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COLECTIVADA COLEÇÃO EM CHAVES: CORPO, ABSTRAÇÃO E LINGUAGEM NA ARTE PORTUGUESA: OBRAS EM DEPÓSITO DA SECRETARIA DE ESTADO DA CULTURA NA COLEÇÃO DE SERRALVESMUSEU DE ARTE CONTEMPORÂNEA NADIR AFONSO Av. 5 de Outubro nº 10 5400-017 Chaves 28 ABR - 15 OUT 2017
Assim foi concebida uma exposição que se anuncia, na entrada do museu, com a instalação do Mapa Mundi de Nikia Skapinakis. Como diria o próprio artista, o trabalho apresenta-se com uma técnica sensível, onde se reúnem e cruzam sensibilidades, conhecimentos e histórias. Detendo de uma energia forte e singular, o trabalho constrói um diálogo com a escultura disposta em frente, de José de Guimarães, e o quadro ao lado, de Álvaro Lapa. Também próximo da obra de Skapinakis, revela-se o título da exposição: Corpo, Abstração e Linguagem na Arte Portuguesa: obras em depósito da Secretaria de Estado da Cultura na Coleção de Serralves. O tema anunciado, sendo abrangente, possibilita abarcar uma grande e heterógena variedade de trabalhos e artistas. Como a curadora Marta Moreira de Almeida explica, tratam-se de "obras que nos abrem a história da arte portuguesa". Das 4300 obras que compõem hoje a coleção de Serralves, 500 pertencem à SEC e foram adquiridas a partir de 1989. Dessas iniciais que, em certa medida, podem ser compreendidas como o embrião do museu, a partir do qual ele se estabeleceu e começou a crescer, foram escolhidas trinta. Deste modo, a presente exposição revela-se como uma rara oportunidade para descobrir o ponto de partida e percurso do que hoje conhecemos como o Museu de Arte Contemporânea de Serralves. Por conseguinte, desenha-se um marco particularmente especial, como explicou à imprensa a presidente Ana Pinho. Quanto à seleção que nos é trazida ao Museu Nadir Afonso, esta foi determinada de acordo com a aproximação às temáticas que o título anuncia, traçando uma linha de unidade entre as peças. Procurou-se que fossem criadas narrativas, obra após obra e artista após artista. Uma primeira realidade comum a todas as obras, que lhes está inerente desde o momento de criação, é o facto de representarem os diálogos estabelecidos entre artistas portugueses e entre estes e a restante produção artística internacional, na época do pós-guerra. Hoje é mostrado o terreno comum que, nessa altura, foi criado através da pintura e da escultura, entre os artistas que estiveram presos, como Júlio Pomar, os que se exilaram, caso de Jorge Martins, e os que tiveram a possibilidade de ir estudar para o estrangeiro, como Lourdes Castro, Ângelo de Sousa e Eduardo Batarda. O texto da folha de sala foi composto por uma ordem cronológica, contudo, esta não foi implementada na montagem da exposição pelos comissários, ambos de Serralves, Marta Almeida e Ricardo Nicolau. Para além das obras datarem todas das décadas de 60, 70 e 80, os curadores deixaram-se, unicamente, guiar pela experiência proporcionada por cada peça, pelo seu significado e possível interpretação, frequentemente considerados como mais intrínsecos em toda a obra de arte do que a data que lhe está associada. Deste modo, a leitura do conjunto dos trabalhos resultou de forma mais sequencial, fluída e harmoniosa. A curadora explica que "nesta exposição não há fronteiras" e, assim, a prática artística ou o material de produção não são condicionantes. Como tal, encontramos uma grande variedade de conceitos e formas que, apesar disso, se anunciam equilibradamente uns a seguir aos outros, ao longo de duas salas. As obras, todas de autorias distintas, exceptuando o caso de Álvaro Lapa e Manuel Batista, cada um representado por dois trabalhos, contrastam e dialogam com o que as rodeia, com o trabalho anterior e com o seguinte. Por exemplo, na primeira sala, há uma dança entre a abstração do trabalho de Fernando Lanhas e a figuração de Paula Rego. As restantes paredes cobrem-se de pinturas e a área central é ocupada por duas esculturas de José Pedro Croft que se assumem de forma surpreendente, mas nem por isso inusitada. No seguinte espaço, o olhar é retido pela grande peça que se impõe e ocupa uma posição central, com o título 18 citações tiradas de "A memória do corpo sobre a terra" (1985-86), de Alberto Carneiro. Trata-se de mais um belíssimo exemplar da conceituada obra do artista português, à qual foi dada o destaque certamente merecido e, por sinal, particularmente simbólico, passado pouco tempo sobre o falecimento deste brilhante artista que quer os seus contemporâneos, como o país e a arte lamentavelmente perderam. A partir da saída de ambas as salas há um vislumbre da exposição de Nadir Afonso, também ele um dos artistas mais icónicos da arte contemporânea nacional. O seu trabalho ergue-se, aqui, como uma sólida continuação e conclusão da visita à mostra que celebra, de forma tão bem concebida, o inicio da arte contemporânea portuguesa. Na apresentação da exposição itinerante, no dia 28 de abril, António Cabeleira, presidente da Câmara de Chaves, distinguiu o Museu de Serralves como "o melhor do país", justificando o seu contentamento pela parceria instituída e pelo apoio na programação da grande aposta e investimento em que consiste o Museu Nadir Afonso. Na mesma ocasião, Ana Pinho também reconheceu que este é um passo acertado para Serralves, contribuindo para o objetivo de levar a arte contemporânea da instituição para mais longe, fora de portas. Poderá dizer-se que este contributo para a descentralização das exposições no país vem a par do que os próprios artistas presentemente exibidos procuraram: abolir fronteiras entre a cultura mais erudita e a popular. Por conseguinte, assume-se a importância de visitar esta exposição itinerante, patente até dia 15 de outubro.
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