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EXPOSIÇÕES ATUAIS


Fuentesal Arenillas. La traza de, el vínculo a IX, X, XI, XII, 2023. © Centro Andaluz de Arte Contemporânea.


Fuentesal Arenillas. Imaginaria, 2020-2021. © Centro Andaluz de Arte Contemporânea.


Fuentesal Arenillas. La vista de los dedos, 2023. © Centro Andaluz de Arte Contemporânea.


Fuentesal Arenillas. S.T. (Familia) VI, 2023. © Centro Andaluz de Arte Contemporânea.


Fuentesal Arenillas. S.T. (Familia) I, 2023. © Centro Andaluz de Arte Contemporânea.

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FUENTESAL ARENILLAS

LA DANZA MUDANZA




CENTRO ANDALUZ DE ARTE CONTEMPORÃNEO
Avda. Américo Vespucio, 2/Camino de los Descubrimientos.
41092

12 MAI - 22 OUT 2023


 

 

A exposição da dupla de artistas Julia Fuentesal (1986) e Pablo M. Arenillas (1989) começa como um encontro com uma prenda destinada a um desconhecido. Um invólucro misterioso deixado ao acaso, em que o cordel já se começou a desenlaçar sozinho e o interior começa a espreitar, a dar-se a ver, ainda em cima do papel craft que o ampara. Não sabemos bem se é uma encomenda perdida ou um desperdício que alguém se esqueceu de deixar no sítio certo.
Há neste início de La Danza Mudanza esse destino ambíguo, como nos electrodomésticos deixados na rua; terminarão numa grande montanha em decomposição ou num novo lar, de cara lavada e um ou outro arranjo que lhes prolonga a vida?

Muitas peças, grandes telas cruas, encostadas umas às outras, com grandes figuras ocre, curvas, recortadas e coladas, reconfiguradas e escondidas, de face ao avesso. Acumuladas em pequenos grupos e encostadas ao longo do corredor de entrada.
Aqui está; a prenda para o desconhecido.
Ou a primeira impressão de que talvez este não seja este o caminho.
Será um acervo?

A Dança em Movimento, tradução à letra, afinal começa como um passo de um intérprete que, já em palco, ainda não dança. Exactamente no meio do palco, apresenta-se e afinal trata-se de um concerto. Enganaram-nos com informação errada? Não, estar de pé é o início do movimento. É o movimento mínimo, a oscilação que pauta toda a possibilidade de continuação coreográfica.
Afinal o intérprete não existe. É o cenário que se move. Aliás, nem se move mas indica o movimento que poderia estar a fazer, que conseguimos ver o quanto seria fácil que agilizasse.

Há peças que dançam a oscilação de uma cor terna, o rosa muito temperado a branco, mas muito quente do material. A textura interfere na sensação da cor e o cotovelo escultórico faz a rotação que termina no umbigo escultórico.

Outras peças tiram as medidas à exactidão dos contornos e dos pesos. Ao que vejo, é o trabalho de medição necessário para costurar figurinos; outras têm já esses fatos vestidos. Pequenos remendos fazem-nos perceber que o corpo da escultura foi outro, que o corpo da pintura já foi outro, e agora existe, com essa cicatriz da oscilação dos volumes. A oscilação do peso de um corpo: é dança? As estrias na pele, são rasto de uma dança mínima?, tal como nestas costuras que marcam estes objectos? […] Pudéssemos mexer o peso a pedido instantâneo e mudaríamos a posição do esqueleto. A posição da escultura. Activar-se-ia a dança. Há também as madeiras polidas até não haver farpas e o tecido cozido de forma a que os pesos se encaixem. Outro alfaiate ou outra moda.

Podemos ainda assistir a um concerto, não só fabuloso, como o momento mais surpreendente desta exposição. Numa sala mais tímida, recolhida, três pequenas televisões dão a ver a relação da mão com conchas escuras e alongadas. Não fossem já, as mãos e as conchas, pelas formas e movimentos, objectos de fascínio, às imagens se juntam sons. Mexilhões e mãos coordenam-se, e não são castanholas aquilo que ouvimos, é um concerto de percussão de sereias. O que poderia ser pensado como obra-pária, é afinal a chave para compreender a poética da relação com a matéria operada por Fuentesal Arenillas.

Esta exposição, que transforma redundantemente as participações e motivos umas nas outras - escultura-intérprete; ginasta-instalação; cenário-companhia; mexilhão-instrumento; concerto-tradição (etc., etc.) - e que muito bem evoca o movimento nas peças estáticas e o reforça no título, não havendo dúvidas ao que vimos, faz uso cromático do espaço de uma forma muito particular. O branco do cubo branco é utilizado de forma a entrar na composição e organizá-la. Não apenas como um fundo para as figuras que poderiam ser estes conjuntos de - maioritariamente, mas o que importa, realmente? - esculturas mas como a construção de uma ambiência ou universo de cor.

 

Retorno desta exposição com a estranha sensação de que esta não pertence exactamente a este tempo. Que a reconfiguraram de trás para a frente para nos fazerem ver o próprio movimento.
A sua subtileza compadece-se de um pós-minimalismo na figura de, por exemplo, Richard Tutlle. E nessa compaixão de documentar o sentido reverso daqueles que versam - a insistência têxtil, as cores delicodoces e a conjugação com a gama pastel menos pura; os ocres do cartão e da tela e do mdf, as texturas pouco refinadas e a extrema refinação da superfície, o equilibrismo virtuoso das formas - dançam a dança e refazem o tempo; o passado está presente e o embrulho voltou-se a embrulhar.

A exposição La Danza Mudanza, da dupla de artistas Fuentesal Arenillas, foi inaugurada a 12 de Maio e está patente até 22 de Outubro de 2023 no Centro Andaluz de Arte Contemporânea, em Sevilha. É comissariada por Beatriz Espejo e conta com coordenação de Alberto Figueroa.

 

 

Catarina Real
(Barcelos, 1992) Trabalha na intersecção entre a prática artística e a investigação teórica nos campos expandidos da pintura, escrita e coreografia; maioritariamente em projectos colaborativos de longa duração. É doutoranda do Centro de Estudos Humanísticos da Universidade do Minho com uma investigação que cruza arte, amor e capital. Encontra-se em desenvolvimento da Terapia da Cor, prática aplicada entre teoria da cor, arte postal e intuição coreográfica.

 

 



CATARINA REAL