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EXPOSIÇÕES ATUAIS


Jorge de Oliveira, "Estudo para o Fabrico do Cimento", 1945. Grafite sob papel


Jorge de Oliveira, "Fabrico do Cimento", 1945. Aguarela sob papel


Jorge de Oliveira, Sem título, 1946. Caneta a sépia sob papel vegetal


Jorge de Oliveira, "As aves da madrugada", 1950. Óleo sob unitex


Jorge de Oliveira, "Pormenor", 1990. Óleo sob tela

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ARQUIVO:


JORGE DE OLIVEIRA

Jorge de Oliveira




BIBLIOTECA MUNICIPAL DE VILA FRANCA DE XIRA
Travessa do Curral, 8


07 SET - 14 OUT 2006

Jorge de Oliveira relembrado

Não se trata ainda de uma grande retrospectiva, mas de uma exposição antológica de qualidade, que nos apresenta, pela primeira vez, um núcleo bastante significativo de trabalhos de Jorge de Oliveira. A mostra patente na Galeria da Biblioteca Municipal de Vila Franca de Xira, numa iniciativa da Associação Promotora do Museu do Neo-Realismo, com base no comissariado de Luísa Duarte Santos, revela-nos um pintor profícuo e quase esquecido, apenas parcialmente recuperado nos últimos tempos, primeiro na exposição que comemorava o cinquentenário do fim das Exposições Gerais de Artes Plásticas (1946-56) “Um Tempo e Um Lugar†(Museu do Neo-Realismo, Vila Franca de Xira, 2005), com alguns desenhos da fase neo-realista e duas telas da sua primeira fase surrealista, e, alguns meses depois, na exposição “Anos 40 e 50 na Colecção do Museu do Chiadoâ€, realizada em meados deste ano, na qual se dava destaque à sua fase abstracta, ainda ligada a certos aspectos da experiência onírica, através de uma peculiar interpretação do automatismo psíquico caro aos surrealistas.

Na verdade, o valor do trabalho artístico de Jorge de Oliveira parece só agora despertar um verdadeiro interesse por parte de críticos e historiadores de arte no nosso país. Apesar da qualidade do seu trajecto, plenamente integrado na terceira geração modernista do século XX, Jorge de Oliveira tem sido, de algum modo, ostracizado pelo meio artístico português, apesar do próprio artista confessar ter imposto a si mesmo um silêncio quase radical a partir dos anos 70. Se na sua fase inicial, Jorge de Oliveira obteve o apoio da crítica – nomeadamente de José-Augusto França que desde a segunda metade dos anos quarenta se apresentava como o mais influente crítico de arte da sua geração – já a partir das experiências abstractas, a atenção dessa mesma crítica foi deslocando o seu enfoque para outras obras e outros artistas que então surgiam na cena artística nacional. Observadas agora no seu conjunto, não parece haver qualquer razão específica que justifique tamanha inflexão da crítica. O certo é que o progressivo afastamento de Jorge de Oliveira levou-o a percorrer injustamente uma espécie de deserto de afirmação e consolidação do seu valor, tendo sido inclusivamente esquecido pela grande exposição retrospectiva do surrealismo português, realizada pelo Museu do Chiado em 2001. Tal facto revela essencialmente como o pintor foi durante tanto tempo esquecido, mais do que pelas novas gerações de investigadores, sobretudo pelos seus próprios pares, e ainda por críticos e historiadores. Apetece perguntar porquê? Mas talvez a resposta mais eficaz a esta questão seja investir tudo na recuperação digna e justa deste nome maior da arte portuguesa de Novecentos. O primeiro passo nesse sentido foi agora dado por Luísa Duarte Santos (investigadora do Museu do Neo-Realismo), elaborando um trabalho meticuloso em torno da obra quase desconhecida de Jorge de Oliveira.

Na presente mostra, podemos então observar cerca de sessenta e oito trabalhos, alguns deles nunca apresentados em exposição, como os desenhos da fase neo-realista. Destes, o destaque vai para a série “Fabrico do Cimentoâ€, onde podemos detectar uma extraordinária originalidade, sobretudo se atendermos ao contexto da prática do desenho neo-realista (Júlio Pomar, Lima de Freitas, Rogério Ribeiro), pois à habitual temática do esforço e sofrimento do campesinato, Jorge de Oliveira prefere trabalhar cenas de um operariado em acção, mas quase abstracto, fundido na sua envolvente maquínica, optando desse modo por soluções formais que lembram ainda a lição modernista, através de uma feliz fusão entre valores puramente abstractos e uma inspiração geometrizante que tanto nos lembra Fernand Léger como o apogeu construtivista. Essa quase inédita série de desenhos neo-realistas parece prometer uma nova e maior exposição sobre o tema e toda essa fase afinal quase totalmente desconhecida em Jorge de Oliveira. Depois vagueamos por algumas telas de valor surrealizante, onde o gestualismo abstracto revela uma liberdade pictural assinalável. Aliás, as experiências dos anos 50 em torno do abstraccionismo lírico assentam nitidamente, neste caso particular, numa frenética dimensão automática, procurando na tela os resultados de um inconsciente só desse modo revelado. Com singularidade e persistência, Jorge de Oliveira percorreu assim as referências abstractas de uma gestualidade de inspiração surrealista, que lembra ainda, por exemplo, o chileno Roberto Matta, mantendo aí o paralelo com alguns trabalhos de Fernando Azevedo, Vespeira, Vieira da Silva, Siqueira ou Manuel D´Assumpção, entre outros.

Na fase dos anos 60 e 70, Jorge de Oliveira revela-se um pintor preocupado em aprofundar uma abstracção espatulada em subtis efeitos de luz, marcas minerais de uma visão particular da prática pictórica, enquadrada pelas experiências informalistas do segundo pós-guerra. Por fim, o artista tende nas duas últimas décadas a sublinhar uma certa dimensão enigmática na sua pintura, mantendo os valores abstractos de composição, mas desta vez observando intensas e palpitantes zonas de luz, que remetem esta pintura para um delicado e envolvente efeito metafórico, como se aí pudéssemos perscrutar esse absoluto indizível perseguido sempre pelo próprio pintor, desde o empenho ético e político da fase neo-realista à liberdade formal e de composição manifestada nas várias fases abstractas. Apesar da exiguidade do espaço da galeria, que exigiria porventura a presença de um menor número de obras – apesar de se perceber o desejo da comissária em contornar esse condicionalismo ao optar conscientemente pela ocupação generalizada das paredes desse espaço no intuito de fazer jus à importância da obra do artista – esta é uma exposição crucial, pioneira mesmo no que diz respeito a uma leitura global sobre o percurso singular de um artista maior, finalmente relembrado.


David Santos