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JOANA ESCOVALMUTAÇÕES. THE LAST POETMUSEU COLEÇÃO BERARDO Praça do Império 1499-003 Lisboa 13 FEV - 19 ABR 2020
[Com os museus temporariamente fechados por todo o mundo, a Artecapital continua a publicar críticas de exposições interrompidas devido à Covid-19]
Vista da exposição. Fotografia: Bruno Lopes.
Efetivamente, a transformação da matéria e o fluxo da energia são centrais na prática artística de Escoval, em especial fenómenos causados pela natureza. A natureza empresta-lhe os elementos clássicos (terra, ar, água, fogo) e os materiais que lhes derivam (metal ou a madeira) para criar as suas obras, que em parte apresenta intactas, em bruto (como a rocha vulcânica); outra parte altera e trabalha (como as esculturas metálicas). A escrutinada eleição de materiais tão dispares esteticamente quanto a rocha vulcânica e o ouro – com que trabalha e depois transfere para o espaço expositivo – é realizada a partir de processos criteriosos de escolha focados no processo, tendo a origem dos materiais um papel crucial na conceção das peças – como que a deslocação trouxesse uma significância quimérica ao seu encontro. Para Joana Escoval, que já viveu na Madeira, em Florença e em Berlim, tais informações seriam naturalmente irrelevantes, não fosse a busca incessante da artista pelo material ideal e a sua inerente significação, parte elementar na sua prática artística.
Vista da exposição. Fotografia: Bruno Lopes.
O mais identificável e, porventura, o mais intrigante na obra de Joana Escoval é o carácter imaterial inseparável de muitas das suas peças. Apesar da robustez e amorfia dos materiais que utiliza - como a rocha vulcânica, o ouro ou o metal – as obras que cria são delicadas e frágeis, extrapolando a materialidade e o formalismo dos seus constituintes, para criar algo propício de desencadear significações metafisicas, elevação espiritual ou até mesmo sentido poético. A renovada arquitetura do espaço materializada em contornos orgânicos, formando um corredor ondulante, incita o espectador a percorrer um trilho, não visível e não antecipável (que se revela inesperado e abrupto), à medida que se encontra no espaço com as obras da artista. De forma cifrada, as obras criadas pela artista, coexistem num todo contínuo, em mutação e inalterável equilíbrio.
Francisca Correia
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