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COLECTIVAThree Colours – BlueGROß LEUTHEN 09 JUL - 10 SET 2006 “Three Colours – Blue”, é uma exposição colectiva que ocupa todo o castelo Groß Leuthen situado em Spreewald, na margem de um amplo e belo lago, a cerca de uma hora de Berlim. Esta exposição, é a primeira de uma trilogia inspirada na obra do realizador Krzystof Kieslowsky, “Three Colours: Blue, White, Red”. Kieslowsky desenvolveu esta obra (a última finalizada antes da sua morte) identificando cada um dos filmes com uma das cores do estandarte da Revolução Francesa. As cores, Azul, Branco e Vermelho, significaram para o realizador, a Liberdade, a Igualdade e a Fraternidade. Blue expõe a expressão individual (objectiva e subjectiva) nos diversos graus de relacionamento que cada ser humano tenta estabelecer com outros, independentente da sua condição ou origem e do lugar do mundo onde se encontra. Da forma como podemos ser livres. O conceito da exposição, a liberdade criadora e as suas formas de expressão, transforma-se num dédalo de dialécticas individuais que se confrontam com três premissas fundamentais apresentadas pelo curador: Punição, Vigilância e Proibição; Género e Desejo; Liberdade e Direitos Humanos. O curador Mark Gisbourne atribui um espaço de liberdade às doze propostas que oscilam entre o diálogo com a arquitectura do castelo e do lugar, e o monólogo, em alguns casos menos atractivo, criando situações muito diferenciadas. A instalação de Monica Bonvicini, é um dos momentos em que esse diálogo surpreende. A artista esventra de forma clara e desconcertante o espaço expositivo, libertando-o dos objectos que lhe são apropriados, as obras a expor. A sala que a artista escolheu (com uma janela fronteira ao lago) está liberta. À beira do lago, surge instalado um painel luminoso em que se pode ler, NOT FOR YOU, como uma advertência catalisadora (um aviso?), criando uma situação crítica sobre o espaço e as regras inerentes ao seu uso, e em simultâneo uma chamada de atenção para o lugar onde se encontra a sala, o castelo e a nossa relação com estes. A dupla de artistas, Langlands & Bell, apresenta “Who´s Afraid of Blue, White and Red?, uma obra poderosa e muito eficaz no contexto da exposição. O título, estabelece a primeira marcação dos diversos cruzamentos que vamos encontrar a partir da utilização da linguagem (as cores, as cifras, as palavras). Numa referência directa ao título da trilogia de exposições, recupera simultaneamente a presença crítica de uma outra obra, datada de 1966, da autoria de Barnett Newman, “Who´s Afraid of Red, Yellow, and Blue?”. A primeira aproximação a este trabalho surpreende-nos num dos óculos da fachada do castelo. Uma bandeira exibe cifras e palavras monossilábicas, sobre uma quadrícula azul, vermelha e branca com matizes rosa e cinza denunciando um território. No primeiro andar, a instalação ocupa todo o espaço da sala pintado de vermelho e azul (incluindo as vidraças das janelas) contendo um vídeo de grandes dimensões que sobrepõe sucessivamente cores, palavras e signos, como uma network visualmente activa e veloz que se torna por vezes ilegível, aludindo à profusão dinâmica da informação. Num outro espaço menos óbvio para o visitante, a cave húmida e menos cuidada, Gregor Schneider apresenta desenhos e fotomontagens do projecto “Black Cube”, não realizado como obra finalizada para a última Bienal de Veneza (2005). O projecto não foi autorizado por razões geo-políticas trazendo a concretude da realidade global. Não sendo uma obra nova, confronta o espectador de uma forma directa com o problema da censura da liberdade, e da equidistância, por vezes difícil de determinar, entre a potencialidade criadora, politizada ou não, e a dimensão constritora da política e religião no mundo contemporâneo, na esteira de temas como a vigilância, proibição, liberdade e direitos humanos. Na mesma linha de questionamento e reflexão, “Revolution – Patriotismo”, é o título da instalação de Costa Vece com uma forte presença visual e simbólica. A relação do espectador com esta obra é de ambiguidade e desconforto