Links

EXPOSIÇÕES ATUAIS


"Incêndio". Fotografia: Alcino Gonçalves


"Incêndio". Fotografia: Alcino Gonçalves.


"Incêndio". Fotografia: Alcino Gonçalves.


"É assim que começa..". Fotografia: Alcino Gonçalves.


"É assim que começa..", pormenor. Fotografia: Alcino Gonçalves.

Outras exposições actuais:

COLECTIVA

1º CICLO EXPOSITIVO 2026


Museu Arpad Szenes - Vieira da Silva, Lisboa
CATARINA REAL

SUSANA PILAR

NOT ALONE


Galleria Continua (Paris - Marais), Paris
FILIPA BOSSUET

JOSÉ MAÇÃS DE CARVALHO

21 MINUTES POUR UNE IMAGE


CAPC - Círculo de Artes Plásticas - Sede, Coimbra
CONSTANÇA BABO

WILFRID ALMENDRA

HARVEST


Galeria Municipal de Arte de Almada, Almada
CARLA CARBONE

RITA MAGALHÃES

FACE A FACE – RITA MAGALHÃES E A NATUREZA-MORTA NA COLEÇÃO DO MNSR


Museu Nacional de Soares dos Reis, Porto
MARC LENOT

SUSANA ROCHA

LEAKING BODIES


Plato (Porto), Porto
SANDRA SILVA

ANDRÉ ROMÃO

INVERNO


Galeria Vera Cortês (Alvalade), Lisboa
MARIANA VARELA

PEDRO CASQUEIRO

DETOUR


MAAT, Lisboa
CARLA CARBONE

HUGO LEITE, ED FREITAS E THALES LUZ

EU SOU AQUELE QUE ESTÁ LONGE


Espaço MIRA, Porto
LEONOR GUERREIRO QUEIROZ

ANNE IMHOF

FUN IST EIN STAHLBAD


Museu de Serralves - Museu de Arte Contemporânea, Porto
MAFALDA TEIXEIRA

ARQUIVO:


RUI CHAFES

INCÊNDIO




GALERIA FILOMENA SOARES
Rua da Manutenção, 80
1900-321 Lisboa

12 JAN - 18 MAR 2017


 

"Perante um organum de Pérotin, quando do fundo musical de uma nota geradora sai um movimento complexo de um contraponto de audácia verdadeiramente gótica, e três ou quatro vozes aguentam sessenta compassos consoantes sobre a mesma nota de pedal, numa variedade de subidas sonoras semelhantes aos pináculos de uma catedral (…)."
Eco, U. (2004). p. 94

 

 

A Catedral ardida de Rui Chafes recorda a ruína de uma arquitectura gótica, que a projecta para uma outra multidimensionalidade espiritual. Cria a partir das delgadas colunas, um contraponto de atonaliade espacial, numa expressividade de silêncio e de ausência. Com elas sentimos um análogo desprazer da música modernista. Lembra-nos a “emancipação da dissonância” de Schoenberg, pela liberdade dada do ritmo atonista e dissonante.

Incêndio de Rui Chafes, actual exposição na Galeria Filomena Soares, aspira a este pensamento encadeado contemporâneo, numa dobra de caminhos que se dissolvem e experimentam sentimentos obscuros. Movimenta-se e transmuta-se numa dicotomia erudita estética entre a exaltação do sublime romântico e a distância dele mesmo.

A imaterialidade e a transcendência ecoam nas esculturas em negro e na matéria orgânica, que evocam pela não-cor, o carvão e o cinza, a obscuridade. Floresce o silêncio e a ausência no espaço arquitectónico. Convoca, assim, outras memórias explanadas anteriormente nas suas obras: a morte e a tragédia, numa experiência contemporânea do legado romântico germânico, como se pode observar no presente texto do artista que acompanha a exposição: “Dormes na distância, num crescente silêncio. Despedes-te lentamente, irreversivelmente. Dia após dia te vais afastando e tudo escurece e arrefece.”

Vislumbra a existência vã e a possibilidade da ausência e do silêncio para outra dimensão. Da espiritualidade aos sentimentos íntimos velados. Entre luz e escuridão, a verticalidade transcendental dada pelas esguias esculturas e o intimismo do detalhe em pequenos objectos, Rui Chafes cria outra possibilidade das efemeridades da existência. Tudo esvanece em pó e silêncio. Na morte e no nascimento. Um eterno ciclo que segrega ou fecunda em formas híbridas, num encantamento mágico e numa poiesis visionária.

As esculturas intituladas de Incêndio, 14 peças realizadas em ferro, na sala 1, transpõe-nos para as “florações” de Novalis, que desafiam a natureza e emanam energia e respiração. Os sentimentos fundem-se com a natureza, apresentando a permanente fluidez, energia e movimento inerentes às formas orgânicas, vegetais e animais, plantas e ossos, na verticalidade escultórica. Emergem na chama e na combustão para transmutarmos para outro mundo. Fundem-se num fluxo infinito, tal como afirma Novalis na obra Fragmentos (2000): “A floração é já uma aproximação à animalidade. Talvez o mais-elevado do animal seja um produto próximo da planta.”

Contemplamos, assim, as palavras do artista contemporâneo: “Permanentemente faço um esforço para plantar uma floresta dentro dessa tua catedral. Gostava de a ver crescer, ocupar o espaço todo e dar-lhe forma, erguer-se solenemente em direcção ao céu, fazendo-o despertar e florescer as estrelas.”

Na outra sala, encontra-se a obra É assim que começa... (constuituída por 11 peças em bronze). Opõe-se pela obscuridade, luz ténue, à pequenez, à delicaleza das formas híbridas em perpétua metamorfose do animal à planta. Germinam em frágeis formas orgânicas, que poderiam ser tocadas e sentidas. Todavia, sentimos essa impossibilidade e dificuldade de o fazê-lo. Distanciadas por uma vitrina. Numa “incubadora”; numa elegia fúnebre. Surgem, assim, pequenos corpos íntimos entre nascimento e morte.

“Tudo é semente” (Novalis, 2000).

 

 



JOANA CONSIGLIERI