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EXPOSIÇÕES ATUAIS


'Uns sobre os outros', Luísa Cunha, 2017.


'Bresson', Rui Chafes, 1999, ferro.


'Messy Nessie all over the place (When you play alone, you always lose) - #1 US Open', Luís Lázaro de Matos, 2017, carvão sobre papel, tinta sobre parede.


'Doce rude', Angela Detanico/Rafael Lain, 2012, vinil.


'Sem título', José Pedro Croft, 1992.


'A Casa do Céu', Pedro Cabrita Reis, 1989.


'O lado escuro da lua', Igor Jesus, frigoríficos, 2014.


'Pisando derechos', de Eugénio Merino, 2018.


'Sem título', Fernando Calhau, 2000.

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COLECTIVA

AQUI SOMOS REDE




MACE - MUSEU DE ARTE CONTEMPORÂNEA DE ELVAS
Rua da Cadeia
7350 Elvas

15 JUL - 15 AGO 2022

15 anos sintonizando Elvas à contemporaneidade

 


Não se trata da Bienal de Veneza transposta para Portugal, mas da distribuição de várias obras de arte por 25 locais dentro dos muros de uma cidade histórica, como um salão de baile, uma casa privada, um paiol, uma casa em construção ou uma das sociedades recreativas, de forma igualmente enigmática e labiríntica como essa cidade italiana. Se por um lado, esta mostra artística é de menores dimensões e é dedicada a coleções de obras de arte dos últimos cinquenta anos, ao contrário, das propostas mais recentes apresentadas no contexto da bienal, por outro lado, Elvas, onde ela decorre até ao próximo dia 15 de agosto, supera sem dúvida “a sereníssima” em termos de resistência. O seu relevo acentuado e os mais de 40 graus Celsius constantes, provam a devoção de qualquer peregrino estético. Falamos, então, da comemoração dos 15 anos da inauguração do Museu de Arte Contemporânea de Elvas (MACE), que marca um auspicioso precedente para futuras mostras artísticas desta dimensão, seja de novidades criativas ou de peças mais antigas e envolvendo o potencial desta cidade fronteiriça, já de si um tesouro artístico a desvendar. E se para esta ocasião foram convidadas importantes instituições e coleções para se juntarem ao MACE sob o lema “Aqui somos rede”, é possível criar uma dinâmica, não só de convite, mas também de candidatura espontânea da parte de várias instituições e organismos artísticos contemporâneos portugueses e internacionais para eventos similares, ali mesmo, às portas de Espanha.

O brio desta mostra não se deve somente à quantidade das obras expostas e à originalidade da escolha dos locais, mas, também, às próprias escolhas expositivas que abarcam por exemplo, a fixação de um néon de loja na fachada da torre fernandina, a sugestão de material fecal exposto sobre o balcão de um bar, um desenho a carvão exposto numa parede escura de acesso a umas estreitas escassas, linhas de pesca sentidas na cara suada depois de percorrermos o chão de uma enorme cisterna escura ou esculturas dispostas sobre mesas de refeição prontas a degustar.

 

Spirit shop, torre fernandina.

 

Uma conclusão pode-se retirar, desde logo, sobre os principais temas destas coleções de arte: dominam as questões políticas, como o feminismo ou o racismo; a linguagem na arte; a criação de obras a partir de materiais pouco nobres, como tijolos, papel vegetal, resinas ou objects trouvés; várias instalações; bastante arte abstrata formal e muito pouca arte figurativa. Aqui vemos como a arte contemporânea matou quase por completo a representação. Ela não pretende mais, estar em lugar de qualquer outra coisa do passado, mas, sim representar-se a si mesma, por isso, é tantas vezes incompreendida. Ela acusa, grita, subverte, reflete, provoca, ou ostenta formas tanto hediondas como corriqueiras. Ousa simplesmente ser.

A forte componente política é, claramente, notada na mensagem de áudio de Gisela Casimiro, da qual se ouve “Aviso: atenção ao intervalo entre a ignorância e o racismo” ou na faixa de pano preto pintada com a frase “Arte machista faz mal à vista” de Ana Cristina Cachola e Xavier Almeida. Já, as palavras doce e rude, escritas pela sua metade gráfica e coladas em espelho na esquina de uma parede, de Angela Detanico/Rafael Lain, ou a mensagem “A drop in the universe has universes of its own”, de Carlos Noronha Feio, jogam com a ligação cognitiva entre o visual e o linguístico. Em termos, da utilização de materiais raros, a obra “A noiva” de Joana de Vasconcelos, feita com tampões Ob I Acero e a obra “O lado escuro da lua” de Igor Jesus com pedaços de frigoríficos, são indubitavelmente as mais icónicas. Não menos icónicas são as obras sem título de José Pedro Croft, o melhor depurador de formas português, ou as obras de Pedro Cabrita Reis que ao reposicionarem planos monocromáticos, subvertem o sentido de supostos significados pré-estabelecidos, obras estas distribuídas pelas várias coleções das entidades convidadas. E no que respeita às instalações, é de destacar, em geral, a curadoria e a montagem de sete obras numa casa em construção, bem perto da Sé de Elvas, e, em particular, a instalação “Safelight” de Igor Jesus, que se torna um constante alerta no meio dos escombros.

 

Safelight, Igor Jesus, 2019.

 

Da grande rede de contatos e do vasto acervo em exposição que o MACE conseguiu juntar para celebrar este seu aniversário, como, por exemplo, o Quetzal Art Center, de Vila de Frades, ou o Museu Extremenho e Ibero-americano de Arte Contemporânea (MEIAC), de Badajoz, poria especificamente, em relevo, uma peça, um artista e uma pura fruição estética, devido ao seu particular significado. Pelo forte teor político, é de salientar a conceção de uma obra com 15 pares de solas de sapato cuja impressão a laser descrevem os vários direitos humanos. No entanto, como a própria imagem e titulo da obra indicam, “Pisando derechos“, de Eugénio Merino, esses direitos alcançam apenas uma ínfima parte do universo dos seres humanos. 

Do projeto VEM – videoarte em movimento -, que só esteve em exibição nos dois primeiros dias da comemoração e que seguirá para Malpartida de Cáceres e depois para Madrid, constava do seu programa a apresentação de dois vídeos de João Cristóvão Leitão. Trata-se de dois especiais retratos, o de Mónica e o de Irineu, que de uma forma acutilante desmontam a impossibilidade de um ideal de perfeição sobreviver. Ainda do mesmo projeto, foi exibido “The divine way”, de Ilaria di Carlo, que é basicamente uma sequência de 15 minutos de várias descidas de escadas. De escadas barrocas, neoclássicas, modernas, minimalistas, industriais, de logradouros, ovais, labirínticas ou de um só lanço. Esta obra não se trata apenas de uma homenagem à beleza das formas, mas, uma pesquisa sobre a omnipresença do estético no quotidiano, ad infinitum.

Os 15 anos do MACE, provam que o trabalho em rede é o leitmotiv da nova era, mas que acima de tudo, pode (deve) ser uma colaboração que tem de ir para além da mera circunstância comemorativa e criar raízes para futuras mostras mais regulares, de modo a criar públicos cada vez mais curiosos e sedentos de novidades, bem como estimular o devir da criação no nosso país. Se não se cria um hábito, não se gera conhecimento e a obra não nasce.

Mas, acima de tudo o MACE tem o grande mérito de destruir o grande mito que Lisboa é tudo e o resto é paisagem!

 



NUNO LOURENÇO