perante a presença de um muro de chapas metálicas encimado por arame farpado, projectores de vigilância, grafitis, imagens pintadas do autor, como um revoltoso, empunhando uma metralhadora. Uma referência a lugares e vivências ligados a questões como a imigração, a exclusão e a revolta, a indignação frente à indiferença e ao desenraizamento. Aqui a palavra é utilizada com uma mensagem simples e directa, um apelo ou uma exortação, num dos lados da instalação pode ler-ser a seguinte frase: we never forget. Vasco Araújo, apresenta o vídeo “Far de Donna” e duas vitrinas da série “L’Inceste”, conseguindo uma montagem perfeitamente integrada na arquitectura e ambiente do castelo, mas apartada das normas tidas como convencionais, num subtil desafio aos códigos morais que não excluem figuras como o licencioso, o libertino e a consciência de que a liberdade é um material inadaptado à forja das convicções morais estabelecidas. Se as duas vitrinas iluminam o pecado do incesto, “Far de Donna” é o alçapão sem fundo. A narrativa apresenta um jovem rapaz que descobre uma potencialidade particular na voz, alto tenor, como um Castrati. Nesse momento da sua vida, a sua mãe reduz-se na sua potencialidade humana ao perder a voz, amputação maior que a privará da linguagem pela palavra, pelo som fonético que pode ser apenas um som de desespero ou um esgar de amor. Um deles torna-se o espelho e o outro a imagem que que lhe dá o sentido pela visualidade. A difícil construção da identidade está aliada a um sinal subtil e discreto sobre os diversos rostos da vulnerabilidade a que somos sujeitos. O tempo e a memória, o desejo e a sobrevivência estão presentes na obra, “survivor (at the lake)”, de AK Dolven, que estabelece uma relação entre o lago fronteiro ao castelo e um outro lago situado nas ilhas Lofoten, na Noruega país de origem da artista. Uma fotografia de grandes dimensões e uma projecção de um plano fixo, registada em filme (formato 16 mm), de pequenas dimensões, à escala de uma pequena pintura paisagística, representam o mesmo local em duas estações do ano. No Inverno, a imagem da encosta e do lago gelados estabelecem um confronto com a imagem projectada do mesmo local durante o Verão. As duas imagens são aparentemente ligadas por dois momentos do tempo, dois estados físicos de um mesmo lugar iludindo-nos com a presença da paisagem abstractizante na fotografia e contemplativa e romântica no filme projectado. Esta obra guarda uma intrigante dinâmica em que o tempo, a nostalgia e perseverança regem o leitmotiv da artista. A projecção apresenta dois pontos luminosos incrustados na encosta verde, estes dois pontos são restos do gelo do Inverno que resistem à passagem das estações e se mantém naquele local permanentemente. Serão sempre reencontrados, camuflados sob o manto de neve ou em contraste com a encosta verdejante estival. A resistência é uma medida para o tempo e um sinal de liberdade. Numa falsa perspectiva romântica, a magia das gaiolas (estranhas) ou a projecção provocada por uma lanterna em contínuo movimento rotativo, transportam-nos para um instante intemporal, numa sala escura em que estrelas e silhuetas de soldados rodopiam como se estivéssemos no centro de uma lanterna mágica. Da autoria de Mona Hatoum, “Variations on a Theme, 81. Misbad”, remete-nos para o controlo dos mecanismos evocativos, presentes nas histórias de encantar e nas aspirações quotidianas, aproximando o espectador da reflexão sobre as condições em que cada um de nós constrói a liberdade ou a segregação, a prisão disfarçada por um universo mágico e fantasioso que pode ser imolado por um aviso, Waiting is Forbiden, inscrição em árabe e inglês sobre uma placa esmaltada colocada numa sala contígua. “Blue”, é uma séria proposta de reflexão, não apenas sobre as possibilidades em aberto para a prática reflexiva e criativa dos artistas, mas fundamentalmente uma observação sobre as ocorrências num lugar, urbano ou rural, em conflito ou em abandono. De que forma a sua diferenciação e intercepção permite as condições básicas para a liberdade.
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