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SÃO JOSÉ CORREIAWE LOVE UGO RONDINONEPLATAFORMA REVÓLVER Rua da Boavista 84 1200-068 Lisboa 20 NOV - 29 JAN 2022 For the Record Ugo Rondinone, We Love You
Os atores decoram textos. E o que é o seu decorar se não um saber de cor? Na sua criação, as duas peças de vídeo da exposição We Love Ugo Rondinone, a atriz São José Correia expõe esse saber de cordis – coração em latim –, tão presente no nosso vocabulário, em palavras como recordar ou coragem. Ou ainda, em inglês, record. Durante esta conversa, recorda-nos que vem do universo da palavra, que, porventura, o impulso de contar histórias determinou o impacto do primeiro encontro com imagens da silenciosa instalação Vocabulary of Solitude do artista suíço, composta por 45 esculturas hiper-realistas de palhaços. Decora então esse instante, não sendo de todo o que nos apresenta um projeto de decoração, é antes um renovado contexto. São José expõe(se): Declara-se a Ugo Rondinone (UR) em dois espaços por si criados para acolher as audições de sete atores – sete palhaços. Nos dois vídeos, o espectador por si capturado é levado a assistir ao espectro performativo de sete derrisórias audições – de cor e de cor. Advertimos o leitor para a homografia da palavra cor, e por conseguinte, para os seus dois diferentes sons e significados; enquanto coração e impressão visual produzida pela luz.
Por Madalena Folgado
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MF: Foi amor à primeira vista? SJC: Foi. Totalmente. Fiquei muito impressionada e nem vi ao vivo, apenas na internet. A primeira imagem foi mesmo da instalação Vocabulary of Solitude. Fiquei muito impressionada porque me pareciam pessoas reais, questionei-me se seriam atores em performance numa galeria, porque as suas posições eram tão naturais…Só depois é que percebi que era uma instalação de esculturas hiper-realistas, e então, a primeira coisa que me veio à cabeça – e o trabalho surge todo a partir desta questão – foi a seguinte: Se estas figuras falassem, o que é que diriam? O que está sentado, o que está em pé ou o que está encostado…Em que é que estão a pensar? Pareceu-me que todas estavam numa situação de reflexão, introspeção; metidas para si próprias. Todas muito perto umas das outras, mas nenhuma se olha ou se toca. Se estas figuras metidas no seu mundo pudessem falar, o que diriam? MF: Atrás de uma pergunta vem outra e outra… SJC: Depois desta pergunta, surgiu-me a ideia: E se eu os fizesse falar? E se me dessem essa possibilidade? E se me dessem a possibilidade de por palavras na boca destes palhaços? Até porque não seriam apenas palhaços... Vi depois várias entrevistas ao UR a propósito deste trabalho, tive necessidade de ir sempre recolhendo informação, a ponto de quase esquecer a primeira questão; as questões foram-se transformando noutras em função da nova informação. Mas saber o que diriam se falassem manteve-se. Então a questão passou a ser como fazer um trabalho que os coloque a falar. Pô-los a falar, mas em que situação? Eu não os conheço. Como é que os posso conhecer…ouvir falar? Vamos fazer uma audição! A primeira ideia, há dois anos quando o projeto surgiu, foi fazer uma audição com pessoas que não conhecia de todo – chegámos a fazer um call, mas infrutífero –, para nada prever do que pudessem dizer, e que de alguma forma os pudesse introduzir numa espécie de mundo UR. Mas...teriam de ser pessoas antes de serem palhaços, como o próprio UR quer dar a ver e vim a descobrir mais tarde – Pessoas, com uma capa para o exterior; o UR usa a figura do palhaço, não por fazer rir ou chorar, mas porque se expõe. MF: Porque se expõe, literalmente. Com coragem, diria. SJC: Sim. O UR é reservado e tímido, encontrou talvez por isso uma persona que o revelasse. No Vocabulário da Solitude, reflete sobre as ações do quotidiano; os 45 palhaços correspondem cada um a cada uma das 45 ações/ verbos que o formam. O UR fez o exercício de se observar a si próprio; o que faz uma pessoa ao longo de 24 horas. Podem-se ler junto da instalação os verbos falar, mijar, cagar, arrotar, rir, sonhar, dormir, etc.. MF: E por certo que muitas são ações para as quais não queremos deliberadamente companhia, mas