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EXPOSIÇÕES ATUAIS


Jules Borelli (1852-1941), Retrato de uma jovem mulher, Etiópia, setembro de 1885 a novembro de 1888, impressão sobre papel albuminado. Musée du quai Branly.


Anónimo, Mulher índia nua com colares, sentada numa rede, entre 1842 e 1855, daguerreótipo sobre cobre prateado; imagem com cantos recortados.


Pierre Trâneox (1818-1895), Lavadeira Egípcia, 1847-1854, impressão sobre papel cru, Musée du quai Branly.


Irmãos Abdullah, 1858-1900, Família turca em passeio no Monte Gigante na foz do Mar Negro no lado asiático, 1860-1880, impressão sobre papel albuminado, BnF.


Fotocópia de fotografia de Francis W. Joaque.


Henri Gaden (1867-1939) e Henri Goudaud (1867-1946), fotógrafos, Edmond Fortier (editor), Ãfrica Ocidental – Samory, poderoso Almany sudanês (…)*, 1898, cartão postal, Musée du quai Branly.


Catálogo com Joseph Razofy (1881-1949), Uma mulher e dois homens olhando para uma fotografia, Madagascar, Toamasina, 1912-1913, impressão em papel aristótipo, Musée du quai Branly.

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MARC LENOT

OUVRIR L'ALBUM DU MONDE. PHOTOGRAPHIES (1842-1911)




MUSÉE DU QUAI BRANLY
37, quai Branly
75007 Paris

04 ABR - 02 JUL 2023

A fotografia, ferramenta de emancipação e colonização: abrir o álbum do mundo

 

 

Esta exposição de fotografias antigas (1842-1911) no Musée du Quai Branly (até 2 de julho) tem por ambição mostrar que, desde o seu início, a fotografia não foi exclusivamente europeia. Com algumas reticências, é uma exposição notável, principalmente baseada nas colecções do Museu (e diversos empréstimos), que é o fruto de uma pesquisa muito aprofundada (e escrevo antes de terminar de ler todo o catálogo) e aporta um olhar inovador sobre uma história da fotografia apresentada habitualmente como quase exclusivamente europeia-norte-americana. Há mesmo (na cronologia, mas nenhuma imagem dele na exposição, uma no catálogo página 26) uma menção a Hercule Florence, geralmente proscrito pela historiografia europeia, que inventou certamente a palavra "fotografia” e sem dúvida, ao mesmo tempo que Niépce, o próprio objecto, mas que, infelizmente para ele, o fez em Campinas, longe de tudo. A exposição desenrola-se em seis secções, cujo propósito por vezes se cruza um pouco, mas a primeira sala, um gabinete de daguerreótipos, é um esplendor. Pena que, antes de entrar, se tem de suportar uma tecelagem jacquard sem interesse da artista egípcia Heba Y. Amin que retoma uma fotografia do harém do vice-rei Mehemet Ali Pacha em Alexandria tirada por Horace Vernet e o seu sobrinho Frédéric Goupil-Fesquet a 7 de novembro de 1839: a artista quer “suprimir o olhar orientalista e masculino incrustado nessa imagem”; bem, já está, já entendemos, passemos agora às coisas sérias.

Da sala dos daguerreótipos, vamos ao México, a Bogotá, a Lima, a Teerão, mas também, por exemplo, à Somália, onde o capitão Charles Guillain, durante uma missão diplomática e comercial, ou seja pré-colonial, fotografa em Janeiro 1848 as jovens mulheres um pouco despidas que ele paga com uma moeda e com “bijuterias, espelhos, lenços de algodão”. É talvez este o primeiro olhar (fotográfico) do homem branco sobre a mulher negra. Vemos também ao lado o primeiro nu exótico, esta ameríndia da Amazónia numa rede, adornada apenas com os seus colares; ignoramos o autor e o local, e claro o nome da mulher. Estas imagens femininas sensuais são exceções na exposição: há muito poucas fotografias aqui com conotação erótica, e nada sobre a prostituição, embora, como salienta Olivier Auger, o olhar erótico colonial foi desde muito cedo um elemento importante da fotografia (e estamos a pensar claro no livro coordenado por Pascal Blanchard). Será, como diz Auger, um impensado das duas mulheres comissárias (aliás, ambas francesas)? Ou um constrangimento devido ao patrocínio da exposição pelo Louvre Abu Dhabi? A partir desta primeira sala, vamos ver até onde a difusão da fotografia tem sido um instrumento de dominação, quer fosse pela força, com uma colecção "antropológica" de crânios de indígenas, ou pelo conformismo, com os retratos de burgueses peruanos imitando os burgueses europeus.

