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COLECTIVATRABALHO CAPITAL - ENSAIO SOBRE GESTOS E FRAGMENTOSCENTRO DE ARTE OLIVA Oliva Creative FactoryrnRua da Fundição, 240 3700-119 S. João da Madeira 13 ABR - 13 OUT 2019
1. O discurso expositivo: Construção.Desconstrução
Em 2001, Mendes propôs, pela primeira vez, uma exposição numa antiga fábrica (Fimai, setor X da zona industrial da Maia), onde apresentou obras de diversos artistas nacionais e internacionais na Bienal da Maia. “UrbanLab” foi, como o próprio nome sugere, um laboratório de experimentação urbana, com múltiplas propostas artísticas que atravessaram diversos territórios como as artes plásticas e visuais, a performance, a música e o teatro. O mesmo aconteceu com o projeto Terminal em Oeiras (2005). As suas exposições confirmavam o seu papel como artista no corpo de cada exposição, prolongando-se no seu discurso enquanto curador.
«Quando escolho espaços industriais para instalar um projeto expositivo, simultaneamente estou a diagnosticar a história das cidades e dos seus edifícios, questionando as alterações urbanísticas e a reorganização do espaço público que está comprometido pela especulação imobiliária. [5]»
2. O Discurso artístico: Memória.Trabalho.Política
Memória. Tal como aconteceu na exposição CCC (Guimarães, 2012), a exposição “Trabalho Capital - Ensaio sobre gestos e fragmentos”, que se apresenta ao público no Centro de Arte Oliva, assenta em três princípios orientadores: obras de uma coleção de arte (Norlinda e José Lima); objetos pertencentes a uma ex-fábrica (Oliva), assim como depoimentos de ex-trabalhadores; obras de mais de trinta artistas convidados por Paulo Mendes para esta exposição. Mendes, tal como um realizador de cinema, pega em todos estes atores, monta um cenário e cria uma narrativa que se apresenta ao público em forma de exposição. Quando chegamos à entrada deste centro de arte, percebemos de imediato como o espaço sofreu uma enorme alteração, com grades, taipais e uma lona a imitar um alvará de obra com a ficha técnica da exposição. Quando entramos, ouvimos o som de máquinas industriais em funcionamento, gravadas pelo artista em fábricas da região e reproduzidas aqui por altifalantes. Na primeira parede que nos enfrenta, vemos a pintura “Os Pedreiros (segundo Courbet)” (2015) de José Almeida Pereira, que convoca o trabalho manual, colocada sobre uma parede coberta por uma enorme fotografia da antiga fábrica Oliva, fundada nos anos 20 do século passado e extinta em 2010. O edifício central da galeria onde habita a bilheteira, o acesso ao WC e ao elevador, estão totalmente camuflados por andaimes e taipais das obras. As salas que outrora eram imaculadamente brancas, foram pintadas com uma faixa térrea com o mesmo verde que definia as fábricas portuguesas até ao virar do milénio. Do lado esquerdo da galeria, o artista-curador construiu uma parede em tijolo que serve de sala escura para as projeções dos depoimentos dos ex-trabalhadores da fábrica Oliva, onde podemos espreitar por pequenos buracos na parede (caraterística muito presente nos trabalhos de Mendes). Quando espreitamos, percebemos o caos que ali habita, uma ruína ou uma (re)construção, com diferentes objetos que foram trazidos do exterior para dentro do museu. Este arquivo oral e de vídeo, assim como toda a documentação exposta nas vitrinas que narram a história da Oliva, criam uma ponte com o passado industrial de São João da Madeira, mas também com o de Portugal. Como tem acontecido noutras zonas do país, antigas fábricas têm sido ocupadas por projetos culturais, levantando questões sobre a relação entre trabalho e cultura, «entre valores materiais (produção de capital) e imateriais (produção de cultura)» [6]. O vídeo que Max Fernandes nos apresenta vem no seguimento deste discurso. “Narciso de todas as espécies” (2018) pretende refletir sobre as transformações urbanísticas - e consequentes impactos sociais e culturais - na cidade onde vive e trabalha (Guimarães). O filme, com 68 minutos, foca-se na fábrica-atelier onde funcionava o espaço de exposições com o nome O sol aceita a pele para ficar. Este espaço artístico que funcionava numa antiga fábrica foi demolido para dar lugar a um parque de estacionamento, mesmo no centro de Guimarães, tendo gerado muita contestação social sobre o que pretendemos para o futuro das nossas cidades. O processo de reativação da memória tem aqui um elemento chave que é o público pois, «o edifício industrial que se transforma em núcleo patrimonial passa a abrir processos de transformação cuja matéria-prima somos nós, seus visitantes. Uma fábrica vazia está ainda habitada pelo fantasma do trabalho anónimo que aí decorreu.» [7] Percebemos que todo este centro de arte desconstruído, tornou-se assim num território de [homenagem ao] Trabalho.
