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SARA BICHÃOENCONTRA-ME, MATO-TEFUNDAÇÃO CALOUSTE GULBENKIAN Av. de Berna, 45 A 1067-001 Lisboa 16 MAR - 04 JUN 2018 Os círculos fúnebres de Sara Bichão
No último painel das Visões do Além (na Gallerie dell'Accademia de Veneza), Hieronymus Bosch pintou a Ascensão ao Empíreo sob a forma de um túnel luminoso, deslumbrante, no qual flutuam almas assexuadas, fragilmente suportadas por anjos. Vemos aqui um símbolo de experiências de morte eminente, e é difícil não pensar na experiência (e na exposição na Fundação Calouste Gulbenkian) de Sara Bichão. A artista relata que, nadando em Auvergne num lago circular na cratera de um vulcão extinto (como este, sobre o qual aterrorizantes lendas antigas ainda circulam), se encontrou de repente, no centro mesmo do círculo lacustre, num segundo estado, tendo perdido todo o sentido de orientação, desligada de si mesma, atordoada, em suspensão. Tendo escapado do abismo, apesar do seu pânico, Sara concebeu este projeto artístico com um título violento, ambivalente (e talvez esquizofrénico): "Encontra-me, mato-te."
A forma circular do lago vulcânico torna-se o próprio sujeito do seu trabalho sobre esta experiência, de morte iminente à qual a artista escapou, de pânico que superou; o círculo no lugar da grelha ortogonal, as coordenadas curvilíneas e não cartesianas, uma desordem em vez de um sistema de orientação. Para passar da morte iminente à arte? No prefácio do catálogo de uma exposição, Deadline, sobre artistas que se aproximam da morte, Fabrice Hergott, Director do Museu de Arte Moderna de Paris, escreveu "a arte é uma forma de tolerar a morte", enquanto um pouco mais adiante vemos um auto-retrato de James Lee Byars realizado três anos antes da sua morte: uma moldura circular de madeira dourada cercando apenas o negro. É um outro círculo fúnebre que abre a exposição de Sara Bichão, um círculo luminoso no teto, com lâmpadas azuis e vermelhas, quentes e frias (e dois brancos, eixo Norte-Sul, significado da direção perdida); no hall de entrada, mais luminoso, não parece menos ameaçador. Quando entramos na sala silenciosa da exposição, o primeiro espanto é o da escuridão. Já familiarizado com a obra de Sara Bichão e tendo visto a sua recente exposição (terminada a 29 de Abril, no Atelier-Museu Júlio Pomar), esperamos ver um white cube, esculturas claras e formais, frias e abstratas, nem figurativas, nem carregadas de afeto, sem grande encenação. Não podemos deixar de nos impressionar com a maneira como a artista de 32 anos soube aqui transfigurar artisticamente a sua experiência trágica. A sala está escura, muito escura; primeiro vi dois cadáveres, dois corpos no chão. Um, mais distante, rígido como deveria ser, está habitado por luzes LED azuis; chama-se X, aquele que está riscado, aquele que não é mais, que perdeu tudo. O seu brilho azulado e frio evoca para mim os cinco diamantes de Byars, esse pentágono em forma de corpo com o qual encenou a sua morte próxima. Em contraponto, o outro corpo no chão é mais flácido, mais flexível, lânguido, e abandonado como um homem afogado rejeitado pelas ondas; feito de tecido jersey e de cordas de algodão, é adornado com caroços de pêssego, como se de outros tantos crustáceos que nele se teriam fixado. O seu nome é Grave, e, além do significado em português (idêntico ao francês), não posso deixar de mencionar o significado em inglês, um túmulo (ou a sua ausência).
A todo o comprimento da sala, 25 metros, corre um tecido suspenso, iluminado por LEDs vermelhos, que, mais que uma rede, evoca uma mortalha. No interior, o que eu primeiro tomei por preservativos e que são na realidade dedeiras, cheias de água, parecem ser ovos reptilianos em gestação num ventre fecundo. A impressão é de um ritual secreto, de forças ctónicas prontas a se libertarem, de práticas animistas mágicas. Na frente, um poço, outro círculo, ligação entre as profundezas e os céus: o seu título é, naturalmente, Vertigem. A vertigem que a tomou nesse lago, essa vertigem que nos pode acometer nas altas montanhas ou em alto mar, essa vertigem que poderá nascer de uma experiência visual hipnótica (como o oculus de Daniel Blaufuks), é aqui aprisionada, domesticada, trancada em betão, adornada com um fino friso de ondulações azuis, erguida até à altura do torso da artista. Tudo aqui está à sua medida, ao seu peso, seu tamanho, sua largura do ombro: o corpo da artista, invisível, é aqui omnipresente, ele é "a medida de todas as coisas". Na parede atrás, uma dezena de desenhos, realizados imediatamente após o não-afogamento, sobre tecidos esticados como se peles de animais. Mais adiante, objetos diversos, feitos de látex, algodão, madeira, borracha, pão, café, prata e aparas de unhas, mais evocativos da sua prática escultórica, são alinhados como uma costa sob o título de Porto seguro, o porto, lá onde se pode refugiar dos perigos marinhos (ou lacustres).
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