|
|
RUI CHAFESINCÊNDIOGALERIA FILOMENA SOARES Rua da Manutenção, 80 1900-321 Lisboa 12 JAN - 18 MAR 2017
"Perante um organum de Pérotin, quando do fundo musical de uma nota geradora sai um movimento complexo de um contraponto de audácia verdadeiramente gótica, e três ou quatro vozes aguentam sessenta compassos consoantes sobre a mesma nota de pedal, numa variedade de subidas sonoras semelhantes aos pináculos de uma catedral (…)."
A Catedral ardida de Rui Chafes recorda a ruína de uma arquitectura gótica, que a projecta para uma outra multidimensionalidade espiritual. Cria a partir das delgadas colunas, um contraponto de atonaliade espacial, numa expressividade de silêncio e de ausência. Com elas sentimos um análogo desprazer da música modernista. Lembra-nos a “emancipação da dissonância” de Schoenberg, pela liberdade dada do ritmo atonista e dissonante. Incêndio de Rui Chafes, actual exposição na Galeria Filomena Soares, aspira a este pensamento encadeado contemporâneo, numa dobra de caminhos que se dissolvem e experimentam sentimentos obscuros. Movimenta-se e transmuta-se numa dicotomia erudita estética entre a exaltação do sublime romântico e a distância dele mesmo. A imaterialidade e a transcendência ecoam nas esculturas em negro e na matéria orgânica, que evocam pela não-cor, o carvão e o cinza, a obscuridade. Floresce o silêncio e a ausência no espaço arquitectónico. Convoca, assim, outras memórias explanadas anteriormente nas suas obras: a morte e a tragédia, numa experiência contemporânea do legado romântico germânico, como se pode observar no presente texto do artista que acompanha a exposição: “Dormes na distância, num crescente silêncio. Despedes-te lentamente, irreversivelmente. Dia após dia te vais afastando e tudo escurece e arrefece.” Vislumbra a existência vã e a possibilidade da ausência e do silêncio para outra dimensão. Da espiritualidade aos sentimentos íntimos velados. Entre luz e escuridão, a verticalidade transcendental dada pelas esguias esculturas e o intimismo do detalhe em pequenos objectos, Rui Chafes cria outra possibilidade das efemeridades da existência. Tudo esvanece em pó e silêncio. Na morte e no nascimento. Um eterno ciclo que segrega ou fecunda em formas híbridas, num encantamento mágico e numa poiesis visionária. As esculturas intituladas de Incêndio, 14 peças realizadas em ferro, na sala 1, transpõe-nos para as “florações” de Novalis, que desafiam a natureza e emanam energia e respiração. Os sentimentos fundem-se com a natureza, apresentando a permanente fluidez, energia e movimento inerentes às formas orgânicas, vegetais e animais, plantas e ossos, na verticalidade escultórica. Emergem na chama e na combustão para transmutarmos para outro mundo. Fundem-se num fluxo infinito, tal como afirma Novalis na obra Fragmentos (2000): “A floração é já uma aproximação à animalidade. Talvez o mais-elevado do animal seja um produto próximo da planta.” Contemplamos, assim, as palavras do artista contemporâneo: “Permanentemente faço um esforço para plantar uma floresta dentro dessa tua catedral. Gostava de a ver crescer, ocupar o espaço todo e dar-lhe forma, erguer-se solenemente em direcção ao céu, fazendo-o despertar e florescer as estrelas.” Na outra sala, encontra-se a obra É assim que começa... (constuituída por 11 peças em bronze). Opõe-se pela obscuridade, luz ténue, à pequenez, à delicaleza das formas híbridas em perpétua metamorfose do animal à planta. Germinam em frágeis formas orgânicas, que poderiam ser tocadas e sentidas. Todavia, sentimos essa impossibilidade e dificuldade de o fazê-lo. Distanciadas por uma vitrina. Numa “incubadora”; numa elegia fúnebre. Surgem, assim, pequenos corpos íntimos entre nascimento e morte. “Tudo é semente” (Novalis, 2000).
|


















