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COLECTIVA

On Mobility




DE APPEL ARTS CENTRE
Prins Hendrikkade 142
1011 AT Amsterdam, Nederlands

14 JUL - 27 AGO 2006


As vidas de muitos cidadãos do mundo são afectadas pela imigração forçada, enquanto muitos outros viajam livre e frequentemente. A severa realidade dos que não se movem por escolha própria contrasta com as vidas e liberdades dos privilegiados, como os artistas, que são convidados a exibir os seus trabalhos em todo o mundo.
Ainda assim, muitos artistas estão preocupados com os seus companheiros: e nos seus trabalhos, imigração e mobilidade, assimilação e tradução, são elementos chave nos nossos dias. A par de aproximações cinematográficas e documentais, a essência da disciplina visual de artistas contemporâneos ainda parece ser uma condição
sine qua non para analisar e desconstruir o complexo imaginário e as referidas semânticas. O projecto ‘On Mobility’ explora diferentes pontos de vista deste tema e mostra trabalhos executados por artistas que examinam mobilidade no seu sentido mais lato.
Curadora: Saskia Bos, directora do De Appel.

Por altura do início do projecto “On Mobilityâ€, em 2005, acreditava eu, e não sem orgulho, que tinha escolhido para viver um país onde a imigração era aceite como uma questão importante para o desenvolvimento económico. A existência de um Ministério da Imigração, as diferentes instituições, privadas e públicas de apoio ao imigrante e toda a estrutura de uma sociedade multicultural, levavam-me a crer que assim era. Naturalmente que tinha conhecimento de problemas graves de inclusão social por parte de diferentes comunidades estrangeiras. O assassínio de Theo Van Gogh (realizador do filme “Submissão†que chocou a comunidade árabe nos Países Baixos) era disso prova. Mas estava convicta de que os problemas eram originados pela inadaptação estrangeira, e que os Neerlandeses em ‘geral’ aceitavam de braços abertos a imigração. A comprovar essa minha ilusão estavam os 13 imigrantes de 1a geração e os 2 refugiados políticos como deputados no parlamento Neerlandês. E o ter recebido, três anos após a minha imigração, o meu primeiro boletim de voto para as eleições autárquicas de Roterdão, pelo correio.

Foi neste contexto social que, em Agosto de 2005, o projecto ‘On Mobility’ de Saskia Bos se iniciou no Centro de Arte De Appel em Amesterdão e não foi por acaso. A imigração é um assunto da ordem do dia, nos Países Baixos. E o De Appel é uma instituição artística que desde a sua fundação (em 1974) está vocacionado para uma arte política, de responsabilidade social e procura contribuir activamente para a discussão e a problematização do sistema artístico em geral no chamado “programa de terça à noiteâ€. Foi o primeiro espaço nos Países Baixos a mostrar performance e projectos desenvolvidos com comunidades. Desta forma, o De Appel tornou-se numa das instituições de maior relevo em Amesterdão, sendo hoje uma peça chave no panorama artístico Neerlandês. Por lá passou Ernesto de Sousa, em 1981, no âmbito do congresso da IKG onde se apresentou numa performance, que consistia num texto dito e cantado em língua portuguesa, sobre “o problema estético, interdisciplinar e interculturalâ€.

“On Mobility†foi realizado em conjunto com o Büro Friedrich, Berlim; o Centro de Arte Contemporânea de Vilnius; e Trafó, Stúdió Galeria en Mücsarnok, Budapeste, por onde passou. No passado dia 15 de Julho, ‘On Mobility’ regressou ao ponto de partida e inaugurou no De Appel, a última paragem desta exposição itinerante/imigrante. Ao longo da passagem pelas referidas cidades a exposição foi-se alterando: foram-se-lhe acrescentado trabalhos de novos artistas, enquanto outros ficaram pelo caminho.

