e Nada, 2015]. Porventura, descobrimos o devaneio de um caminhante solitário em campo aberto de baixo das estrelas. Esta visão multidimensional que nos escapa ao nosso entendimento do senso-comum, origina um sentimento que modifica a consciência. Abarcamos a existência, corpo, o cosmos e o Universo: Under All of This.

 

MARTA ALVIM: CORPOS SELVAGENS

A artista Marta Alvim, com um projecto intitulado Corpos Selvagens, expõe simultaneamente, numa outra sala da Galeria Belo-Galsterer, um vídeo, um objecto e três grupos de fotografias. Não contempla a Natureza, mas sim a experiência dela. Transmite também a multidimensão da natureza, que nos parece inacessível ao ser humano.

A artista transparece a impermanência da Natureza, que se manifesta pela transitoriedade de todos os fenómenos naturais. No vídeo Strange form of Life – I, 2016, apresenta-nos um instante do vento e da chuva sobre um lago, quase imperceptível. Num movimento calmo e discreto. A essência é expressa por uma imagem dinâmica, agitando algo que é sentido, mas que nos escapa da aparência. Tal como afirma Sérgio Fazenda Rodrigues: “Uma membrana que, acusando a força do vento e da chuva, é fustigada e impressa por algo que é sentido mas que não é visto.”

Esta invisibilidade que existe na natureza, mas que se pode sentir, é presente em todos os seus trabalhos desta exposição. A artista Marta Alvim convida ao espectador uma experiência sensorial da natureza, captando-a através de um estado meditativo. Transmite-nos através de um sentimento de existência, uma subtil dimensão não-humana. Vislumbra a passagem de todas as coisas, que pode ser sentido pelo tríptico de fotografias intituladas When shall we three meet again…?, 2016, referente à obra de Shakespeare, Macbeth, bem como noutra imagem, não literária, mas filosófica e espiritual dada pelo díptico Telepathic: Experiences, fig. 1 e fig.2, 2016.
Esta experiência cósmica, que é presenciada por um caminhante, ultrapassa qualquer estado perceptivo. O ser humano encontra através dela a unidade de todas as coisas, o outro é sentido. The Sould of Things, 2016, composta por uma pedra de quartzo leitoso, manifesta o outro, o “não-eu”.

Quando contemplamos o Negro, na fotografia An Image of Happiness, 2016, atingimos a felicidade, num estado meditativo, tal como os budistas afirmam: um caminho para o “não-eu”, na medida em que o “eu” se transforma até à sua inexistência, alcançando, deste modo, a libertação, o nirvana. Por outro, temos Empathy, 2016, que somos direccionados para o pormenor, em que a mudança ocorre no desvanecimento da imagem. Também, relembra com a paisagem da montanha, o que os escritores românticos norte-americanos exaltavam da natureza enquanto selvagem – wildness – como um lugar espiritual e de entendimento cósmico, de unidade e de totalidade. O outro, a natureza, em que o ser humano faz parte integrante dela. O caminhante modifica-se com a passagem, possibilitando a libertação espiritual, quando contempla a essência.

Recordamos, assim, as palavras de Thoureau, escritor romântico norte-americano:

“I wish to speak a word for Nature, for absolute freedom and wildness, as contrasted with a freedom and culture merely civil – to regard man as an inhabitant, or a part and parcel of Nature, rather than a member of society”.

 

 



JOANA CONSIGLIERI