|
|
COLECTIVALUGARES DO DELÍRIOSESC POMPEIA Rua Clélia, 93 - Pompeia São Paulo - SP, 05042-000, Brasil 10 ABR - 01 JUL 2018 A REALIDADE NÃO BASTA
Arthur Bispo do Rosário não era conhecido pelo grande público até a 30a Bienal de São Paulo, em 2012. Ali, sua vida, mais do que sua obra, foi aclamada e destacada: nascido no Sergipe, no nordeste do Brasil, na primeira década do século XX, ele era um marinheiro negro e pobre que ganhava seus trocados fazendo bicos como lavador de ônibus e guarda-costas. Após um delírio místico, ele foi internado num hospital psiquiátrico, com diagnóstico de paranoico-esquizofrênico – e lá viveu durante mais de 40 anos, produzindo obras de arte com qualquer objeto do hospital, desfiando lençóis e seu próprio uniforme. “Se o Arthur Bispo do Rosário não fosse negro e pobre, ele provavelmente não teria ficado tanto tempo num hospital psiquiátrico. Mais do que uma patologia, a loucura é uma construção social”, afirma Tania Rivera. A psicanalista e curadora foi convidada pelo também curador Paulo Herkenhoff para construir a mostra “Lugares do Delírio”, sobre o tabu da arte e loucura no Brasil. Apresentada originalmente no Museu de Arte do Rio, está em cartaz até julho no Sesc Pompeia. “O Paulo queria dar o título da mostra de Lugares da Loucura, mas eu propus usar o termo Delírio. Esta palavra tem um tom positivo, já que se refere à uma construção de sentido numa lógica própria e não a uma etiquetagem preconceituosa”, completa Tania. É assim que estandartes e objetos criados por Arthur Bispo do Rosário são apresentados lado a lado com obras do consagrado Cildo Meireles ou de Leonilson, também conhecido por seus bordados. A mostra reúne 53 artistas e coletivos que vêm do circuito tradicional da arte, de instituições psiquiátricas ou trabalham na intersecção entre arte e terapia. Se, durante a Bienal, surgiram discussões sobre o lugar de Bispo do Rosário na chamada “Arte Bruta”, aqui a mensagem é clara: arte é arte e classificar seu trabalho numa chave diferente de qualquer outro artista é uma categorização anacrônica para a arte contemporânea. Legitimar a criatividade artística de pessoas com experiências psicóticas – sem as transformar em gênias ou colocar culpa em epifanias – é a maior qualidade da exposição. Na bela expografia da sala de convivência do Sesc Pompeia - onde passam todas as pessoas que frequentam o centro cultural, seja por conta de uma aula de dança ou uma atividade para crianças – a maioria das obras ficam suspensas no espaço por fios que pendem do teto. Entre os desenhos emoldurados em acrílico, monitores e placas de legendas que parecem flutuar, estão dezenas de barcos assinados por diversos artistas como Bispo do Rosário, Maurício Fiandeiro, Bernardo Damasceno e Arlindo Oliveira, do Atelier Gaia (formado por artistas que usam ou já usaram o serviço de um instituto psiquiátrico): “Muitos artistas que tiveram experiências psicóticas produzem obras que remetem à meios de locomoção. Alguns médicos acreditam que é a manifestação de um desejo de fugir do hospital”, explica a curadora. Os barcos também representam a deriva, o delírio e os fluxos do pensamento. Integrada na edição paulistana da exposição, a coleção do Museu Osório Cesar traz a produção de artistas do Hospital Juquery, inaugurado em 1898 num conjunto de prédios assinado por Ramos de Azevedo. Foi fundado pelo Dr. Franco da Rocha com a intenção de ser uma colônia psiquiátrica no interior de São Paulo. O complexo foi protagonista da história da mentalidade do Brasil, com uma politica de higienização e disciplinadora que marcaram dramaticamente sua história. Na mostra, estão alguns trabalhos feitos em oficinas do local com artistas modernos como Flávio de Carvalho, Lasar Segall e Tarsila do Amaral. Não poderiam faltar obras do Museu do Inconsciente, fundado por Nise da Silveira em 1952, no Centro Psiquiátrico Nacional, no Rio de Janeiro. A alagoana foi responsável por uma das maiores revoluções psiquiátricas do Brasil, lutando contra tratamentos de choque e lobotomia e impulsionando a demanda por serviços humanizados. Nise da Silveira implementou a terapia ocupacional no tratamento psiquiátrico e levou para suas sessões artistas como Almir Mavignier, Abraham Palatnik e Ivan Serpa. De Lygia Clark, são apresentadas duas réplicas de um objeto relacional intitulada “Camisa de Força”, uma proposta de transformar o instrumento de contenção de pacientes numa obra para vestir. Estes objetos relacionais foram criados a partir da Estruturação do Self, método em que Lygia Clark propunha exercícios sensoriais em sessões de terapia. Na proposição da carioca Laura Lima, a obra “Novos Costumes”, também feita para vestir, convida visitantes para brincarem com roupas de plástico que quebram com os padrões estéticos vigentes. Se a realidade não basta para ninguém, a construção de realidades - seja em forma de delírios, arte ou novas cosmovisões – é mais do que fundamental para a nossa existência. Para além desta constatação, a mostra me fez parar para pensar na situação das instituições psiquiátricas no Brasil atual, que - imagino - não sejam nada sadias visto a negligência com que é tratada a saúde pública do país. Me pergunto: quem são mesmo os reis do nonsense de hoje? A loucura é muito mais racional, maldosa e descarada do que se pode pensar; loucura é ser representante do povo e, no lugar de atentar pela sua saúde, roubar dinheiro público para benefício próprio.
Julia Flamingo
|



















