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COLECTIVA#SLOW #STOP...#THINK #MOVECULTURGEST (PORTO) EdifÃcio Caixa Geral de Depósitos Avenida dos Aliados, 104 4000-065 Porto 03 JUN - 10 SET 2023 Slow and Stop. Think and Move. Com Ana Anacleto, na Culturgest do Porto.
A contemporaneidade é demarcada por um sentido de urgência, pela aceleração, pela escassez de tempo e, em reação, pela procura do rápido, do instantâneo, do direto. Zigmund Bauman já havia anunciado uma “Modernidade Líquida”, caracterizada por “fragilidade, temporalidade, vulnerabilidade e a inclinação para a contínua mudança”. Como explicou, a informação e o conhecimento tornaram-se fluídos, turbulentos, rápidos, e o mundo e a sociedade vêm-se fragmentados, múltiplos e líquidos. Esta condição reflete-se, inclusivamente, na arte. Por um lado, parece exigir-se uma criação e uma produção cada vez mais imediatas, efémeras e móveis. Por outro lado, os espaços da arte operam em trânsito veloz: as exposições erguem-se, sucessivas, umas após as outras e visitam-se rapidamente, a passo contínuo, subtraindo-se as áreas destinadas a parar, sentar e contemplar. Como sugere Hans Ulrich Obrist, os espaços expositivos tornam-se in-between spaces de acordo com a própria in-betweenness da atual existência humana, em permanente ligação. Convoca-se, portanto, o tecnológico, o digital e as redes, que influenciam largamente os ritmos contemporâneos. A própria prática curatorial, como denota Ana Anacleto, “ao invés de nos aproximar da possibilidade de produção de conhecimento através de experiências estéticas significativas e ricas, afasta-nos constantemente ao limite do fracasso”. Por conseguinte, a curadora propõe repensar os modelos instituídos, sobretudo os expositivos institucionais, e contemplar uma reaproximação ao mundo e à vida por meio da criação artística. Neste âmbito, apela a uma “curadoria desacelerada”. Face a este enquadramento, Ana Anacleto desenvolveu o projeto expositivo #Slow, #Stop... #Think, #Move, para a Culturgest, inaugurado em Lisboa e, agora, apresentado no Porto, até ao dia 10 de setembro. Deste modo, trata-se de uma exposição dilatada no tempo e no espaço, sendo justamente na ideia de uma “exposição de arte distendida” que assenta o projeto. A atual mostra dirige-se sobretudo ao pensamento, ao movimento e à ação, sendo que a própria estrutura circular do edifício que a acolhe é propícia a uma visita ininterrupta, ao mesmo tempo que instiga a ligação, a interação e o diálogo contínuos entre obras, artistas e espectadores. Destaque-se que a exposição na Culturgest do Porto oferece e denota uma certa resistência política. Sublinham-se a problematização das lógicas do capitalismo e dos sistemas de produção, nos quais se considera sustentar, em grande parte, a aceleração que se expõe. O próprio espaço da Culturgest – Porto foi, na sua origem, um banco, detendo assim uma carga simbólica e funcionando como evocativo do poder financeiro. A partir deste ponto de vista, evidencia-se a sala B, na qual se destacam, desde logo, a obra de Sara & André, composta por dois posters concretizados para o centenário do Partido Comunista português. Um deles anuncia que a liberdade é a coisa mais cara da vida e, o outro, que a alegria é a coisa mais séria da vida. Ao lado, a exaltação irónica de uma Relaxed Economy (2017), de Pedro Barateiro, e, num tom cómico, uma série de impressões em estilo banda desenhada que apelam à The Abolition of Work (2016), de Bruno Borges. Paralelamente, e no contexto da condição contemporânea que aqui se discute, considera-se fundamental convocar a ecologia. Ora, embora esta não seja diretamente abordada na exposição, encontram-se referências, por exemplo, à relação entre o humano e o animal, nomeadamente numa série de fotografias de Joanna Piotrowska. Esta dinâmica de tensão é, porém, mais diretamente abordada pelos Von Calhau! no filme Avesso (2011), o qual, enquanto ficção, é sustentado nas estruturas cinematográficas da ilusão, concretizadas, porém, de um certo modo rudimentar, próprio ao trabalho da dupla de artistas. Nesta produção, observa-se um interessante exercício entre superfície e profundidade, claro e escuro, exterior e interior da Terra, orgânico e fabricado e, nessa medida, humano e animal. Assinale-se também que, em contrapartida à velocidade da tecnologia, o novo media vídeo interrompe o continuum temporal e exige, pelo contrário, uma demorada visualização. Mais circunscritas e especificamente relativas ao universo do quotidiano, indicam-se três fotografias de Pierre Huyghe, da série Daily Event, Paris (1994), nas quais, em contraste à cidade, ao seu trânsito e ao seu ritmo, homens executam as suas triviais tarefas, imperturbáveis pelo que os circunda.
Vista da exposição. © Constança Babo
Aponte-se, ainda, a presença de outras peças exemplares tais como duas magníficas telas de Jorge Pinheiro e dois óleos de Tiago Batista, estes últimos já exibidos na primeira exposição, em Lisboa. Especialmente ao nível estético, visual e formal, da autoria de Alisa Heil, um conjunto de oito estandartes, distribuídos pelo perímetro das arcadas que determinam o centro do espaço. Produzidos com a técnica patchwork, combinam retalhos de tecidos em padrões geométricos e cada um homenageia uma figura feminina histórica. Partindo desta última obra, sublinha-se a proposta desaceleração por via da contemplação da arte, desafio este a ter em conta. Reitera-se, assim, o apelo a uma experiência lenta, demorada e dedicada, que rompa com a velocidade da vida. Por isso, Mover mas abrandar, parar e pensar.
Constança Babo
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