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SHARON LOCKHARTPine FlatMNAC - MUSEU DO CHIADO Rua Serpa Pinto, 4 1200-444 Lisboa 03 OUT - 07 JAN 2007 O comportamento de Sharon Lockhart (Massachusetts, 1964) em “Pine Flat†poderia ser descrito como o de antropólogo simultaneamente contemplativo, descritivo, arquivista e curioso. A artista chegou a Pine Flat – pequeno povoado em Sierra Nevada, no interior da Califórnia – em busca de um refúgio do caos e agitação de Los Angeles, onde deparou com uma comunidade de crianças que, intrigadas pela presença de uma figura estranha e nova, procuraram a sua companhia. É deste encontro fortuito e casual que nasce “Pine Flatâ€, obra composta por 19 fotografias e um filme dividido em 12 sequências de dez minutos cada, ambos expostos no Museu do Chiado, sendo que o filme é exibido em pares de sequências, sendo possÃvel observar 2 delas em cada um dos seis dias por semana em que o Museu está aberto. O tempo, o seu movimento lento mas contÃnuo, a sua passagem imperceptÃvel em cada momento mas totalmente inevitável, é um elemento constante nas pesquisas de Lockhart. Em “Pine Flat†este interesse manifesta-se numa dupla asserção: por um lado a acção dos filmes é practicamente inexistente. Tome-se uma das 12 secções, “Readingâ€, em que uma rapariga, deitada num prato, lê um livro, como exemplo: um só espaço, uma só actividade, a câmara fixa, as pequenas acções captadas de uma forma quase pictórica, uma calma e uma serenidade que nos transportam para o ambiente dos retratos oitocentistas à maneira de Manet. O que vemos é o lento fluir de um mesmo agir, afastado do acto, da acção que muda no tempo e no espaço. Por outro lado, ao utilizar exclusivamente crianças, cuja constante e rápida mutação é mais evidente do que aquela sofrida pelos adultos, Lockhart acentua a fugacidade dos momentos observados, acções provisórias de um tempo intencionalmente congelado. Nada muda, nada acontece, mas essa imobilidade é meramente ilusória, puro factor estético e pictórico. O jogo com o tempo surge também na quase impossibilidade de ver o filme na sua integra: dividido em 12 sequências que se espalham pelas diversas semanas em que a mostra está patente, o público teria de voltar diariamente ao Museu para poder visionar uma totalidade que nunca o seria, cortada como está em espaços temporais muito diversos. Se o filme de Pine Flat age principalmente no seio da representação pictórica, as 19 imagens apresentadas transportam-nos para o campo da encenação cinematográfica: Lockhart retratou as crianças de Pine Flat num estúdio fotográfico improvisado dentro de um velho celeiro, sob um fundo negro que anula totalmente qualquer hipótese de localização espacial. Muitas delas decidiram, contudo, de levar certos atributos como chapéus, t-shirts, com mensagens escritas ou roupas especÃficas, que criam pequenas anotações para a criação de uma personalidade ou de uma máscara, signos que permitem o afastamento do retrato de um quotidiano, que, mesmo sendo banal, é totalmente encenado e muito pouco espontâneo. De facto, se no filme assistimos a um olhar entre o documental e o narrativo que tem como meta captar um – desejável mas tão distante – fluir do tempo, é na total formalidade e rigidez das imagens fotográficas corriqueiro que surgem rasgos de espontaneidade que escapam à grande estetização em que “Pine Flat†está mergulhada. Um elemento formal sobressai ao caminhar por entre as fotografias: todas as crianças, independentemente da sua estatura fÃsica ou idade, têm a mesma dimensão. Lockhart anulou a escala real de cada um dos indivÃduos, uniformizando-a numa única proporção. André Malraux afirma, no seu discurso sobre o Museu Imaginário, que os livros reduzem todas as obras de arte a um só valor, anulando as diferenças, escalas, contextos inerentes a cada uma das figuras apresentadas. Do mesmo modo também Lockhart criou, com esta “Pine Flatâ€, o seu museu imaginário.
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