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EXPOSIÇÕES ATUAIS


© Filipe Braga / Fundação de Serralves - Museu de Arte Contemporânea


© Filipe Braga / Fundação de Serralves - Museu de Arte Contemporânea


© Filipe Braga / Fundação de Serralves - Museu de Arte Contemporânea


© Filipe Braga / Fundação de Serralves - Museu de Arte Contemporânea


© Filipe Braga / Fundação de Serralves - Museu de Arte Contemporânea


São Paulo, a cidade que é uma roubada, São Paulo, 1993 © Cortesia Projeto Leonilson

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LEONILSON

LEONILSON: DRAWN 1975-1993




MUSEU DE SERRALVES - MUSEU DE ARTE CONTEMPORÂNEA
Rua D. João de Castro, 210
4150-417 Porto

24 MAR - 18 SET 2022


 

Leonilson, Leo, Leon, L, José, são vários os nomes que nos acompanham ao longo da exposição Leonilson: Drawn 1975-1993 dedicada à prática de um artista que, como o próprio, se desdobra. Com curadoria de Krist Gruijthuijsen a mostra patente no Museu de Arte Contemporânea de Serralves, com coordenação de Filipa Loureiro, constitui a primeira grande retrospetiva de Leonilson (1957-1993) na Europa, um dos nomes maiores da arte contemporânea brasileira. À medida que percorremos a exposição familiarizamo-nos com a curta vida e obra de um artista cujo trabalho assumiu diversas fases: desde a pintura vinculada à geração 80, passando pela incorporação de novos materiais - pedras, botões, pérolas- e adoção do bordado como técnica. A relação entre a imagem e a palavra; a ironia; o humor; expressões e metáforas acompanha-nos à medida que mergulhamos no universo do artista, nas suas viagens e amores, confissões e desejos, trabalhos profundamente íntimos e autobiográficos de um artista que elogia e privilegia a precariedade dos meios artesanais, a gestualidade, a manualidade e o poder das palavras.

Os desdobramentos de Leonilson e da sua prática artística revelam-se-nos em Mirro, c.1975, uma das mais antigas obras em exibição e coincidentemente uma das primeiras que observamos no início do nosso percurso. Subvertendo a natureza do auto-retrato, Leonilson imprime o seu “eu” na poética e diversidade dos materiais que utiliza, revelando-nos elementos que irão acompanhá-lo ao longo do seu percurso: o bordado, o uso de tecidos e da palavra escrita também presentes no último trabalho do artista, a Capela de Morumbi, de 1993. A aparente simplicidade e caráter naïf da obra contrastam com as múltiplas camadas de significação que se nos revelam à medida que a observamos: um rosto simplificado a partir de pedaços de tecido e botões no lugar dos olhos; a palavra mirro bordada de forma inversa acentuando a ideia de reflexo/duplo, que os pespontos do pedaço de jeans enquanto tela ajudam a reforçar. A palavra costurada, simultaneamente título e signo visual dentro da obra, evoca as palavras francesa e inglesa mirroir e mirror, acentuando a ideia de espelho e de auto-retrato da obra mediante um hábil jogo de palavras, humor e ironia por parte do artista. Pressagiando os trabalhos introspetivos que Leonilson elabora nos últimos anos da sua vida, a assemblage Mirro constitui uma peça fundamental e reveladora do impulso autobiográfico do artista, da exploração de questões de identidade, do seu eu interior e intimidade que a obra espelha ao revelar-nos o reverso do tecido, o que está em contacto com a pele. Ao mesmo tempo constatamos um jogo de ocultação, um pedaço de cartão que se esconde por baixo do tecido que o sobrepõe, ideia de segredo que encontraremos noutras obras. Ao longo da primeira parede da exposição somos confrontados não só com os interesses do artista bem como com a sua noção de ideal em obras da década de 70 de caráter pop e nas quais a palavra é utilizada como suporte da mensagem a transmitir. A este propósito destaquemos Vogue Ideal (Franzine), e os desenhos de personagens do universo queer, ambos de 1976, trabalhos documentais de extrema importância que nos revelam o espírito reivindicativo e político do artista face ao feminismo, às comunidades marginalizadas e minorias sexuais, e que enfatizam o seu pensamento a respeito de liberdade, preconceito e da figura do anti-herói. Das experimentações e trabalhos inicias da década de 70, de um percurso artístico em construção, observamos nos trabalhos da década de 80 uma prática que acompanha o período de renovação política do Brasil, em que assistimos a um processo de rutura com questões conceptuais. As viagens que realiza para a Europa a partir de 1981 e o diálogo com referências internacionais revelar-se-ão fundamentais para o enriquecimento do seu reportório visual, assim como o contacto com a Transvanguardia italiana que surgirá com vigor na sua produção e eclodirá não só individualmente - como nos revelam as suas pinturas e desenhos de subjetivismo eclético e linguagem visual emblemática -, mas também no cenário brasileiro. Percorremos o espaço expositivo sob a vigilância de A grande pensadora, 1985, um dos primeiros trabalhos tridimensionais de Leonilson com que participa na XVIII Bienal de São Paulo e deixamo-nos seduzir pelo corpo, pelo universo íntimo e questões pessoais do artista nas pinturas de 1988 Os pensamentos do coração e As ruas da cidade, cuja beleza poética dos títulos estabelece um interessante jogo semântico com as palavras e signos representados.

