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EXPOSIÇÕES ATUAIS


Joachim Baan, “A social space”, 2006. T-shirt concebida para “The word on the street”. Cortesia do artista


Iain Forsyth & Jane Pollard, “Walking After Acconci, (Redirected Approaches)”, 2005. Vídeo still, 24 minutos. Cortesia dos artistas


Marius Engh, “Rich kids on LSD”, 2004. Série de 4 c-prints; 45 x 60 cm (x 2) e 60 x 45 cm (x 2). Cortesia DekaBank, Frankfurt


Pieter Hugo, “The Hyena People of Nigeria”, 2005. Fotografias. Cortesia do artista e de Michael Stevenson Gallery, Cape Town


Pieter Hugo, “The Hyena People of Nigeria”, 2005. Fotografias. Cortesia do artista e de Michael Stevenson Gallery, Cape Town

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COLECTIVA

Street: behind the cliché




WITTE DE WITH, CENTER FOR CONTEMPORARY ART
Witte de Withstraat 50,
3012 BR Rotterdam

09 SET - 19 NOV 2006


“As actuais ruas das cidades podem ser descritas como um espaço pós-público, repletas de mecanismos de marketing e equipadas de poderoso design de tendência política. ‘A rua’, tendo já sido o sinónimo de ‘espaço público’, é fortemente regulamentada, ordenada e controlada. Tornou-se num espaço privatizado.
(...)Transcendendo puramente a situação local, Street: behind the cliché investiga o espaço público da sobremodernidade – como definido por Marc Augé – apresentando artistas em que os trabalhos incorporam alternativas ao anonimato do mundo globalizado e tornam visíveis estruturas subterrâneas e mecanismos de espaço público.”
Curadores: Renske Janssen e Nicolaus Schafhausen



O Witte de With – Centro para Arte Contemporânea – é um espaço surgido em 1990 que veio preencher em Roterdão o vazio existente entre as grandes instituições como o museu Boijmans van Beuningen e o Kunsthal, de um lado, e os espaços de maior experimentação e iniciação artística como o TENT, de outro. Assume como missão pedagógica a difusão da mais recente criação e reflexão teórica num patamar de discussão e questionamento de igual importância. Desde o início que as suas actividades têm sido acompanhadas com publicações, conferências e debates entre artistas, teóricos e público, criando uma base de reflexão sobre temáticas actuais.

No passado dia 9 de Setembro inaugurou neste centro a exposição “Street: behind the cliché”, que estará patente até ao próximo dia 19 de Novembro, integrando, neste período, duas conversas com diferentes artistas, uma performance e um programa de projecção de filmes relacionados com a temática.

Mas antes de nos debruçarmos sobre o conteúdo formal da mostra, devemos analisar sumariamente algumas relações entre o texto introdutório e a temática que, de imediato, se revelam minados por noções pré-concebidas.

Respeitando a premissa dos curadores, e “Transcendendo puramente a situação local”, devemos primeiramente questionar que ruas são estas e de que cidades falamos. Serão as ruas de Roterdão iguais às ruas do Porto? Ou às de Xian ou de Bamako? Como podemos afirmar que “As actuais ruas das cidades podem ser descritas como um espaço pós-público” sem pensar a que cultura nos referimos? Não será igualmente esta ideia mais um estereótipo? Ou então assumimos que nos referimos simplesmente à cultura anglo-saxónica, sendo que com isso se reduz significativamente o horizonte da exposição, continuando esta abordagem da rua a não ir além do cliché. Não vamos dizer que todas as ruas da Europa e da América do norte são da mesma natureza e têm o mesmo grau de “regulamentação, ordenação e controlo”. Não vamos ser ingénuos e acreditar que a Kruiskade, uma rua pobre no centro de Roterdão, onde habitam grandes comunidades orientais e africanas, é objecto do mesmo policiamento que a Nieuwe Binneweg, uma rua paralela à anterior, separada desta apenas por um quarteirão, que tem vindo a tornar-se numa rua de classe média-alta repleta de galerias de arte e lojas fashion. Isto já para não mencionar que se queremos falar nas “actuais ruas das cidades”, não podemos descurar a cidade mais populosa do mundo, a Cidade do México. O problema está em generalizar indiscriminadamente sem pensar que o mundo vai para além da cultura ocidental, que o fenómeno urbano assenta, por princípio, na alteridade e que diariamente emergem formas de resistência ao modelo dominante.

E a incorrecção repete-se na mostra. Os trabalhos apresentados não pensam as cidades dentro da cidade, nem outras cidades que não a que reconhecem como cidade. Assim, ao tentar explorar “alternativas ao anonimato do mundo globalizado”, e as diferentes tentativas de criação de identidade que supostamente rompem com a ideia de não-lugar, “como definida por Marc Augé”, os criadores desta exposição apenas confirmam clichés.
E isto é assumido. Como refere o próprio curador, no texto de apresentação do trabalho de Joachim Baan, ao referir-se às reproduções gráficas de icones do trabalho “A Social Space”, como “estereótipos da imagem de agressividade da cidade de Roterdão”. Não é de facto outra coisa.

O mesmo acontece no trabalho de Iain Forsyth & Jane Pollard, “Walking after Acconci (Redirected Approaches)”. Os artistas reproduziram um vídeo de Vito Acconci de 1973, onde este passeia ao longo de um corredor falando com uma ex-namorada ausente, mas recontextualizam-no, desta vez, numa estética televisiva, que serve de modelo formal à tomada de vista da câmara estilisticamente rebaixada, ao movimento incessante do performer durante o discurso e à sua postura e vestuário blasés. Ainda no trabalho “Rich Kids on LSD”, Marius Engh, que pretende explorar a justaposição de objectos vindos de contextos diferentes, cai no facilitismo da utilização do graffiti como afirmação do indivíduo no não-lugar da cidade.

“The Hyena People” de Pieter Hugo é o único trabalho que aparentemente foge a esta estética da cultura de rua ocidental contemporânea (curiosamente é também o único artista da mostra que não vive nem trabalha na América ou Europa do norte). Esta série de fotografias resulta de uma jornada do artista pela Nigéria com um grupo de jovens e a sua “companhia”: três hienas, duas jibóias e quatro macacos. Estes animais são utilizados em batalhas, numa estranha mistura de crenças místicas e superstições, simbolismos islâmicos e cristãos, ligados a tradições tribais. A Hugo não interessa criar juízos de valor mas sobretudo o pôr a descoberto as diferentes camadas que formam a atribulada História da resistência cultural da África Negra, em contraponto com o desenvolvimento capitalista global, social e económico. Ainda assim, em termos formais, este trabalho inscreve-se numa tradição ocidental da fotografia colonialista. Hugo não se liberta do olhar dos fotógrafos do século XIX, sempre exteriores à realidade local e ansiosos pelo exótico.

Depois de “Les Magiciens de la terre”, exposição realizada em 1989 no Centro Pompidou, onde a arte ocidental era exibida a par de criações vindas de todos os quadrantes e culturas, produzindo novos discursos criativos e estéticos, é inaceitável que artistas e curadores – como os de “Street: behind the cliché” – se continuem a guiar por um só modelo de cultura. Desacerto ainda maior quando reflectimos as questões da cidade.





Daniela Paes Leão