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PATRÍCIA SERRÃOWELTSCHMERZCECAL – CENTRO DE EXPERIMENTAÇÃO E CRIAÇÃO ARTÍSTICA DE LOULÉ Parque Municipal - Av. 25 de Abril 33 8100-506 Loulé 04 OUT - 17 NOV 2018 Do Romantismo na Arte Contemporânea – O mal du siècle na obra de Patrícia Serrão
Der lange Schlaf des Todes schliesst unsere Narben zu,
Parece anacrónico falar-se de Romantismo quando queremos falar do trabalho de uma artista, nascida quase no século XXI, cuja obra somente começa a dar sinais de si em recentes exposições. Mas, Patrícia Serrão, que na sua última exposição Weltschmerz, assumiu de forma consciente ou inconsciente o papel que este período histórico-artístico, em todas as suas vertentes, não apenas nas artes plásticas, exerce nas suas criações. E nem a obra, nem a artista, podem ser consideradas anacrónicas por serem assim classificadas, como românticas. Porque o romantismo de que aqui falamos, cuja raiz remonta a Goethe e seus amores infelizes, ou aos filósofos alemães que questionaram o desconforto de ser-se humano num universo em acelerada transformação, está claramente refletido em cada peça criada/exposta, nos últimos 2 anos, por Patrícia Serrão. O Romantismo obscuro e sublime, que retrata o sentimento do seu tempo, da consciência atroz da sua passagem vertiginosa e da incapacidade humana de interferir, verdadeiramente, no seu destino. Weltschmerz é um termo que aparece na novela Selena do escritor alemão Jean Paul (Johann Paul Friedrich Richter), obra tardia e de cariz pessimista, onde o autor reflete sobre a imensidão do inconsciente e sobra a nossa incapacidade de (re)conhecer, ou desvendar, ao longo da vida, este espaço denso a que ele também chama alma - o mal du siècle como acabou por ser consignado. O “mal do século”, que aparece plasmado na obra dos romântico, decadentistas e simbolistas, é o reconhecimento das falhas humanas e da sua angústia e de uma natureza que se revestia de características lúgubres, porque maculada, que já não podia ser habitada como um lugar de repouso. Os artistas românticos sofriam todos deste mal-estar, desta fadiga do mundo, desta sensação de descompasso e de inadequação. Contemporaneamente, o cineasta Werner Herzog prefere trabalhar com não-atores para garantir que o sentimento de melancolia e de desconhecimento do mundo que representam, ilumine cada frame. E é, precisamente, a sensação de melancolia e de fadiga do mundo que nos traz Patrícia Serrão na sua obra. A artista expõe-se nos vídeo, mas expõe-se também nas peças que cria – formas viscerais, que transportam o que temos por dentro para o lado de fora, não como metáfora, mas como objetos artísticos que, na sua materialidade, podemos mesmo dizer, fisicalidade, representam este avesso do avesso que é o humano, demasiado humano, que habita em cada um de nós. Weltschmerz, a exposição, surge do confronto entre dois vídeos que dialogam incessantemente: num, temos a imagem evanescente das sombras de umas plantas que se movimentam com o vento. Apenas a sombra, jamais o objeto, apenas a forma, sem o conteúdo visível, que pode ser apenas pressentido pelo espectador. As sombras que se baloiçam, melancolicamente, num fundo sépia, como uma memória mal impressa, ou que não se pode fixar. No outro vídeo, que dá título à exposição, temos a artista que jaz, deitada, enquanto agarra, com as duas mãos, o que pode ser um coração humano. Ou o que pode ser o coração humano – o órgão-metáfora da vida e do amor. O que nos move e que é tantas vezes representado na nossa cultura, mas que, de tanto ser mostrado, perdeu a sua evidência e se transformou numa forma que embala sentimentos plastificados e normatizados pelas regras sociais. O coração da artista já não pulsa, está entre as suas mãos em carne viva, e em sangue, mas fora do corpo, ele é apenas um símbolo. E este é o grande paradigma da existência humana – só entramos, verdadeiramente, dentro de nós, quando nos despimos e aceitamos a nossa condição falível e mortal. E abraçamos a angústia de nada sabermos, mas de ainda assim, buscar a transcendência nas vísceras, que também podemos chamar entranhas ou, simplesmente, inconsciente. E que alguns poetas chamam, apenas, alma.
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