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DOROTHEA LANGEWORDS & PICTURESMOMA - THE MUSEUM OF MODERN ART 11 West 53 Street New York, NY 10019-5497 09 FEV - 19 SET 2020 Observação, leitura e aprendizagem
Como o próprio nome da exposição indica (Words & Pictures), os elementos primordiais são as Palavras e as Imagens, respectivamente. As palavras, que são textos, frases, diálogos, nascem paralelamente com o trabalho fotográfico de Dorothea Lange, trabalho feito em contacto directo com agentes e indivíduos inseridos no panorama da depressão social e económica. Por outro lado, um levantamento de relatórios governamentais, jornais, revistas, poemas, possibilita à equipa de curadoria a construção de uma maior emersão no trabalho de Lange. Estes elementos preambulares denotam o olhar de substância, facilitando a compreensão das cronologias em que a autora e obra se enquadram, bem como os temas que a primeira trata.
Página do jornal U.S. Camera 1939, editado por T. J. Maloney, (New York: William Morrow, 1939), 46–47. Fotografias de Walker Evans e Dorothea Lange.
Tess Taylor, poetisa e convidada da curadora da exposição, Sarah Meister, conta-nos em áudio [2] sobre a crescente mudança da vida de migrantes, especialmente agricultores, à procura de uma vida melhor e a fazer face a enormes forças: a economia, as mudanças e crises climáticas. A poetisa conta que ‘’Lange iria falar com estas pessoas, ouvia o que elas tinham a dizer, voltava para trás do carro e escrevia’’. A fotógrafa não está só interessada em documentar, interessa-se sobretudo pela realidade social e pelas realidades isoladas, pela condição humana e as suas diferentes faces. Dorothea Lange encara o seu trabalho a partir do ‘’seu senso profundo de justiça social e o seu interesse em capturar o que nos torna humanos’’ [3]. Words & Pictures condensa o olhar nestas diferentes componentes visuais que enaltecem um tempo e um povo. O espaço parece criar-se em torno de conceitos de observação, leitura e aprendizagem. Como um labirinto de palavras e imagens, o espaço físico e expositivo recorda sobretudo, não só uma exposição mas uma biblioteca, um arquivo. Enquanto visitantes, não podemos fugir ao caráter histórico e pedagógico que esta exposição nos transmite. Todos os ensaios de Lange, as páginas de jornais sobre a actualidade e as condições do presente, todos os relatos e, claro, todas as fotografias, evocam um tempo e as suas expressões. Todos estes documentos permitem uma compreensão à realidade do mundo. Assim, a exposição cria-se tirando partido do potencial das paredes para exibição dos elementos iconológicos: as fotografias, documentos textuais, artigos. Por outro lado, o espaço físico e vazio da exposição permite a disposição de mesas e cadeiras onde o visitante pode emergir numa leitura de catálogos e livros inteiramente conectados com as temáticas e cronologias.
‘’Social Erosion: shelterless families in carrot pullers camps” (1935) em Migration of Drought, p. 6.
"Migration of Drought Refugees to California" (1935), em Migration of Drought, p. 21.
A miséria assombrou os contemporâneos e conterrâneos de Dorothea Lange, os seus valores aproximam artista, câmara e realidade. White Angel Bread Line, San Francisco (1933), por exemplo, revela-nos um homem, isolado e taciturno que espera pela possibilidade de comer e matar a sede. Sabemos que Lange trabalhou incansavelmente com agências governamentais para criar visibilidade à catástrofe económica e ambiental que condicionava vidas por todo o país. Isto denota o seu trabalho de caráter documental de novos valores éticos e morais. A exposição dedica-se ao trabalho de vida de Dorothea Lange, a incansável fotógrafa que percorreu as terras, os campos de trabalho, as ruas devoradas por fome e sede. Os primeiros trabalhos apresentados incorporam-se na primeira fase de devastação dos Estados Unidos, seguidos pela sombria Segunda Guerra Mundial, que apenas permite a perseverança da instabilidade social e financeira. A exposição explora também a repercussão do trabalho de Lange pelo tempo, por exemplo, a sua célebre fotografia de 1936 Migrant Mother, Nipomo, California, irá tornar-se quase um símbolo do seu tempo, tal como um símbolo de incerteza, precariedade, mas também de humanidade. As palavras ganham uma extrema importância no trabalho de Dorothea Lange, que mais que fotógrafa ou artista, é uma mulher que revela, através do seu trabalho, um compromisso maior com as vozes das pessoas que apresenta através das suas fotografias. Cada indivíduo representa-se a si só e à sua condição, mas também representa o estado físico e emocional de uma larga comunidade e mesmo as expressões sociais de um território e de um tempo. Quer isto dizer que, livros como An American Exodus, que se manifestam posteriormente em exposições como Dorothea Lange: Words & Pictures, são expressões da observação da humanidade. Numa perceção actual, é curiosa a abertura desta exposição no ano de 2020. Os valores que integram a obra de Lange são um perfeito contraste com a catástrofe ambiental e instabilidade económica que marca a actualidade. É este caráter atemporal que justifica um olhar atento a esta exposição. Words & Pictures surge num panorama crítico e de caráter urgente para debate sobre catástrofes naturais e crises sócio-económicas pelo mundo. No trabalho de Dorothea Lange e no projecto de curadoria denotam-se valores políticos e humanos importantíssimos para a criação de debate entre nós, os agentes da realidade e a actualidade.
Mauro Santos Gonçalves
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Notas [1] Dust Bowl foi um fenómeno climático de tempestades de areia que provocaram desastres ambientais e económicos dos Estados Unidos na década de 30
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Bibliografia LANGE, Doroteha, (1939) An American Exodus: A Record of Human Erosion
Dorothea Lange - Words & Pictures, (2020) Museum of Modern Art, New York [acedido em junho de 2020]
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