Trabalho. A fazer esquina com “Os Pedreiros (segundo Courbet)”, surge uma outra pintura - realizada especificamente para a exposição CCC (2012) - de Arlindo Silva (“O Profeta”, 2012), onde está representado de forma realista o próprio artista a lavar os pinceis num tanque de água, remetendo para o esforço e dedicação dos artistas e do seu trabalho artesanal, pouco reconhecido pela sociedade ao longo das várias gerações. Também Beatriz Albuquerque apresenta o trabalho “Work for Free” (iniciado em Chicago em 2005), vestígios da performance na qual oferecia ao público o seu trabalho de criação, gratuitamente, entre fotos digitais, decollage, web art, entre outros formatos. No dia da inauguração, foram vários os artistas a apresentar performances tendo como ponto de partida o Trabalho. André Alves apresentou “O papel da fábrica”, que «consistiu num texto teatralizado em que se descrevem as migrações dos espaços de produção e o desaparecimento da fábrica enquanto espaço físico. Através da manipulação de estalactites formadas pela acumulação progressiva da tinta das paredes de uma fábrica de calçado desativada, em “O papel da fábrica”, André Alves narra a espacialidade da fábrica enquanto pintura» [8]. Manuel Santos Maia apresentou “alheava_a balalaica”, uma performance que convoca a história da sua família que se cruza com a história da Oliva, para pensar a história de Portugal, mais especificamente, o passado colonial português no século XX. Maia apresentou peças de capulana padronizados com elementos arquitetónicos apropriados da obra de Pancho Guedes, (arquiteto modernista português da Geração Africana), costurados numa máquina OLIVA da avó do artista que veio de Moçambique para Portugal. António Olaio apresentou uma performance em frente das suas pinturas “2 minutes before lunch break” e “5 minutes before lunch break” (2019), em cima de umas paletes de madeira, calçando e acariciando um par de luvas desgastadas pelo trabalho, representadas (ou homenageadas), também, nas suas pinturas. Xavier Paes apresentou-se em cima dos andaimes, numa máquina de costura a trabalhar de pé, atirando para os espectadores os folhetos “Turnos da Morte”. Esta panóplia de ações ativam um dispositivo reflexivo nos espetadores, convocando-os para tentar criar relações entre os materiais de arquivo e o espaço-fábrica de exposição, com as obras da coleção Norlinda e José Lima (que apresenta ao público inúmeros artistas nacionais e internacionais, tais como Cindy Sherman, Nan Goldin, Lourdes Castro, Jorge Molder, Ângelo de Sousa, Damien Hirst, Nobuyoshi Araki, entre muito outros).
Política. As mensagens políticas nas exposições de Paulo Mendes são uma constante. Junto à parede de tijolo, vemos um conjunto de pinturas de Carlos Correia, Leonel Moura ou Ludgero Almeida que representam um conjunto de gestos e cenas de jogos de poder entre políticos. O sentido político desta exposição em São João da Madeira é evidente e Paulo Mendes não fica indiferente a estas transformações que as cidades têm sofrido ao longo das últimas décadas. A sua preocupação com as pessoas é notória, não só pelas entrevistas aos ex-trabalhadores, mas também pelas frases que foram retiradas do manifesto dos trabalhadores da Oliva, de 1975, e que foram coladas entre as várias pinturas, desenhos ou fotografias que, pela sua conotação social e política, transformam-se mais num gesto artístico do que num mero apontamento curatorial.
«Não podem ser eleitos os trabalhadores que tenham estado integrados nos organismos do antigo regime: Pide/DGS, LP e UN/ANP.»
Diz-nos Rancière, a propósito das relações entre o visível e o invisível no discurso artístico, que «é a voz de um corpo que transforma um acontecimento sensível num outro, esforçando-se por nos fazer «ver» o que esse corpo viu, por nos fazer ver o que ele nos diz. Trata-se de algo que a retórica e a poética clássica nos ensinaram: também na linguagem há imagens» [9]. No discurso expositivo proposto por Mendes, as imagens preenchem toda a imagética do espetador, com as várias frases a funcionarem como discurso político e social na relação com o nosso passado recente da ditadura vivida em Portugal e nos anos de industrialização que se seguiram no pós 25 de Abril. Mendes propõe, assim, uma exposição «revolucionária» pois pretende «romper com a realidade mistificada (e reitificada) e [dá] a ver o horizonte de uma transformação (libertação)» [10]. À luz deste pensamento de Marcuse, as exposições que este artista-curador nos apresenta refletem sobre as posições de poder e das funções da classe dominante, atribuindo, através da linguagem e das imagens, a mesma substância trans-histórica da arte, pois aparentam possuir uma estética e uma «dimensão própria de verdade, protesto e promessa» [11].
Notas
[1] O’Doherty, Brian, Inside the White Cube. The Ideology of the Gallery Space. Los Angeles: University of California Press, 1999.
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