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EXPOSIÇÕES ATUAIS


Fotografia ©Fundação de Serralves, Porto.


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OLAFUR ELIASSON

O VOSSO/NOSSO FUTURO É AGORA




MUSEU DE SERRALVES - MUSEU DE ARTE CONTEMPORÂNEA
Rua D. João de Castro, 210
4150-417 Porto

31 JUL - 14 JUN 2020


 

 


Olafur Eliasson (n. 1967) chega, pela primeira vez, a Portugal, para a rentrée do Museu de Arte Contemporânea de Serralves, neste mês de setembro de 2019. Fá-lo através de uma magnífica exposição que se manterá passível de ser visitada até 2020, encerrando a 8 de março, no interior do museu e a 14 de junho no parque.

Como Philippe Vergne explana no catálogo que acompanha a ocasião, "a natureza, os elementos, as ciências, a matemática e a fenomenologia da perceção" são o material deste artista que tem vindo a contribuir "para expandir o universo das artes e para ampliar os limites da nossa perceção destas disciplinas". O diretor do museu fala da figura do artista enquanto cientista ou engenheiro e, efetivamente, é com frequência que atribuem a Olafur Eliasson outros títulos, principalmente o de inventor, arquiteto e universalista.

Como o curador da Tate Modern, Mark Godfrey, identificou, trata-se de um novo modelo de artista. Eliasson trabalha com cientistas, antropólogos, historiadores de arte, filósofos, economistas, artesãos e até mesmo cozinheiros, conduzindo a sua criação numa direção multidisciplinar, heterogénea e plural, com uma lógica processual complexa à qual se acrescentam uma seriedade e um sentido de responsabilidade notáveis. É desta conduta que resultam diversos projetos integrantes de uma mesma linha de investigação, ainda que abordando variadas temáticas e problemáticas. Também se distingue, transversal a todo o trabalho do artista, uma ininterrupta intenção em incutir no público a preocupação com o planeta e com o lugar e o papel que cada um nele ocupa.

Olafur Eliasson questiona não só de onde viemos, mas também, com igual ou até maior importância, para onde vamos.

O artista dinamarquês-islandês também é conhecido pela escala dos seus trabalhos, algo que agora se pode observar e experienciar em Serralves, tanto dentro do museu como fora, no parque. Foi neste último espaço que Eliasson colocou obras representativas de elementos da natureza, do ar e da água, bem como do mar, de correntes e ondas. Para tal, recorreu tanto ao uso de matérias, caso dos troncos de madeira à deriva na série Artic tree horizon (img.1,2), ou construindo integralmente objetos com formas orgânicas. Como exemplo dos segundos, indica-se Human time is movement - winter, spring and summer (img.3,4), obra de beleza e harmonia evidentes, constituída por três peças cujas estruturas e modo de distribuição no jardim cativam visual e fisicamente o espectador que as observa. Relacionam-se com a sua envolvente, a natureza e a arquitetura, ao mesmo tempo dialogando entre si num jogo de forças, eixos, energias e sinergias. Cada elemento tem a sua própria trajetória que afecta e é afetada pelas outras peças, sugerindo movimento e circulação e apelando à economia e à ecologia do ambiente. Em todo o trabalho de Eliasson, as espirais, os círculos, os arcos e as curvas agem e interagem, cruzam-se e instalam-se nos espaços, habitando-os enquanto potências vivas, naturais e livres. Como o próprio refere "na superfície de um globo, o trajeto mais rápido de um ponto para o outro não é uma recta, mas uma curva - um arco geodésico".

