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EXPOSIÇÕES ATUAIS


Pórtico do Hospital de San Paolo (complexo das Leopoldinas), piazza Santa Maria Novella, Fotografo Alinari, ca 1887. Copyright: Archivi Alinari, Florença.


MNAF, Florença. Vista da sala A. Magherini. Copyright: Archivi Alinari, Florença.


Daguerreotipista não identificado. Roma. Templo de Saturno no Foro Romano, ca. 1845. Daguerreótipo. Copyright: Archivi Alinari, Florença.


Felice Beato, Mulher japonesa aplicando cosméticos, ca. 1863. Prova de albumina colorida à mão. Copyright: Archivi Alinari, Florença.


Florença, Jardim dos marqueses Strozzi, Begónia Contessa Pandolfini, ca. 1880. Prova de albumina. Copyright: Archivi Alinari, Florença.


Robert Rive, Nápoles, família de marinheiros, ca. 1880. Prova sobre albumina. Copyright: Archivi Alinari, Florença.


Carlo Wulz, Nu, ca. 1920. Prova de gelatina e prata. Copyright: Archivi Alinari, Florença.


Álbum de paisagens (fechado), ca. 1890. Copyright: Archivi Alinari, Florença.


Modelo Polaroid 95, Cambridge (Massachussets), Estados Unidos da América, 1948. Primeiro aparelho para fotografias com revelação imediata. Copyright: Archivi Alinari, Florença.

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COLECTIVA

Vu d’Italie 1841-1941. I grandi Maestri della fotografia italiana nelle collezioni Alinari




MNAF - MUSEO NAZIONALE ALINARI DELLA FOTOGRAFIA
Piazza Santa Maria Novella 14a rosso
Firenze

29 OUT - 10 DEZ 2006


Florença ganhou um novo museu: o primeiro museu nacional de fotografia italiano. Uma iniciativa da famosa agência fotográfica Alinari, o MNAF (Museo Nazionale Alinari della Fotografia), veio ocupar parte do complexo conventual das Leopoldinas, na Piazza Santa Maria Novella, no qual funcionará também, assim que estiver concluído o restauro da totalidade do edifício, o futuro Museo del Novecento (dedicado à arte italiana do século XX). O MNAF pretende transformar as Leopoldinas num importante pólo cultural e elevar Florença ao estatuto partilhado de “capital mundial da fotografia”. Os objectivos são pois, ambiciosos: para os cumprir, o museu possui duas áreas expositivas, uma permanente e outra temporária, e avança ainda com algumas novidades, sendo a mais original e significativa das quais um “museu táctil”, isto é, um percurso museológico para invisuais.


A exposição temporária, intitulada “Vu d’Italie 1841-1941. I grandi Maestri della fotografia italiana nelle collezioni Alinari”, constitui uma viagem temática pelos arquivos Alinari. Formada em 1852, a agência possui cerca de 3.500.000 originais fotográficos que documentam mais de 150 anos de história italiana. A exposição propõe-se percorrer os primeiros cem anos da história da fotografia em Itália, e encontra-se organizada em três secções.


A primeira secção, “1841-1881: Das origens aos grandes estúdios fotográficos” é, sem dúvida, a mais rica. A difusão da invenção de Niepce e de Daguerre em território italiano é ilustrada por vários daguerreótipos de grande qualidade e em excelente estado de conservação, entre os quais um dos mais antigos realizados na Toscana, o “Veduta de Firenze sotto la neve”, atribuído a Vincenzo Amici e datado de 1841 (recorde-se que Arago anunciou a invenção da fotografia à Academia das Ciências em Janeiro de 1839). Inúmeros retratos “daguerreotipados” completam esta amostra, demonstrando como a nova arte fotográfica se viu imediatamente sujeita aos cânones pictóricos (neste caso, os do retrato pintado). A difusão do negativo sobre papel salgado veio alargar as possibilidades criativas. É nesta altura que os irmãos Alinari fundam em Florença o seu laboratório fotográfico: as suas cuidadas imagens da cidade dão a conhecer ao mundo o seu património inestimável e ilustram bem o trabalho – e o romantismo - desta geração de pioneiros. À magistralidade e melancolia das ruínas e dos monumentos artísticos, juntam-se paisagens pitorescas, cuidadosamente compostas, e admiráveis cenas de rua que tentam capturar o mundo “como ele é”.


Uma segunda secção intitulada “1880-1920: Em busca de uma nova estética” pretende ilustrar a libertação progressiva da fotografia realizada em Itália dos cânones pictóricos a que se encontrava submetida. Se alguns autores ilustram com os seus “tableaux vivants” uma total submissão à vetusta arte da pintura (o exemplo mais flagrante é talvez “Interno fiammingo con mappamondo” de Guido Rey, ca. 1902) outros parecem evoluir em direcção a novos sentidos, como a foto-reportagem (vejam-se as imagens de Messina após o terramoto de 1908 de autoria de Luca Comerio), o pictorialismo (associado à revista “La Fotografia Artistica”) ou a cor (possibilitada pela invenção do processo autocromo em 1903). Esta secção, devido à sua cronologia (1880-1920) e ao seu propósito, é certamente a mais problemática: fica claro que a colecção Alinari, riquíssima de um ponto de vista sócio-histórico, não possui alguns dos nomes mais artisticamente estimulantes deste período, em particular no que diz respeito à década de 1910 (como os incontornáveis irmãos Bragaglia, por exemplo). Na verdade, a maioria das imagens expostas nesta secção pauta-se por um conservadorismo estético exactamente oposto ao que se propõe ilustrar. Convém pois não esquecer que este panorama da fotografia italiana é, essencialmente, um panorama da colecção Alinari (constituindo, por conseguinte, uma visão inevitavelmente parcial e distorcida dessa mesma história).