A segunda secção apresenta o dispositivo do estúdio, um mundo recriado e complementado. Fazer retratos de aborígines num décor artificial pseudo-exótico é uma maneira de o civilizar, de retirar-lhes a sua estranheza. Quer sejam dignitários em viagem na Europa ou pensionistas exóticos de zoológicos humanos, os estrangeiros são fotografados em estúdios europeus. É surpreendente comparar o retrato quase bertilloniano que Philippe-Jacques Potteau fez de Abd-el-Kader, [prisioneiro e resignado: engano da minha parte, em 1865 ele deslocou-se a Paris em visita depois Damasco; obrigado a Michel Mégnin pela correcção] em estúdio em Paris com a imagem do mesmo, nobre e elegante, tirada por Gustave Le Gray em Amboise (não incluída na exposição). A secção seguinte mostra pelo contrário, fotografias feitas fora da Europa, como uma forma de apropriação visual, de controle pelo conhecimento, de domesticação pelo pitoresco (as fotos coloridas de James Robertson, por exemplo). Encontramos aqui naturalmente paisagens, mas também cenas de género como a que Alexine Tinne, rica aristocrata holandesa, fez no Sudão em 1862, viajando com a sua mãe e a sua tia nestas terras selvagens (mãe e tia morrerão durante a viagem; interessante investigação de Serge Kakou para a identificar no catálogo). Mas frequentemente, o mais interessante são os retratos: a belíssima etíope fotografada por Jules Borelli (encarregado de fazer os levantamentos geográficos na região, e que encontrou Rimbaud, mas infelizmente não o fotografou) presta-se aqui com graça e sorriso. Por outro lado, admiro a resistência passiva da lavadeira egípcia, mulher do povo que Pierre Trémaux distrai do seu trabalho; ela levanta-se sem largar a sua roupa e o seu sabão, posa um instante, mal-humorada, depois estende a mão reclamando o que lhe é devido (“bacchis”, anota Trémaux) e volta ao trabalho “sem se inquietar com o resultado da operação”: um face a face do explorador imbuído da sua arte e do autóctone que deve prestar-se ao jogo mas manifesta silenciosamente a sua hostilidade.

A secção seguinte apresenta os poderosos, reis, príncipes e as suas cortes, e a sua relação com a fotografia. É para eles uma forma de entrada na modernidade, uma maneira de adoptar as práticas e, portanto, virtudes ocidentais, e uma afirmação do seu poder. O Xá do Irã, o Rei de Sião, marajás indianos fotografam (e o sultão de Marrocos Moulay Abdelaziz fez, com Gabriel Veyre, um belíssimo retrato de mulher sorrindo a desviar uma cortina, como um convite); mas a imperatriz Cixi, que esteve na história mundial das mulheres fotógrafas, está ausente aqui. Fotógrafos europeus estabeleceram-se, os locais criaram também lojas. Não creio que a exposição o mencione, mas, muitas vezes, os fotógrafos locais são membros de uma minoria: Francis Chit, siamês cristão, os escravos livres da América estabelecem-se na Libéria ou na Nigéria, ou os muitos numerosos fotógrafos arménios no Médio-Oriente (e este é o caso ainda hoje, por exemplo em Jerusalém). Entre eles, os três irmãos Abdullah, Hovsep, Vichen e Kevork, são os fotógrafos oficiais do Sultão, encarregados por ele de documentar o Império Otomano. A imagem encantadora de três jovens mulheres a passear à beira do estreito na sua bonita caleche é um poema visual: e os véus de duas dessas damas são tão ligeiros que incapazes de dissimular a sua beleza sedutora; a terceira vestida de negro é talvez a chaperon, mas nenhum homem à vista. Em todo o caso, para estas aristocratas muçulmanas, ser fotografado assim por um Cristão não é nenhum problema; e elas não são as únicas nos arquivos Abdullah.

