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EXPOSIÇÕES ATUAIS


Jeanne Mammen, Transvestitenlokal [Restaurante para travestis], cerca 1931. Aguarela e lápis. © Adagp, Paris, 2022 Photo © BPK, Berlin, Dist. RMN-Grand Palais / Dietmar Katz.


August Sander, Secretária na Westdeutscher Rundfunk em Colónia, 1931, 29x22cm, SK Stiftung Kultur Cologne.


Otto Dix, Retrato da jornalista Sylvia von Harden, 1926. © Audrey Laurans - Centre Pompidou, MNAM-CCI /Dist. RMN-GP.


August Sander, Máscara mortuária de Erich Sander, 1944, 25.8×18.7cm, MoMA.


Arbeiter Illustrierte Zeitung, 1926, 5º ano, n° 8, p. 8-9, Staatsbibliothek zu Berlin.


George Grosz, S. T. (Construção), 1920, óleo sobre tela, 81x61cm, Kunstsammlung NRW, Düsseldorf.


Christian Schad, Conde St-Genois d’Anneaucourt, 1927, huile sur bois, 103×80.5cm, Centre Pompidou.

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ARQUIVO:


COLECTIVA

ALLEMAGNE / ANNÉES 1920 / NOUVELLE OBJECTIVITÉ / AUGUST SANDER




CENTRE POMPIDOU
Place Georges Pompidou
75191 Paris

11 MAI - 05 SET 2022


 

Desde a leitura do título desta exposição no Centre Pompidou (até 5 de setembro), Alemanha / Anos de 1920 / Nova Objetividade / August Sander, fica-se perplexo e desconcertado pela complexidade do propósito. Há, muito claramente, uma exposição de fotografias de August Sander, e as salas são claramente diferenciadas no percurso aberto proposto; não é a primeira em Paris, depois do Instituto Goethe em 2008 e da Fundação Cartier-Bresson em 2009, mas é sem dúvida a mais completa. Bastante normalizada, ela levanta, no fundo, certas questões.

E há uma outra exposição sobre a Nova Objetividade: não é propriamente falando uma exposição sobre o ambiente cultural de Sander ou sobre as suas influências, mas um panorama bastante completo desse movimento artístico, principalmente na pintura e na fotografia. Os dois cruzam-se por vezes e, bem evidente, o acento é colocado na comunicação (por exemplo na folha de sala, onde há apenas uma outra reprodução) sobre as semelhanças, como entre a fotografia por Sander da secretária na rádio, e o retrato por Otto Dix da dançarina Anita Berber (também na capa do catálogo): duas mulheres modernas, bastante angulosas e secas, pouco tradicionalmente femininas, afirmando-se profissionalmente num meio masculino. Mas enquanto a pintura de Dix se insere numa secção sobre as transgressões sexuais nos anos 1920, entre travestis, lésbicas, homens feminizados, sadismo e bondage (mais os homicidas sexuais, explicados aqui de forma simplista pela reação masculina à emancipação ameaçadora das mulheres), esta fotografia de Sander é deveras excepcional em relação ao seu olhar sobre as mulheres: a quase totalidade das mulheres de Sander são "mulheres de" (de arquiteto, de pintor, …), esposas e mães. À parte algumas raras artistas, apenas esta secretária e uma mulher fotógrafa existem por si mesmas, têm uma profissão própria e uma posição social autónoma.

 

Otto Dix, Retrato da bailarina Anita Berber, 1925, óleo e tempera sobre contraplacado, 120.4×64.9cm, Kunstmuseum Stuttgart.

 

Representando os Homens do século XX, Sander faz um retrato bastante conservador da sociedade que o rodeia: vemos mais os artesãos que os operários, o sub-proletariado de Ruhr, ainda muito próximo, parece ausente do seu campo de visão, substituído por trabalhadores dignos e independentes que parecem poupados pela exploração capitalista (única exceção, um Conselho de Trabalhadores, mas estes são sindicalistas já estabelecidos mais que proletários). Em contraste, podemos ver a série sem complacência “Como os trabalhadores vivem e agem” do jornal comunista Arbeiter Illustrierte Zeitung: opondo-se à imprensa burguesa, a AIZ documenta a vida operária real, com reportagens, mas também com imagens enviadas pelos seus leitores. Contrariamente a Dix ou Grosz, Sander, completamente empenhado na sua grande obra classificatória e taxonómica, dificilmente revela a fealdade da sua época, nem as suas tensões. Outro reflexo da visão tradicional da sociedade para Sander, a sua série de ministros de culto inclui apenas padres e pastores, nem um único rabino. E bem entendido, em Sander, todo o mundo é branco (os ciganos virão mais tarde). 

Foi a partir do advento do nazismo, quando o poder nazi, ainda que também fascinado pela tipologia do povo alemão, o compeliu a renunciar mais ou menos ao seu trabalho sobre os homens do século XX que a consciência política de Sander evoluiu. O seu filho Erich, antifascista, foi preso em 1934 e morto na prisão, não sem antes ter fotografado os seus companheiros detidos. Anunciada várias vezes ao longo da exposição, como que para lhe fazer contraponto, a seção final, estranhamente intitulada “Olhares para baixo”, mostra as obras complementares mais tardias de Sander, as fotografias que saem da sua visão normalizada da sociedade: os nazis, os judeus burgueses, os presos políticos, os trabalhadores estrangeiros, e também os idiotas, os doentes, os loucos, os moribundos, os cegos, as margens da sociedade, concluindo com a máscara mortuária do seu filho. Um livro adicional sobre esta série foi então publicado na sequência a uma exposição em 2018 sob o título “Perseguidos / perseguidores”, reunindo curiosamente os nazis e as suas vítimas.

O resto da exposição é um panorama bastante completo sobre a Alemanha dos anos 1920, situando bem a evolução artística no seu contexto político e social, e aprendemos muito ali, contrariamente à parte de Sander, mais convencional. Vemos as tensões entre a violência do expressionismo e a standardização do pós-expressionismo “objetivo” (mas a Bauhaus está quase ausente da exposição, curiosamente). A crítica social é omnipresente, por vezes racional e por vezes irónica e contorcida. No quadro de George Grosz, intitulado Construção, não é tanto na metafísica de Chirico que pensamos, mas mais na desumanidade desse universo industrial vazio e frio onde a mulher não tem nem rosto, nem mãos. Neste novo mundo onde as formas predominam, o homem comum não é mais que um peão. As dançarinas Tiller não são mais que figurinhas intercambiáveis, e as doze "casas do tempo" de Gerd Arntz são compartimentos divididos onde o capitalismo arruma os explorados, assim como a cozinha "taylorizada" concebida por Margarite Schütte-Lihotzky.

Não de destacam dessa monotonia senão alguns indivíduos como o Conde Saint-Genois d'Anneaucourt, que Christian Schad pinta impassível e elegante até a ponta das unhas, mas cercado por duas mulheres vulgares, a viril Baronesa Glaser e um travesti, exibindo os seus iscas murchos: a crueldade irónica deste quadro e de grande número de outros é desprovida de qualquer ternura; estamos nos antípodas da neutralidade benevolente de Sander. Este retrato de uma época é o que resta de mais interessante nesta dupla exposição.

 



MARC LENOT