“On Mobility†tem acima de tudo um carácter documental. As formas expositivas variam entre a fotografia, o vídeo e a instalação. A temática dos trabalhos passa não só pelo fenómeno da imigração, mas também por outras problemáticas de mobilidade, como a colorida série de fotografias de Andrew Miksys, que documentam o maior centro comercial da Lituânia, Akropolis, onde diariamente chegam excursões de autocarros vindos de toda a Lituânia e dos países vizinhos para visitarem o centro como uma atracção turística. Ou ainda o projecto Import de Leopold Kessler, que faz contrabando de um maço de tabaco entre Viena e Budapeste colando-o no exterior de um comboio. A acção é documentada através do vídeo e levanta questões globais como a movimentação de mercadorias e o conceito político de fronteiras. Miklós Erhart traz à discussão uma outra perspectiva de mobilidade. O autor alugou durante algumas semanas em “Havannaâ€, um bairro modernista de 20.000 habitantes construído nos anos setenta, e considerado uma das zonas mais perigosas de Budapeste, um dos muitos espaços comerciais vazios, sem ainda saber muito bem qual seria o objectivo do seu trabalho. O resultado é um vídeo onde se vê a (pouca) vida do bairro do interior da loja. A imagem quase parada, monótona e crua contrasta com uma voz off que divaga por considerações não só sobre as ideias neo-liberais da mobilidade social e económica, como também sobre o lugar do artista dentro de uma comunidade e sobre o desenvolvimento do seu próprio trabalho. É um projecto que acima de tudo se pensa a si próprio e às condições da sua produção, em confrontação com uma outra realidade.

Os sapatos desportivos “Brincoâ€, criados por Judi Werthein, são destinados a imigrantes que pretendam passar ilegalmente a fronteira para os Estados Unidos. Enquanto em Tijuana 500 pares são oferecidos gratuitamente a todos aqueles que pretendam dar o “salto†para “a terra das oportunidadesâ€, e vistos como uma peça utilitária, no outro lado da fronteira, em San Diego, são vendidos por $215 numa sapataria de modelos exclusivos, e apresentados como uma peça de arte em colecções. Grande parte dos lucros são revertidos a favor da Casa del Migrante, em Tijuana, o restante será para pagar a produção dos 1000 pares existentes. Na exposição “On Mobility†estão presentes os sapatos, um vídeo feito na Casa del Migrante e uma segunda projecção de vídeo que mostra excertos televisivos de entrevistas à autora e de reportagens americanas sobre o projecto. Apesar de toda a polémica, Werthein não assume que esteja a apoiar ou a incentivar a imigração ilegal – o que é pena, porque a formulação política pressupõe perspectivas e tomadas de posição claras – referindo que está apenas a “provocar uma discussão importante. O verdadeiro incentivo para os imigrantes ilegais, é a solicitação americana de mão de obra barataâ€.

Esta mostra apareceu no rescaldo de um acontecimento político que no último meio ano transformou a opinião pública neerlandesa sobre a imigração, quando a Ministra da Imigração Rita Verdonk anunciou que a deputada e asilada política Ayaan Hirsi Ali, originária da Somália e uma das mais activas figuras políticas dos Países Baixos, perdera a sua cidadania neerlandesa por ter mentido no processo de naturalização. O facto era do conhecimento público desde 2002, quando Hirsi Ali aceitou o cargo de deputada pelo VVD. A 16 de Maio de 2006, Hirsi Ali vê-se obrigada a demitir-se do Parlamento e aceita o convite para integrar a administração Bush nos Estado Unidos, para onde imigrou mais uma vez. Em consequência deste escândalo político que abalou o país, o governo cai e eleições antecipadas irão ter lugar em Novembro deste ano. Rita Verdonk desaparece da cena política e Hirsi Ali recupera a sua nacionalidade neerlandesa. Mas a opinião pública não volta a ser a mesma. Caíram as máscaras, perdi a minha ingenuidade.




Daniela Paes Leão