fundamentalmente que ninguém pode fazer por nós…É uma afirmação silenciosa portentosa. SJC: Sim. Por isso é que no vídeo correspondente à audição todos eles dizem alguns verbos logo ao início. SJC: Essa é uma relação que estabeleço de modo direto com trabalho do UR. Por outro lado, achei graça à ideia destes palhaços, que nada têm a ver com o UR, poderem sobre ele falar. Ao serem, nesta nova modalidade, atores que eu conhecia, podia influenciá-los…Mas, uma vez mais, essa ideia de controlo foi abaixo. Pensei: Não posso influenciar. O trabalho tornar-se-á menos rico se vier todo da minha cabeça, diferentemente de vir de sete. Cheguei então ao modelo de audição: A proposta foi que respondessem a várias perguntas sem saber quais seriam, e que fizessem uma performance de um mínimo de três e um máximo de cinco minutos. E, desta forma, trazer o universo de cada um para a audição. Tudo o que se vê e ouve neste vídeo, assim como as perguntas que faço e respostas que dão é improviso. Nada está escrito. São 41 minutos de puro improviso. Mudei algumas perguntas, para que os que viessem primeiro não pudessem preparar os seguintes. Repeti apenas perguntas ao mesmo ator, intencionalmente, e para todos a pergunta Como se chama este projeto? E assim fui-me distanciando do trabalho do UR. Nunca quis colar-me, numa espécie de boleia pelo universo do UR fora. O que creio ter conseguido foi pegar no seu universo, este específico dos palhaços, e dar-lhe outro contexto; transformá-lo noutra coisa. Ou seja, mover os palhaços do silêncio para a palavra. O que me dirá este palhaço se eu lhe disser olá? MF: Quiseste despertá-los com a tua audição, e, com a tua escuta. SJC: Se os despertasse, o que é que eles me diriam? Como é que se comunicam? Foi sempre este o objetivo. E, não te esqueças, que era para ter filmado antes da Pandemia… MF: Foi o que te guiou; o guião em aberto. Assim como o advento da Pandemia nas nossas vidas pode-nos abrir para o inesperado. E isso é muito bonito. Tenho uma teoria sobre os projetos que sobre-viveram à Pandemia: Ganharam dimensão interna. A Pandemia reconfigurou a nossa relação com o nosso mundo interior, expandiu-o. Está a mudar-nos, quer queiramos ou não. SJC: Sim, totalmente. E hoje agradeço à Pandemia não ter feito este trabalho antes, na altura que era para ter sido feito. MF: Até porque, o primeiro vídeo que antecede o principal da sala dourada, é precisamente uma espera – a espera para uma audição pode agora ser ressignificada. SJC: Ah…Também! Pois é… MF: Porque o entendimento da solitude nunca foi tão necessário coletivamente. Não é apenas solidão, é solidão criativa. Consciencializar aprofundando esta experiência é tão importante para todos nós enquanto criadores de Comum. Com-cor-das, isto é, colocas o teu coração? SJC: Sim, sim, concordo totalmente. E é engraçado estares a dizer isso porque vem também ao encontro do que o UR pensa. Numa das entrevistas que vi do UR, a propósito desta exposição, o diretor do Museu, ao questioná-lo, assumia que o trabalho se referia a uma solidão com peso, doente, enferma. O UR desmistifica, referindo-se à solidão que nos deveria ser natural. Todos nós estamos sozinhos…Precisamos de estar calados, não podemos falar nem conviver 24h com outras pessoas. Refere-se à solidão de quem está bem consigo, que não é sofrer. Pode ser criar, esperar pelo grande momento de nos expressarmos; como os sete atores no primeiro vídeo, esperar para dar a conhecer o seu mundo. E, portanto, a solidão é um lugar pacífico. MF: ...De gestação, o tal ‘metido para dentro’ que referes a propósito das esculturas do UR, referenciado à paz intrauterina. SJC: Sim, também, tempo de gestação de ideias, de ações. Do que vais fazer a seguir, de refletir sobre o que é que fizeste antes de estar aqui. Quando não temos as habituais distrações, ou até mesmo um livro, resta-nos a reflexão…sobre uma conversa que tiveste, outra que queres ter… MF: Ou ainda enquanto possiblidade de ressignificar qualquer coisa, como se o despertar de um sono profundo fosse um renascer, até porque a criança vem de 'outro mundo'…Daí a tua necessidade de criar algo tão específico como uma audição. SJC: Sim, por exemplo interpretar um sonho que tiveste a noite