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FUENTESAL ARENILLASLA DANZA MUDANZACENTRO ANDALUZ DE ARTE CONTEMPORÃNEO Avda. Américo Vespucio, 2/Camino de los Descubrimientos. 41092 12 MAI - 22 OUT 2023
A exposição da dupla de artistas Julia Fuentesal (1986) e Pablo M. Arenillas (1989) começa como um encontro com uma prenda destinada a um desconhecido. Um invólucro misterioso deixado ao acaso, em que o cordel já se começou a desenlaçar sozinho e o interior começa a espreitar, a dar-se a ver, ainda em cima do papel craft que o ampara. Não sabemos bem se é uma encomenda perdida ou um desperdício que alguém se esqueceu de deixar no sítio certo. Muitas peças, grandes telas cruas, encostadas umas às outras, com grandes figuras ocre, curvas, recortadas e coladas, reconfiguradas e escondidas, de face ao avesso. Acumuladas em pequenos grupos e encostadas ao longo do corredor de entrada. A Dança em Movimento, tradução à letra, afinal começa como um passo de um intérprete que, já em palco, ainda não dança. Exactamente no meio do palco, apresenta-se e afinal trata-se de um concerto. Enganaram-nos com informação errada? Não, estar de pé é o início do movimento. É o movimento mínimo, a oscilação que pauta toda a possibilidade de continuação coreográfica. Há peças que dançam a oscilação de uma cor terna, o rosa muito temperado a branco, mas muito quente do material. A textura interfere na sensação da cor e o cotovelo escultórico faz a rotação que termina no umbigo escultórico. Outras peças tiram as medidas à exactidão dos contornos e dos pesos. Ao que vejo, é o trabalho de medição necessário para costurar figurinos; outras têm já esses fatos vestidos. Pequenos remendos fazem-nos perceber que o corpo da escultura foi outro, que o corpo da pintura já foi outro, e agora existe, com essa cicatriz da oscilação dos volumes. A oscilação do peso de um corpo: é dança? As estrias na pele, são rasto de uma dança mínima?, tal como nestas costuras que marcam estes objectos? […] Pudéssemos mexer o peso a pedido instantâneo e mudaríamos a posição do esqueleto. A posição da escultura. Activar-se-ia a dança. Há também as madeiras polidas até não haver farpas e o tecido cozido de forma a que os pesos se encaixem. Outro alfaiate ou outra moda. Podemos ainda assistir a um concerto, não só fabuloso, como o momento mais surpreendente desta exposição. Numa sala mais tímida, recolhida, três pequenas televisões dão a ver a relação da mão com conchas escuras e alongadas. Não fossem já, as mãos e as conchas, pelas formas e movimentos, objectos de fascínio, às imagens se juntam sons. Mexilhões e mãos coordenam-se, e não são castanholas aquilo que ouvimos, é um concerto de percussão de sereias. O que poderia ser pensado como obra-pária, é afinal a chave para compreender a poética da relação com a matéria operada por Fuentesal Arenillas. Esta exposição, que transforma redundantemente as participações e motivos umas nas outras - escultura-intérprete; ginasta-instalação; cenário-companhia; mexilhão-instrumento; concerto-tradição (etc., etc.) - e que muito bem evoca o movimento nas peças estáticas e o reforça no título, não havendo dúvidas ao que vimos, faz uso cromático do espaço de uma forma muito particular. O branco do cubo branco é utilizado de forma a entrar na composição e organizá-la. Não apenas como um fundo para as figuras que poderiam ser estes conjuntos de - maioritariamente, mas o que importa, realmente? - esculturas mas como a construção de uma ambiência ou universo de cor.
Retorno desta exposição com a estranha sensação de que esta não pertence exactamente a este tempo. Que a reconfiguraram de trás para a frente para nos fazerem ver o próprio movimento. A exposição La Danza Mudanza, da dupla de artistas Fuentesal Arenillas, foi inaugurada a 12 de Maio e está patente até 22 de Outubro de 2023 no Centro Andaluz de Arte Contemporânea, em Sevilha. É comissariada por Beatriz Espejo e conta com coordenação de Alberto Figueroa.
Catarina Real
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