A terceira secção “1920-1941: As vanguardas em Itália até aos começos do neo-realismo” confirma alguns destes problemas. Se o núcleo anterior deixava de fora nomes e etapas fundamentais, esta secção, sem dúvida melhor ilustrada, continua a constituir um quadro algo modesto. O futurismo, por exemplo, encontra-se representado pelo triestino Carlo Wulz e pelas suas filhas Marion e Wanda, personagens importantes, certo, mas que estão longe de ilustrar todo o dinamismo e criatividade do movimento. Destaque-se, pela positiva, a presença de algumas imagens inspiradas pela estética fascista, nomeadamente pelas directivas do Istituto Luce (imagens que fazem parte desta história). Esta mostra, comissariada por Anne Cartier-Bresson e pela actual directora do MNAF, Monica Maffioli, tinha já sido apresentada no Pavillon des Arts em Paris no âmbito de edição do Mês Europeu da Fotografia de 2004.


A exposição permanente encontra-se dividida em sete secções, cada uma delas organizada por diferentes comissários. A primeira secção, da responsabilidade da mesma Monica Maffioli, é de grande qualidade. Intitulada “As origens da fotografia (1839-1860)” cobre o mesmo período precursor tão bem ilustrado na exposição temporária, organizando daguerreótipos e calotipos por género (vistas de paisagem e monumentos, composições artísticas, retratos). Também a segunda secção “A idade de ouro da fotografia: 1869-1920” é digna de destaque. Encontramos aí alguns dos grandes nomes da arte fotográfica oitocentista, como Felice Beato, Julia Margaret Cameron ou os irmãos Bisson. Já a terceira secção, “A chegada das vanguardas (1920-2000)” (comissário: Charles-Henri Favrod) peca pela sua heterogeneidade. Uma cronologia demasiado extensa e um espaço porventura demasiado pequeno transformam este núcleo num percurso aleatório de obras ditas de “vanguarda”, noção que permanece aqui ininteligível.



As restantes quatro secções são de natureza um pouco diferente, e ainda bem. Uma delas, “Imagens em transparência” (comissária: Maria Possenti), apresenta-nos uma série de originais (negativos, autocromos, diapositivos) em transparência, de forma a realçar os diferentes modos de visão proporcionados por estas “matrizes” fotográficas. Uma outra sala é dedicada aos álbuns de fotografia. “A fotografia conservada: os álbuns fotográficos” (comissário: Luigi Tomassini) constitui uma viagem fascinante através da esfera doméstica dos amadores e dos coleccionadores de fotografias. Alguns álbuns oitocentistas constituem verdadeiras peças decorativas - esculpidas, talhadas ou embutidas -, muitas vezes encomendados propositadamente para acolherem as preciosas recordações de uma vida pública e/ou familiar. Outro espaço, “Passo a passo, aparelhos fotográficos de 1839 a 2000” (comissário: Maurizio Rebuzzini), exibe, como o título indica, dezenas de aparelhos fotográficos, desde os volumosos aparelhos de meados de oitocentos a um pequeno telemóvel Nokia. Destaquem-se as maravilhosas fotografias estereoscópicas que podemos visionar. Finalmente, uma última secção, intitulada “Em torno da fotografia” (comissário: Guido Cecere), oferece-nos uma visão diferente da história da fotografia, propondo ao nosso olhar uma variada panóplia de objectos ligada à comercialização da actividade fotográfica: cartões de visita, objectos publicitários em suporte papel ou cerâmico, cartas e outros documentos escritos, etc.


No contexto patrimonial (e turístico) florentino, o MNAF vem, efectivamente, ocupar um espaço que se encontrava (e que se encontra ainda) vazio. No entanto, parece-nos que só dificilmente o museu cumprirá o seu objectivo de tornar Florença “numa das capitais mundiais da fotografia”. Apesar da riqueza extraordinária da colecção Alinari, tanto a exposição permanente como a exposição temporária não parecem anunciar um programa suficientemente audacioso para se impor num contexto internacional competitivo. Todas as escolhas são “valor seguro” (tal como a sobrevalorizada cenografia do museu, da responsabilidade do cineasta Giuseppe Tornatore) e mesmo no que diz respeito à riquíssima (e ainda mal conhecida) história da fotografia italiana, o museu deixa bastante a desejar. O único aspecto verdadeiramente original é o “museu táctil”: vinte traduções em relevo de vinte fotografias presentes na exposição (incluindo um daguerreótipo e um negativo), acompanhadas de explicações em Braille. Algumas destas fotografias em três dimensões são feitas em madeira; outras de papel perfumado; outras ainda incluem areia, feltro, tecido, linhas, pêlo. Tudo de forma a permitir uma percepção o mais completa possível de imagens que de outra forma não passariam de palavras imaginadas no escuro. Um catálogo incluindo dez destas “fotografias” encontra-se disponível sob encomenda.


Teresa Castro