Os fotógrafos locais, indígenas, enquanto reproduzem padrões ocidentais, trazem um olhar diferente sobre o seu país. Assim, os fotógrafos mexicanos criam objectos híbridos, coloridos e emplumados. Assim, o liberiano Francis W. Joaque posa orgulhosamente com os seus aparelhos (mas é apresentada aqui apenas uma fotocópia, a Biblioteca Nacional de Espanha não cedeu o original). Há uma secção muito bela sobre os fotógrafos malgaxes, e os retratos de jovens e de jovens raparigas são particularmente bem-sucedidos (ver uma fotografia de Joseph Razofy). A exposição poderia sem dúvida ter explorado melhor a diferença de olhar entre fotógrafos europeus e fotógrafos locais, há aqui, creio, matéria para um verdadeiro objecto de pesquisa. A secção seguinte apresenta a fotografia como ferramenta de inventariação do mundo, com fins científicos, geográficos, etnográficos e, claro, políticos e por vezes religiosos, um tema já mais ou menos abordado nas secções precedentes. Adicionalmente, a sua difusão na Europa reforça o sentimento colonial: também aqui um assunto que poderia ter sido mais desenvolvido (ainda mais que esta exposição deixou-me assim insatisfeito).

A última secção, com um título curioso (Os limites da visibilidade) aborda as guerras (Felice Beato, um dos primeiros fotojornalistas de guerra, mostra apenas os cadáveres dos soldados inimigos, indianos ou chineses, mas não os europeus), as fotografias interditas, mas roubadas (por exemplo o pastor George Wharton James entre os Hopis). Diante da objectiva dos oficiais franceses Henri Gaden e Henri Goudaud que o capturaram, o imperador Samory Touré, feito prisioneiro pelo exército colonial francês e encarcerado, afirma a sua dignidade e resiliência; o seu ligeiro sorriso parece provocá-los e ele segura um Alcorão na mão. Morrerá em cativeiro alguns meses mais tarde. Esta imagem, amplamente difundida em França (um cartão postal na exposição) como sinal da vitória colonial, assinala antes uma inversão de poder (um pouco como as argelinas de Marc Garanger) e será amplamente reutilizada mais tarde para glorificar a luta anti-colonial. Terminamos assim com esta imagem e com as fotografias militantes de Eugène Maunoury denunciando a deportação de marquesanos para o Peru como trabalhadores escravos: a fotografia, instrumento colonial, torna-se subrepticiamente uma ferramenta decolonial.

É uma excelente exposição, mesmo se, como sublinha Olivier Auger, o Norte de África está muito pouco representado e a conquista da Argélia nem sequer figura na cronologia inicial. O propósito é ambicioso, mesmo se às vezes eu desejasse que fosse um pouco mais político; talvez haveria sido preferível que, ao lado das duas comissárias franceses, oficiasse um historiador de fotografia vindo de um país do Sul, a fim de conseguir um discurso mais político, mais equilibrado. As impressões são na sua maioria de excelente qualidade. E depois desta exposição, a história da fotografia é um pouco menos eurocentrada. Catálogo grande (400 páginas, muitas ilustrações, mas caro: 69 euros; co-editado com Actes Sud), mas não é realmente um catálogo (nenhuma lista das obras expostas, nem mesmo os 101 fotógrafos apresentados), mas sim uma colecção de ensaios sobre o assunto: 48 autores, dez ensaios e cinquenta notas detalhadas, com uma importante bibliografia de 11 páginas. Vou precisar de tempo para ler...

 

 

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Nota às legendas

* Legenda completa: Henri Gaden (1867-1939) e Henri Goudaud (1867-1946), fotógrafos, Edmond Fortier (editor), África Ocidental – Samory, poderoso Almany sudanês, inimigo da França, capturado em 1898 após 15 anos de luta, 1898, cartão postal, impressão fotomecânica, Museu Quai Branly.



MARC LENOT