Observamos nas composições datadas de 1988 e 1989 aspetos formais que a sua obra segue: a ausência de moldura, a interferência direta no suporte, a escolha dos tecidos, a inclusão de botões, contas, pedras semipreciosas, arames e fios de cobre que dispostos sobre a superfície de lona conferem uma nova textura ao corpo da obra. A linha, a costura e o bordado imprimem novo caráter à poética do artista, vemo-lo em Sem título, c.1988 nos botões que dispostos por cores quentes e frias simbolizam as cidades que visitou; nas contas que sobre um guardanapo desenham o nome Adam e nas montanhas – signo corrente na sua obra - protetoras com neve em Mountains under snow, c.1989. Próxima a pintura de caráter melancólico e dual Leo não consegue mudar o mundo, 1989 desperta a nossa atenção pela intensidade do vermelho que cobre a superfície apresentando ao centro um coração em chamas de onde partem duas artérias que ostentam as palavras solitário e inconformado, às quais se acresce a ambiguidade das palavras abismo e luzes, confissões escritas de Leonilson que nos remetem para a ideia de sacrifício do corpo.

Na segunda sala da exposição, observamos a série de desenhos de 1990 que têm o sexo como tema. Tratam-se de pequenas e simples composições de caráter intimista e minimal, desenhos em que o gesto se nos revela nos grandes espaços em branco do papel evidenciando o cuore, a paixão, a potência sexual, questões de enamoramento e submissão, temas sexuais que implicam analogias entre os objetos representados e as palavras, que também surgem bordadas revelando fetiches Don´t be sweet; Use violence with me, pensamentos do artista que se concretizam no contraste entre a precisão da linha e do traço negro sobre a pureza do fundo branco. Das reflexões do artista e composições de temática sexual, encaminhamo-nos para uma pequena sala, qual confessionário de Leonilson, cujas obras em exibição ilustram o abreviamento do tempo, a precaridade da vida, preocupação com a morte e ideia de contaminação. O diagnóstico de VIH positivo que recebe em 1991 altera profundamente a linguagem visual da sua obra conduzindo-o por procedimentos artísticos que refletem com maior veemência questões autobiográficas e o seu mundo interior. A este propósito destaquemos os desenhos em exibição da série O perigoso, 1992 que, num diálogo entre signos e palavras, traduzem o seu quotidiano com a doença e o tratamento apresentando-nos imagens de agulhas, comprimidos, soro e relógio, com relevância para o primeiro desenho no qual inclui uma gota do seu sangue contaminado, declaração pública subversiva da sua orientação sexual e da sua luta pessoal. É no período de 1991 a 1993, última fase de sua produção, que sua obra incorpora características pontuais e de grande lirismo: os recursos utilizados são mínimos e a simplicidade na representação emoldura um silêncio, elaborado entre ironias, que discutem a sua via crucis. O bordado torna-se o meio mais utilizados pelo artista enquanto palco no qual projeta a anunciação da morte e a influência da doença em obras de cariz autobiográfico que se traduzem em tecidos leves e sóbrios, metáforas da fragilidade do seu próprio corpo.

Na última parte da exposição, observamos qual mural as ilustrações feitas pelo artista para a Folha de São Paulo entre 1991 e 199, que se exibem ao longo da parede. Desenhos detalhados, irónicos e carregados de simbolismo que nos revelam o olhar crítico de Leonilson sobre a vida e a sociedade do seu tempo, sobre as convulsões políticas e culturais do Brasil e que constituem nos dias de hoje importantes registos de um período histórico. Entramos numa pequena sala e observamos como um relicário que guarda um segredo, o Auto-retrato, 1993, que o artista nos oferece, projetando-se através da ausência do seu corpo: um cubo metálico de aço coberto por voile branco pintado e bordado com as três primeiras letras do seu nome LEO, num contraste entre a rigidez e dureza da peça com a delicadeza e translucidez do tecido que resguarda o auto-retrato do artista, uma relíquia de si mesmo. Cravado diretamente na parede oposta e em diálogo com Auto-retrato, O Penélope, 1993, peça em voile que parece desfazer-se pouco a pouco evocando a fragilidade do corpo do artista, alegoria do seu sofrimento. A referência que dá título à obra, bordada ao lado de uma pequena cadeira na parte de baixo do tecido, remete para a suspensão do tempo e ideia de espera - talvez da própria morte - ao mesmo tempo que evoca a mulher de Ulisses que tece como forma de salvação. De destacar no título da presente obra a utilização do artigo masculino com o substantivo feminino subvertendo desse modo o artista as fronteiras entre os domínios masculino e feminino.

Jogando com a ideia de transcendência e passagem observamos o último trabalho de Leonilson, Instalação sobre duas figuras criada para a Capela do Morumbi, São Paulo, em 1993. Tecidos leves e brancos das suas próprias camisas e lençóis descansam sobre cadeiras ou cabides como corpos nas quais lemos palavras bordadas que nos confrontam: Da falsa moral e De bom coração; Lázaro; Los delícias. Representação máxima da desfiguração do corpo, Lisette Lagnado descreve esta instalação como uma síntese da vontade religiosa de Leonilson, assim como a escolha do espaço arquitetónico da capela, revela um espaço ativo sobre a obra, afirmando a busca do artista da temporalidade para redenção.

 

 

 



MAFALDA TEIXEIRA