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TACITA DEANTACITA DEANMUSEU DE SERRALVES - MUSEU DE ARTE CONTEMPORÂNEA Rua D. João de Castro, 210 4150-417 Porto 29 JAN - 05 MAI 2019
A vinda de Tacita Dean a Serralves, já contemplada na programação estruturada pelo último diretor do Museu João Ribas, constitui uma ocasião excepcional. Chega com a energia e o inesperado do novo, tanto na curadoria da exposição como em alguns dos trabalhos que nela se expõem, comportando simultaneamente a nostalgia própria do epílogo de um ciclo, iniciado em 2002, quando a artista visitou a instituição pela primeira vez. No dia da inauguração, 29 de janeiro, Dean referiu que, no instante em que se deparou com a Casa de Serralves e a sua envolvência, encontrou um dos cenários mais belos que alguma vez havia contemplado, o que a inspirou criativamente a nível estético e conceptual. Foi dessa forte relação imediatamente estabelecida com o edifício que, em 2003, procedeu à utilização do mesmo para o que se tornou uma sublime realização videográfica. Tal produção atribuiu e imprimiu renovados discurso e significado à já então emblemática casa cor-de-rosa. Fê-lo antes do edifício ser objeto das obras de remodelação e restauro que se seguiram, assim ainda o registando na sua autenticidade, com os vestígios, as marcas e os rasgos do tempo e das vidas que, no passado, o habitaram e percorreram. O conceito de narração é, por sinal, objeto de reflexão e de investigação da artista, principalmente a forma como ele surge nos guiões da indústria cinematográfica. Para Dean, as narrativas são pensadas de modo muito diferente do cinemático, algo que também se reflete nos enunciados que concebe para os seus filmes, tão subversivos e discordantes quando relacionados uns com os outros e enquadrados com a imagem que acompanham. Antigone (2018) é transmitido a cada hora certa, desde o momento de abertura do museu de Serralves, detalhe importante na medida em que a sua visualização na íntegra é verdadeiramente valiosa. Agora apresentado ao público pela segunda vez, este filme é o caso notável de uma linguagem desenvolvida pela artista não só a nível discursivo, como já tem sido recorrente, mas também técnico, através de um processo de gravação e de realização inéditos. Por essa mesma razão, Dean reconhece esta obra como "épica" e um largo desafio ao qual se propôs. Em cada um dos dois painéis sincronizados exibe-se, na sua maioria, o encaixe de duas imagens, duplas projeções de 35mm que mostram a exposição do mesmo frame de um negativo em dois momentos. É um processo intrincado, difícil de explicar e, mais ainda, de concretizar, principalmente considerando a limitação e a fragilidade de somente se ver o resultado no final das gravações, o que advém da característica do analógico, cuja técnica da imagem e do audiovisual a artista tanto enaltece e valoriza. Trata-se, pois, de um filme projetado cegamente, inclusivamente ao nível do conteúdo, tendo este sido desenvolvido de modo intuitivo ao longo das filmagens. Dean explica que cria com a convicção de que é dos acidentes que se ergue a magia e é nos desastres e nos milagres que o mais importante comparece. Numa interpretação alargada do filme, o duplo efeito visual poderá relacionar-se com a própria dualidade da criação artística de Tacita Dean, que habita entre a ficção e a realidade, o passado e o presente. Como Marta Moreira de Almeida explica, o trabalho da artista corresponde a um imaginário onde a realidade se funde com o irreal. No caso do mais recente filme, a história da personagem mitológica Antígona e do seu pai Édipo é uma escolha temática que não decorre, somente, do fascínio da artista por estas personagens, mas também, e em grande medida, da curiosidade pelo nome da sua irmã, Antigone. Porém, tudo o que a artista problematiza não se esgota em si mesmo, mas, multiplica-se em questões do foro filosófico, social e humano. O complexo, híbrido e invulgar universo de Tacita Dean, compreendido por muitos enquanto lugar de memória, natureza e humanidade, é materializado e trazido a público através de uma obra particularmente sensorial e absorvente, que capta e captura a atenção e o olhar do espectador que a ela se mostrem receptivos. Na primeira sala, as duas ilustrações de grandes dimensões realizadas sob painéis de madeira pintados de negro, The Montafon Letter (2017) e Chalk Fall (2018), são peças também recentes que revelam uma diferente face e mestria de Tacita Dean, o desenho. Assim se prolonga e revela um conjunto de trabalhos completo, plural e dinâmico, que afirma uma sólida e distinta linha de criação, formal e conceptual, preservada e consolidada através de múltiplas práticas, expressões e plásticas. O caráter da obra da artista é, pois, indiscutivelmente sui generis e sensorial, assim a destacando-a, assim, de entre os seus contemporâneos. A presente exposição convida o espectador a observar e a contemplar uma mostra que atravessa e contempla o percurso da artista de 1991 até aos dias de hoje. Tacita Dean é, sem dúvida, uma das figuras mais complexas e ímpares da atualidade e, como tal, a atenção e o tempo de observação, recepção e experiência do seu trabalho requerem-se demorados e dedicados, com tanta entrega por parte do espectador quanto a da própria autora.
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