passada e não sabes o que quer dizer, como na adaptação para cinema da obra literária Dune, feita pelo David Lynch, que me marcou muito em criança. Não percebi nada do filme naquela altura, mas todo o universo de figuras impressionou-me. Mas muito em particular aquela frase: Os sonhos são mensagens das profundezas; ou seja, percebe-se com o desenrolar do filme que os sonhos são na realidade mensagens do futuro. De alguma forma, chamam-nos para o futuro. É preciso por isso não ter medo da solidão. MF: No entanto os ‘teus palhaços’, uma vez imaginariamente despertos do seu mundo interior por ti, trazem-nos a tão humana tagarelice, aldrabice e as mais prosaicas preocupações de sobrevivência – O que é hilariante, e desconstrói totalmente o Vocabulário da Solitude do UR…Precisamos mesmo de estar sozinhos e calados! SJC: Sim, e começar a fazer o exercício de dares importância a ti próprio. Embora o silêncio ou a solitude não seja o meu motor, faz obviamente parte do bolo. MF: Convidá-la então para tomar chá? SJC: Convidá-la para tomar chá, para ler um livro, convidá-la para ver um filme... MF:...Temos de nos desdobrar. SJC: Tens que te desdobrar, escrever e ler sobre isso. Dares poder a ti próprio, e não transferi-lo, porque ninguém te vai salvar…Precisamos antes de nos conhecermos o mais possível. Estar sozinho não é ‘feio’, pode até ser bastante belo, se pensarmos que uma grande parte dos problemas do mundo se devem à falta de amor-próprio; à incapacidade de estar sozinho. ‘Feio’ é dizer coisas por dizer… MF: Por falta de tranquilidade e de habitarmos o nosso mundo interior… SJC: A solidão do UR refere-se à tranquilidade. Mas eu tenho de tirá-los do silêncio e pô-los a falar, porque eu venho da palavra, sou uma contadora de histórias. O UR também conta histórias, muito mais parecidas com as do universo beckettiano. O Harold Pinter, seu grande amigo e ator, dizia que o Beckett é o único dramaturgo e escritor que conheceu verdadeiramente único. Eu também partilho dessa opinião, referindo que ele não queria convencer nem vender nada a ninguém, apenas falar sobre o que o atormenta a si e ao mundo. À Espera de Godot – e a espera novamente – é a melhor peça de sempre. Está lá toda a humanidade. É neste sentido que ambos se encontram. O UR dá-te uma imagem que quer dizer tanta coisa…e nada, para te dar a ti espectador a responsabilidade de criares um mundo próprio...e isso é uma obra de arte. MF: Também tu, no sucessivo abandono de controlo da audição, crias o tão desejado espaço para a arbitrariedade, próprio de uma obra de arte, para o qual o Outro – e a falta de controlo sobre o Outro – é fundamental para que possa comunicar, sendo habitada…E claro, uma vez in love, todos nos encontramos at love; o amor é o derradeiro espaço criado. SJC: Sim, para que o possa habitar e ser feliz nele ou não. E chegar a algum lado ou não…Têm-se sempre pouco controlo nestas questões… MF: Abriu-se então um arco-íris; um espectro de possibilidades, a partir da colaboração com os atores palhaços…Adoro a pergunta naïve que fazes: Qual é a tua cor favorita? Cor e saber de cor, que é o que os atores sabem melhor. SJC:…E a cor em UR é incontornável. Explico-te por exemplo como surgiu a sala dourada. Queria dois espaços diferentes: Um para a performance, dourado; e, outro para a audição propriamente dita, branco. Mas uma vez que só tinha uma sala, tive que modificar uma parede. O UR têm uma instalação de muros falsos de pequenos tijolos de várias cores…cor-de-rosa, amarelos etc., e tem também os seus sóis. Eu queria muito um muro de ouro… MF: Sim, vejo agora, os teus dois espaços e vídeos têm portanto reminiscências de ambas as instalações, mas deslocados: O halo circular de luz, como que um sol quando respondem às tuas questões, e a estereotomia dos tijolos falsos nos lingotes de ouro falsos… SJC: Porque trabalhei com um orçamento muito pequeno tive de prescindir de uma cortina dourada da qual andava enamorada, foi então que ao ver o ensaio geral do Gus Von Sant no Teatro Dona Maria, olho para umas letras douradas no fim do palco, feitas com cobertores térmicos e lembrei-me que já tinha tentado trabalhar com este material. Pensei: É a minha solução! E tive a imagem de vê-los