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TONY CONRADTONY CONRADCULTURGEST EdifÃcio Sede da Caixa Geral de Depósitos, Rua Arco do Cego 1000-300 Lisboa 12 MAR - 03 JUL 2022
A pesquisa estética de Conrad sempre se focou à volta da comunicação. Por um lado, remetendo-a a um âmbito formal, às suas possibilidades estéticas, sensoriais (vejam-se os Invented Acoustic Tools que aqui nos apresenta, produzidos entre 1966 e 2012, instrumentos musicais compostos desde canos a berbequins), por outro, usando-a como veículo crítico, interventivo, em relação a dinâmicas de poder e autoridade, desmascarando-lhes as aparências. A sua obra procura sempre revelar as fabricações da realidade, quer satirizando-a (olhando-a de frente) quer contrariando-a (abrindo novos caminhos). Ambas identificam a atração pelo que não se vê, ou à primeira vista pode não se discernir. Mesmo à entrada da exposição, no corredor que vai até à bilheteira da Culturgest, vemos uma instalação, Studio of the Streets, realizada nos anos 90, onde, numa televisão, se reproduz um filme – vemos o artista abordando pessoas na rua, perguntando-lhes sobre questões sociais, políticas, dando-lhes voz. Ao redor desta televisão, está um espaço em construção, isolado por fitas de sinalização que compreendem o espaço, impossibilitando a entrada – ao lado da televisão, um rolo de fita amarela grita “CAUTION”. Não é, obviamente, por acaso que se dá assim início à exposição – para desconstruir também é necessária uma construção, um processo de procura que nos leve a um possível resultado. Muitas vezes, esse resultado é o próprio ato de continuar à procura, durante o tempo restante. A obra de Conrad ainda não terminou: não só fala a um contexto que ainda atravessamos, como se preocupa com a nossa perceção e envolvimento, junta arte e vida. É esse também o objetivo desta exposição – é interessante verificar que até a disposição dos objetos se apresenta numa ordem de tendência cronológica, acompanhando a vida do artista. Para além dessa desmistificação do processo artístico, epistemológico – para Conrad, partes de um núcleo comum - as obras que vemos são também atraídas pelo tempo, conscientes da sua passagem e do seu poder transformador, irreversível. Contraditoriamente, um dos símbolos que lhe interessa explorar nesta relação é o ecrã, talvez por a uma primeira vista, parecer deslocado, imortal, recetor frio de imagens fechadas, testemunhas de um contexto. Esta dissonância não nos passa despercebida na exposição: será, diria até, o seu princípio narrativo, edificante.
Vista da exposição. © Vera Marmelo
Olhemos para os Yellow Movies, aqui expostos em duas dimensões diferentes: num primeiro caso, iluminados sob a museografia do museu, expostos em paredes de luz branca, e por último em vídeo, numa sala escura, já anteriormente mencionada – projeções verdes sob o zumbido de luz negra. O intuito destas obras é registarem a passagem do tempo – no caso das 3 obras que vemos na segunda sala (ou até dos Surface Studies que veremos mais à frente) representa-se um filme infinito, que se vai revelando na superfície do papel através do tempo que nele atua, utopia da pintura tornada cinema. O material está já envelhecido, rasurado, a tinta negra das margens do ecrã pintado torna o conjunto sujo, ainda mais expressivo. O centro resiste à espera da revelação da sua película. Apesar do idealismo que poderemos ver nestas obras, Conrad, inserindo-se no contexto artístico em que operou – o das neo-vanguardas, de ações demolidoras, reflexivas – está sempre ciente do possível ridículo (derivação do inesperado) que as suas conceções carregam, e não o pretende ocultar, as obras são o que quisermos fazer delas: irónicas, românticas, conceptuais. A arte de Conrad apodera-se de todas as frentes ou, pelo menos, quer apreendê-las. O humor é sempre parte essencial. Vejamos na mesma sala, Deep Fried, película fílmica de 16mm que o artista, literalmente, fritou. Esta obra recorda-nos que há um lado performático na obra de Conrad que nos escapa nesta exposição. Ainda que a sua profusa carreira como violinista se ouça em Four Violins, os Invented Acoustic Tools que se expõem estão todos silenciosos, salvando-os um pequeno filme que nos mostra o artista a usá-los, ilustrando-nos o som que produzem. Ele comenta: “In order to be heard, instruments don’t need to be loud”. Apesar da frase pertinente (e vejamos as possibilidades que a sua interiorização pode carregar), ela resume também o meu problema com esta exposição. A narrativa é contida, não suficientemente audível, faltando o limite radical de disrupção que torna fundamental a obra de Conrad – não nos esqueçamos da avalanche de sentidos que é o seu The Flicker, aqui nunca mencionado, uma das obras fundadoras do cinema estrutural. O único momento a que chegamos perto dessa potência será em WiP, onde através de uma luz LED intermitente, se ilumina um cenário prisional, projetando-se no lado direito da sala, através das grades, um filme inacabado do artista, Jail, Jail de 1982, uma obra realizada através de atuações improvisadas, onde se testemunha o humor exegerado, propositadamente camp, que caracterizará outros filmes que aqui se mostram: vejamos Beholden the Victory, apresentado umas salas mais atrás, onde numa espécie de bromantic comedy, se satiriza, infantilizando, a suposta coragem necessária à vida militar, ou a mais interessante Panopticon, uma instalação composta por um cenário feito em cartão, uma cidade simulada, onde em vários ecrãs, de vozes entrecortadas, um evangelista nos tenta vender produtos, ideias, fazendo-nos reféns dessa prisão panóptica, pós-moderna, capitalizada, que é revelação do nosso quotidiano. Exemplo máximo da crítica aos media que percorreu o seu trabalho, é aqui que se manifesta o tom horroroso, quase lynchiano da sua comédia: uma ausência de equilíbrio, onde os extremos se atraem. A mostra termina com a série Underwear, realizada em 2009, e Gate de 2016, ano da morte do artista. As obras preocupam-se com a desmistificação da velhice: em Underwear vemos retângulos negros pintados em roupa interior, sugerindo-nos na sua aparência suja, brutal, o horror da incontinência; já em Gate observamos uma cancela eletrónica, de clausura clínica, tanto usada em lares de idosos, como enquanto resguardo de bebés e crianças, impedindo que se aleijem ao entrarem para lá da divisão permitida. Evocativas de coragem, empatia, transparência, é curioso que a uma primeira vista isso nos possa escapar. Onde inicialmente nos focamos aqui são nesses retângulos negros, os mesmos com que Conrad revestiu os seus ecrãs nos Yellow Movies do início da exposição: não só solidificam a iconografia do artista, como são agora capazes de uma metamorfose, evocando um último pavor, fatal. Porque para falarmos do fim temos sempre de remeter a um começo, uma memória. Esta exposição é, inevitavelmente, essa memória – só a queríamos um pouco mais vívida.
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