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MIGUEL BRANCOTERRA — OU OS QUARENTA E NOVE DEGRAUSFUNDAÇÃO CARMONA E COSTA Rua Soeiro Pereira Gomes, Lote 1- 6º A e D, Edifício de Espanha (Bairro do Rego) 1600-196 Lisboa 06 MAI - 17 JUN 2023
No movimento do olhar, repensamos a perceção estética da obra de arte contemporânea nas suas múltiplas possibilidades do campo de visão. Ao deambular pela “Terra — ou os quarenta e nove degraus” de Miguel Branco, título inspirado na obra do autor Roberto Calasso, o espectador estabelece uma nova conexão entre o corpo, o espaço e a obra de arte. Ficamos suspensos no espaço, sem tempo. Abarca-se o sentimento, a tragédia, a morte e a ironia. Do pequeno ao grande formato, da cor ao negro, o espectador vagueia entre as obras e descobre o pequeníssimo. Contemplamos o detalhe, a minúcia e a suspensão da forma, da ideia e do tempo, reencontramos a ironia. O observador deslinda a subtil suspensão que contempla. A forma-pequena que rasga o espaço como um interregno estético entre o sublime e a tragédia, e a ironia que desponta a essência no detalhe, eliminando o supérfluo, aparentemente, trágico e indefinido. Em cada obra, em cada sala, o artista apresenta uma outra dimensão - a da estranheza. A sensação teatral de induzir a experiência do olhar convoca ao espectador o sentimento de desolação do absurdo contemporâneo. Entrançam-se labirintos do olhar, múltiplos espectros de referências, em que Miguel Branco joga com um paradoxo quase intimista do que se entende de pintura contemporânea numa era negra zelada pelo absurdo, a vigilância, a guerra, a destruição do ser humano e do mundo natural.
Miguel Branco, Untitled (Naked Lunch). © Miguel Branco
A narração translada em pequenos apontamentos, enfatiza-se a palavra, a imagem, renunciando, assim, a não-diálogos que fluem livremente no espaço, saltando de um tema para o outro, em que emergem através de gestos pictóricos, dilacera o espaço com longos silêncios. Por sua vez, as obras requerem um olhar de um conhecedor de arte, que saiba parar, olhar, ver e sentir, contemplar cada uma, e observar cada pormenor para percecionar os diversos mecanismos de visibilidade e de invisibilidade de uma obra de arte, captando, desta forma, os mistérios do ver. Ao debruçarmos atentamente para cada uma delas, tornamos visível o invisível, sentimos a história e a não-história, o tempo infinito e o perpétuo recomeço da pintura da História da Arte Ocidental. Assim, estabelece-se na fissura da tradição estética a obra de arte, enquanto lugar. Um lugar, onde brota o ser, o humano e não-humano, a condição humana e a natureza, o ser humano e o animal. O animal ecoa um passado, cuja linguagem nos remete para a tradição da pintura flamenga do século XVII e XVIII, através do contraste de luz e sombra, de claros-escuros, ou de cor e não-cor, que, por sua vez, quebra com ela mesma através do silêncio da contemporaneidade. Uma sensação de suspensão de tempo, que se translada através da ironia. Nesta série intitulada Terra, o artista mergulha na essência da condição humana. Os macacos ou os símios aludem ao mundo contemporâneo, porém, espelha a uma distante miragem do que se entende de Novo Mundo. Quase numa sátira social, observamos uma obra que nos desperta o olhar - Le Déjeuner sur l'herbe, em memória da obra (1863) de Edouard Manet. Assim, apreciamos as palavras de Bernardo Pinto de Almeida (2023):
(…) os personagens e as escalas são disfuncionais (a presença de símios e de macacos na cena em vez de seres humanos, a escala desmesurada de certos elementos vegetais), são referência a representações de abundância do período de grande expansão e conquista do Ocidente (séculos XVI e XVII), apresentados de forma distópica, num mundo de escassez de recursos. (Almeia, B. P. [2023]. Folha de Sala)
Através de devaneios, percecionamos uma outra visão, uma série de pequenas pinturas repletas de submarinos nucleares, drones e máquinas de vigilância, o espectador é confrontado com o desconforto do mundo atual, cujo olhar aponta para vestígios de imagens, estilhaçando o silêncio através de uma aparente divergência discursos estéticos numa intuita retórica de sinais de ruína. Este entrelaçamento de discursos sobre a condição humana numa era tecno-digital, em detrimento do mundo natural, o artista apresenta formas alegóricas conceptuais, através de uma série de borboletas azuis intituladas de Atlas. Elas não se apresentam como fragmentos de um atlas geográfico nem a uma alusão a lugares planetários, mas estranhamente a uma coleção de diversas borboletas azuis, cuja repetição difere na forma, no tamanho e em detalhes, emanando luz e transparência. Numa vertigem alegórica à tragédia, ou “a monstros prodigiosos, anjos, (...) máquinas de guerra, animais” (Almeida [2023]), contemplamos o sublime.
© Miguel Branco
O espectador, suspenso por sinais distribuídos no espaço, depara-se com esqueletos humanos e não humanos, sátiras e delírios humanos. Sinais dos quais exprimem a ameaça e a ruína da constante da destruição, onde se desagrega a fragilidade da condição humana e do outro mundo, a da natureza. Numa amarga sensação de sátira e da alienação humana, o artista cria a perturbação no espaço. Num diálogo que ressoa a um monólogo absurdo, lembra-nos a “Dias Felizes” (1960) de Samuel Beckett. Sentimos um estremecer de uma “não-comunicação” instigada por uma era esquizofrénica. A obra de Miguel Branco vibra num tom irónico à barbárie humana. Acorda, assim, o público de uma espécie de anestesia, trepidando crenças fundadas em alicerces cegos e vazios, providos de falsos valores e carregados de loucura e nonsense.
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