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PETER TSCHRKASSKY E APICHATPONG WEERASETHAKULFrame by frame / WaterfallSOLAR - GALERIA DE ARTE CINEMÃTICA Solar de S. Roque Rua do Lidador Vila do Conde 08 JUL - 09 SET 2006 A cascata e o sonhoO Solar, Galeria de Arte Cinemática de Vila do Conde, apresenta uma exposição dúplice, ou seja, dois cineastas com duas exposições muito diversas no seu espaço. Os dois expõe pela primeira vez em Portugal. Peter Tscherkassky apresenta “Frame by Frameâ€, a sua estreia no domÃnio da instalação artÃstica e Apichatpong Weerasethakul apresenta “Waterfallâ€, uma instalação criada expressamente para o Solar. Peter Tscherkassky vive e trabalha em Viena de Ãustria, Apichatpong Weerasethakul em Khon Kaen perto de Bangkok, na Tailândia. “Frame by Frame†é a exposição do trabalho de arqueologia da imagem cinematográfica de Peter Tscherkassky. Se entrarmos pela rampa das traseiras (de cerca 7 metros de altura) que dá acesso à galeria deparamos com uma vitrine onde se encontram alguns objectos de espeleologia deste criador: tesoura, caneta - laser de criança e um metrómetro. Começamos a ouvir o tic-tac do relógio do cineasta. Rewind... voltamos à entrada principal da galeria que se faz pela Rua do Lidador: estamos perante um quadro a preto e branco, iluminado, uma moldura à pelÃcula de “Outer Space†(1999), a obra cardinal da trilogia cinematográfica mais conhecida de Peter Tscherkassky da qual podemos ver um extracto num televisor. “L’Arrivée†(1997-98), homenagem aos irmãos Lumière, também faz a sua aparição no escuro. O dispositivo expositivo consiste em 4 quadros a preto e branco, iluminados, de pelÃcula dos filmes, visionáveis em televisores suspensos por cabos de aço: “Outer Spaceâ€, “Dream Work†(2001), “L’Arrivée†e o mais recente, “Instructions for a Light and Sound Machine†(2005). O cineasta que situa o seu trabalho de pesquisa no cruzamento entre a estética de Dziga Vertov e de Man Ray realiza as suas obras, exclusivamente, com a matéria cinematográfica em vias de extinção: a pelÃcula. Utilizando “found footage†como uma cópia do filme “The Entity†(USA 1981), de Sidney J. Furie, Tscherkassky filma na sua câmara escura a pelÃcula, “sobreimpressiona†e dá uma nova vida à s imagens, libertando da sua imanência um outro olhar das personagens; deixa-nos entrar pelas perfurações do celulóide e ouvir o rumor do monstro argentico que serpenteia na bobine. As suas obras mostram-nos o sonho do cinema e encarnam uma outra realidade dentro da ficção, revelam a vida que existe fora do fotograma. São filmes criados dentro de outros filmes e que vivem uma outra vida, são os fantasmas da imagem deixados em liberdade. Tudo numa valsa cadenciada pela música concreta da pelÃcula. Continuamos no Solar e passamos da transparência entre os recortes verticais a preto e branco iluminados de Tscherkassky à cor luxuriante das selvas de Apichatpong. “Waterfall†é uma criação in-situ do artista tailandês e transporta-nos a uma outra paisagem fÃlmica, exterior, ao rumor incessante de torrentes de água, de cascatas que se despenham no solo, aos nossos pés. Um dos actores do filme “Tropical Malady†(a longa metragem mais premiada do artista) fala numa das projecções, dir-se-ia que conta uma história mas estamos surdos para ouvi-la, pelo cair incessante da água; homens nadam num lago, crianças escorregam na água da cascata, peixes primordiais passeiam tranquilos. A instalação tem como suportes um dispositivo de 9 ecrãs de várias dimensões e provoca a sensação de que a água está lá, presente, que existe uma nascente por detrás da pedra da galeria que está prestes a irromper com a sua força diluvial. Na apresentação de “Waterfallâ€, feita por Apichatpong, no desdobrável da exposição, é referido um acidente de helicóptero ocorrido nos arredores da cascata e o autor descreve a sua deriva pessoal em torno dessas pessoas nunca reencontradas. Porém o que se vive no Solar não retrata essa história. O personagem que fala entre sorrisos num dos ecrãs poderia estar a contar esse acidente real ou qualquer outra lenda que o tumulto da água silencia. Este artista tem apresentado os seus filmes muitas vezes sob forma de instalações tal como: “Haunted Hauses†( 2001) para a Bienal de Istambul ou “Ghost of Asia†(2005), apresentada este ano na exposição colectiva parisiense “La Force de l’Artâ€. Peter Tscherkassky nos seus filmes, que são uma referêcia da vanguarda experimental europeia contemporânea, apresenta-nos um tempo de condensação das imagens. Imagens chicoteadas pelo relâmpago que precede a tempestade que a sua enérgica desfragmentação desencadeia. Apichatpong nas suas instalações em forma de filme apresenta-nos um tempo indefinido, onde as imagens se sucedem lentamente com o torpor do calor tropical. Este tempo parece não ter fim e a narração é feita por acaso. Apichatpong traz-nos a chuva permanente das monções que leva a imagem a se esvaziar dos fantasmas que Tscherkassky liberta.
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