COLECTIVA
A GUERRA COMO MODO DE VER: OBRAS DA COLEÇÃO ANTÓNIO CACHOLA

MACE - MUSEU DE ARTE CONTEMPORÂNEA DE ELVAS
Rua da Cadeia 7350 Elvas
01 DEZ - 31 DEZ 2019

A DOR IDIOTA

ARTISTAS
Alice Geirinhas | Ana Rito | Ana Mary Bilbao | António Júlio Duarte | António Neves Nobre | Augusto Alves da Silva | Carla Filipe | Catarina Dias | Daniel Barroca | Dealmeida Esilva | Fernanda Fragateiro | Filipa César | Gabriel Abrantes | João Onofre | João Pedro Vale e Nuno Alexandre Ferreira | Luís Palma | Luísa Cunha | Mané Pacheco | Manuel Botelho | Maria Lusitano | Maria Trabulo | Marta Soares | Miguel Palma | Patrícia Garrido | Pedro Gomes | Pedro Neves Marques | Rui Serra | Rui Toscano | Salomé Lamas | Sara Bichão | Vera Mota
A exposição coletiva “A Guerra como Modo de Ver”, com curadoria de Ana Cristina Cachola, reúne um conjunto de obras de artistas portugueses da Coleção António Cachola. A exposição teve como ponto de partida diferentes modos de ver o contexto político, social e cultural de um Portugal pós-revolução de Abril, [supostamente] livre e democrático na sua relação com o mundo contemporâneo. O corpo como instrumento (ativo ou passivo) de guerra serve de ignição a um pensamento que se abre além da noção superficial de guerra como conflito entre exércitos militares. No folha de sala, podemos ler que o corpo é «não poucas vezes em território onde a violência é exercida de diversas formas e com várias motivações (o género, a orientação sexual, a etnia, a religião, a geografia, o emprego e habitação — ou falta deles —, a classe, e a intersecção de todas elas)».
O conjunto de serigrafias de Alice Geirinhas apresenta-se como um excelente exemplo desta noção do corpo como instrumento de exercer dor e sofrimento sobre o outro. A força das palavras sobrepõe-se aos desenhos caricaturais, com frases como «Levo porrada às segundas e quartas e às sextas sou violada», numa alusão crítica fortíssima à violência usada sobre as mulheres, dando voz ao silêncio que todos sabemos existir mas preferimos ignorar. O sonho de uma vida melhor, de crianças que sofrem numa asfixia psicológica da violência familiar, é uma guerra tantas vezes divulgada como esquecida pela sociedade.
Por outro lado, a instalação escultórica “Vadios” de João Pedro Vale e Nuno Alexandre Ferreira remete-nos para uma ideia de revolução (ainda) muito presente, não apenas no sentido de derrubar poderes políticos mas antes de enfrentar preconceitos e outros obstáculos do domínio cultural, moral e ético presentes no nosso quotidiano. A dupla de artistas explora a ideia (passada?) da homossexualidade vivida na sombra do Estado Novo, que surge aqui semelhante às manifestações de rua e dos discursos escritos com spray nas paredes que quebram o silêncio das cidades mudas.
Neste sentido, as diferentes noções de conflito que a curadora nos apresenta através de obras com múltiplas linguagens plásticas e visuais funcionam como instrumentos “idiotas” que nos obrigam a abrandar e a refletir sobre determinada imagem ou objeto. O filósofo francês Clément Rosset introduz a noção de «idiotia», explicado por Mario Perniola como algo que serve «para indicar o carácter simultaneamente fortuito e determinado do real», algo que não implica nenhuma racionalidade mas que se impõe «com um carácter construtivo e até violento» [1]. O termo «idiotia» para além do significado comum de estúpido, sem ideias, existe também o significado etimológico (do grego idiôtés) que quer dizer simples, particular, único. Ainda segundo Perniola, algo idiota é «incapaz de reflectir-se, de duplicar-se, de se desdobrar numa imagem especular» sugerindo que «a produção de significados é um valor acrescentado ao real através de uma projecção imaginária [...] para a qual a experiência do real na sua idiotia é algo de raro» [2].
Nas imagens de guerra, de desastres ou outras catástrofes que comportam a noção de dor, há um momento de repulsa e de atração que convivem lado-a-lado e impulsionam a prática de vários artistas. A atração pelo desastre existe como uma sombra iluminada por um fascínio inconsciente pelas imagens de dor e sofrimento. Esta dor idiota atrai-nos e convida-nos a mergulhar nela. A sentir a dor dos outros, a vestir uma segunda pele. A obra de Mané Pacheco “Bala Perdida” (construída com material de guerra/Invólucros de munição inerte de calibre 12.7 e material de desporto/Corda de escalada) transforma a noção de arma como instrumento de batalha para um universo de esforço físico, do domínio do desporto, como se nos convidasse a uma escalada para ultrapassar toda uma montanha de sofrimento. Por outro lado, o trabalho de Manuel Botelho, muito centrado na guerra colonial, apresenta uma encenação do artista vestido de militar numa relação espaço-temporal que insiste em atravessar o subconsciente dos portugueses e nos lembra deste povo (que foi) colonizador.
A fotografia do cruzeiro turístico naufragado (provavelmente o enorme Costa Concordia que afundou em 2012 após uma manobra arriscada que tinha como objetivo entreter os passageiros) que Catarina Dias nos apresenta, lembra-nos que as fotografias e as filmagens funcionam como armas ao serviço do desastre. Sem estes registos, as imagens de choque ficariam apenas remetidas ao exercício da memória, e só daqueles que experienciaram tais acontecimentos. Mas ao que parece «o apetite por imagens representando corpos (ou objetos onde estes habitam) sofredores é tão forte, quase, como o desejo de imagens de corpos nus» [3]. O prazer associado à dor e ao sofrimento nas imagens surge na arte como uma provocação, questionando o espetador: podes olhar para isto? Há o prazer de o fazer «estremecer» (Sontag) ao olhar para tais imagens.
Em todas as obras onde habitam conceitos demasiadamente penosos transformam-nos em voyeurs, como no convite que Miguel Palma nos faz ao espreitar pelo telescópio, quer seja ou não essa a nossa intenção, pois cada uma dessas imagens horríveis convida-nos a ser espetadores ou cobardes, incapazes de olhar [4]. Na perspetiva de Rancière, uma imagem intolerável é uma realidade que escondemos da nossa vida confortável, o choque entre a realidade e a aparência. Assim, parece-nos que o artista nos dá um certo conforto através da dor dos outros, que é exterior a nós, para aguentarmos melhor o nosso próprio sofrimento.
Luís Ribeiro
Doutorando em Arte Contemporânea no Colégio das Artes na Universidade de Coimbra. É membro fundador do Laboratório das Artes tendo organizado diversas exposições entre 2003 e 2015. Desenvolve a sua atividade profissional como artista, curador, produtor artístico e como professor de artes visuais | www.luisribeiro.eu
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Notas
[1] Perniola, Mário, A arte e a sua sombra, Assírio e Alvim, 2006
[2] Idem
[3] Sontag, Susan, Olhando o Sofrimento dos Outros, Relógio D’Água, 2015.
[4] Rancière, Jacques, O Espectador Emancipado, Orfeu Negro, 2010.

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