a trabalhar em ouro sobre ouro…claro! MF: Estás tu também a criar um mundo interior, um espaço limitado e seguro, delimitando um dentro e um fora. E, pelo valor simbólico do ouro, a atribuir-lhe o devido valor. SJC: E porque este foi o meu primeiro trabalho para um espaço de arte contemporânea, também eu aprendi com a situação que me foi dada. Tive de criar uma estratégia de favorecer a permanência do público, um público tendencialmente nómada...Diferentemente de um teatro ou cinema, onde a mesma sala escura é fechada durante o espetáculo. O público fica de certo modo condicionado. Claro que pode sair e voltar a entrar…mas sentirá alguma inibição em fazê-lo. Não poderia fazer o mesmo para que as pessoas assistissem aos 40 minutos de vídeo…Ao forrar a sala toda de dourado, esperei poder dar pistas de que se está a entrar num sítio específico para ver uma coisa específica. O próprio UR coloca filtros de cor nas entradas de luz; criando uma atmosfera específica para as esculturas do Vocabulário da Solitude. MF: E tu colocas uma espécie de talha dourada, mas frágil, como nós mesmos humanos e os muros que criamos, ou as paredes do UR… SJC: Desde sempre o dourado remeteu para o divino, e não apenas no catolicismo. Queria acima de tudo um lugar sagrado; um templo laico. Trata-se de uma declaração de amor a uma pessoa que não conheço, mas à qual sou grata pelo que faz por todos nós com a sua obra. Sinto que o UR esbanja amor através dela. Porque de alguma forma é impossível não sentir ternura pelas esculturas…Apetece deitar ao lado e perguntar: Estás bem? O que se passa contigo? MF:...Sim, porque os palhaços – esses em particular – com aquela 'barriguinha', têm algo de bebé ou budas saciados…em plena paz, como já tive a oportunidade de ver. SJC: Transmitem-me tanta coisa…sinto que podia estar com eles três horas numa conversa telepática…Mas eu sou pela palavra, fui guiando e sendo guiada, e isso creio também ser muito bonito, isto é, teres a coragem de estares dependente do Outro. No teatro ou cinema, ninguém faz nada sozinho, e creio que nem um pintor que se isole para pintar. MF: Isso é precisamente o que os melhores atores melhor fazem...e essa capacidade de entrega é correlata à capacidade de estar só. Então e...Quem são as Crianças Loucas? SJC: Os que estão aqui comigo são apenas seis elementos: o João Cachola, a Inês Realista, a Cirila Bossuet, a Catarina Rabaça, o David Esteves e o Rodrigo Tomás. Já tinha trabalhado com o Rodrigo, excelente ator, e depois lembrei-me de convidar o João Cachola, o próprio António Mendes que é realizador e que montou e foi meu assistente de realização é das Crianças Loucas. Pensei então fazer uma parceria com as Crianças Loucas e assim me chegaram os outros atores. E depois temos o Wagner Borges que é também um belíssimo ator, e de quem também gosto muito do trabalho. MF: O palhaço rico, que cria as inúmeras versões do nome UR, que é por sinal um belo trava-línguas…Rrr…Rondi-nove… SJC: São jovens mas com muita maturidade, super talentosos e muito livres…com o Wagner são sete, uma referência às Sete Montanhas Mágicas do UR e às sete cores do arco-íris. O UR é obcecado por números ímpares e séries. Mas foi uma vez confrontado com uma suposta incoerência na série…e respondeu que sim, era verdade, porque não resultava…Uma vez mais temos de estar abertos, prescindir do controle…o que é o mais difícil…Por isso é que ele é tão incrível…Gostaria muito de conversar com ele... MF: E, já conversas, telepaticamente: Sem saberes, o Vocabulary da Solitude voltou a inaugurar, desta vez Auckland, nos antípodas, precisamente no dia que inauguraste em Lisboa…Um em cada hemisfério, e portanto, recriaram de certo modo um imaginário – um mundo em comum. Na finissage da exposição na Plataforma Revólver e pensando a futura circulação das duas peças de vídeo criadas pela São José, declaramos com a atriz: For the record Ugo Rondinone, We Love You.
Madalena Folgado É mestre em arquitetura pela Faculdade de Arquitetura e Artes da Universidade Lusíada de Lisboa e investigadora do Centro de Investigação em Território, Arquitetura e Design; e do Laboratório de Investigação em Design e Artes.
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