Ainda no parque, é inevitável referir The curious vortex (img.5,6), peça que ostenta a dimensão, o porte e a autonomia de um pavilhão. A experiência estética que fornece é tão forte como o seu próprio centro, que, com a configuração semelhante à de um tornado, pretende mover perspectivas e conceções. O artista propõe que se repensem as regras normativas instituídas na sociedade, principalmente as comportamentais, as quais identifica enquanto parte das modificações necessárias para o progresso e a melhoria da qualidade de vida. Eliasson relembra que, tal como o fenómeno natural que esta sua última obra incorpora, as nossas ações são retroativas e têm repercussões e consequências no futuro, tempo com o qual nos devemos preocupar cada vez mais. Como o artista enaltece, começa hoje a difundir-se, principalmente nas gerações mais jovens, a ideia que "o futuro é o que utilizamos para dar passos no presente".

Ao entrar no museu, no hall central, Yellow Forest surpreende quem a vê e, mais ainda, quem a atravessa, transferindo o exterior para o interior, cruzando espaços, ambientes e realidades. A obra comunica com a galeria central, onde é refletida por três grandes espelhos que determinam uma instalação que lá se encontra. The listening dimension (img.7) apresenta-se, na ala expositiva, como uma magnífica peça que comporta grandes anéis, tão reais e tangíveis quanto ilusórios, produtos de simulacro óptico. Abre uma dimensão paralela, um sistema de órbitas e esferas cujas forças gravitacionais dominam o espaço e magnetizam o público, convidando-o a integrar este universo de Eliasson.

As duas obras desenvolvidas no interior do museu contrastam com a arquitetura de geometria reta, linear e exata de Siza Vieira e relacionam-se com os jardins que se revelam através da janela da galeria central. Num contínuo de flora que se desenha até ao exterior em reflexos, espelhos e vidros, a dinâmica entre os espaços Museu e Parque, que constituiu uma das preocupações do arquiteto, foi também um dos principais pontos de interesse do artista que agora expõe.

Olafur Eliasson : O Vosso/Nosso Futuro é Agora é organizada pelo Museu de Serralves em parceria com o estúdio de Eliasson e a Galeria Tanya Bonakdar, de Nova Iorque e Los Angeles. A curadoria é assinada por Philippe Vergne, Marta Moreira de Almeida e Filipa Loureiro. Ao mesmo tempo, encontra-se patente uma outra exposição do artista, a sua segunda na Tate Modern, intitulada In the real life, cujas críticas a têm descrito enquanto magnética, hipnótica e cativante.

Como Philippe Vergne reforçou no dia da inauguração, o que se apresenta na instituição portuense não se trata somente de uma mostra de trabalho artística mas também de um projeto, que se mostra tão complexo quanto fundamental. Simultaneamente, a Presidente da Administração de Serralves, Ana Pinho, relembrou que Eliasson relaciona a arte, a ciência e o ambiente, três elementos indispensáveis e estruturais que são, precisamente, os pilares da Fundação de Serralves.

Se o trabalho artístico com motivações políticas e sociais sempre foi considerado relevante, é recentemente que se vê ser-lhe reconhecida uma particular importância, principalmente no que diz respeito às questões ecológicas. A natureza é um dos objetos primários e basilares da criação artística, porém, como Olafur Eliasson e outros artistas demonstram reconhecer, já não é requerido somente representá-la, descrevê-la e exibi-la, mas sim, defendê-la.

Por certo, reconhece-se a esfera da arte como potencial ferramenta de divulgação e consciencialização, quer pelas suas plataformas de visibilidade, nomeadamente as instituições culturais, quer pela voz e força de ação da sua comunidade. Olafur contribui, precisamente, para a responsabilidade cívica dos museus e das galerias, divulgando e problematizando o que a cultura pode oferecer à sociedade.

Por conseguinte, a importância de visitar a presente exposição não reside somente nas indiscutíveis beleza e qualidade estética da obra de Olafur Eliasson, mas também na necessária contribuição para a projeção do que aqui se trata e que, como se anuncia pelo título da exposição, é o vosso/nosso Futuro.

 

 


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Referências bibliográficas

GODFREY, M. (Ed.), (2019). Olafur Eliasson in Reallife. London: Tate Publishing.

ELIASSON, O. (Ed.), (2019). O v/nosso futuro é agora. Porto: Serralves publicações.



CONSTANÇA BABO