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EXPOSIÇÕES ATUAIS


© José Paulo Santos / Universidade do Porto.


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COLECTIVA

INSECTÁRIO – CONSIDERAÇÕES ARTÍSTICAS




GALERIA DA BIODIVERSIDADE – CENTRO CIÊNCIA VIVA
Rua do Campo Alegre 1191
4150-181 Porto

08 MAI - 08 JUL 2023


 


“É difícil. Isto de começar num monturo, e só parar na crista dum castanheiro, tem que se lhe diga. É preciso percorrer um longo caminho. Embrião, larva, crisálida… Todas as estações do íngreme calvário da organização. Animada pelo sopro da vida, a matéria necessita do calor dum ventre. Antes dessa íntima comunhão, desse limbo purificador, não poderá ter forma definitiva. Custa. Mas a lei natural é inexorável. Exige consciência de cosmos antes da consciência de ser. O calor dá no ovo. Aquece-o e amadurece-o. A casca quebra. Depois… Ah, depois é essa descida ao húmus, essa existência amorfa, nem germe, nem bicho, nem coisa configurada. Largos dias assim. Até que finalmente em cada esperança de perna nasce uma perna, e cada ânsia de claridade é premiada com dois olhos iluminados. Cresce também uma boca onde a fome a reclama, e surgem as asas que o sonho deseja…”

Excerto do conto “Cega-Rega” de Miguel Torga

 

 

Seres milenares, estima-se que os insetos habitem a Terra, aproximadamente, há 480 milhões de anos. Segundo José Manuel Grosso-Silva, curador da coleção de entomologia do Museu de História Natural e da Ciência da Universidade do Porto (MHNC – UP) conhece-se, na atualidade, mais de um milhão de espécies de insetos, mas provavelmente existe o quádruplo dessas. [1] Diversos nas suas formas, estéticas e funções, a importância dos insetos para o desenvolvimento e equilíbrio dos ecossistemas terrestres é inquestionável. No entanto, na esfera biopsicossocial antropocêntrica, as considerações, perspetivas e usos face a estes pequenos seres são multiformes e, por vezes, complexas/os. Muitos insetos são considerados catalisadores da vida uma vez que auxiliam, através da polinização, a produção de frutas, vegetais e flores, enquanto outros são sorvedores da morte e da putrefação, decompondo a matéria orgânica. Uns combatem pragas, outros são considerados como tal. Insetos como as abelhas produzem alimento como o mel e substâncias como a cera utilizada, por exemplo, para fins cosméticos. Outros servem a indústria têxtil através da sericicultura, ou seja, a cultura da amoreira e dos bichos-da-seda para a produção de fios de seda. E durante séculos, até à produção de tintas industriais em meados do século XIX, os insetos cochonilha serviram de pigmento para os vermelhos vívidos das pinturas de Caravaggio, Renoir, Van Gogh, Paul Gauguin, entre outros. Por vezes surgem em forma de prosopopeia, advertindo-nos para questões morais, sociais e psicológicas, nas histórias infantis (p.ex. o Grilo Falante da história “Pinóquio” de Carlo Collodi), nas fábulas como as de Jean de La Fontaine (“A cigarra e a Formiga”) e noutras formas literárias como “A Metamorfose” de Franz Kafka, uma história surrealista e metafórica sobre a condição psiquiátrica de um homem, Gregor Samsa, que acorda de “sonhos intranquilos” metamorfoseando-se “num inseto monstruoso”. Outras considerações religiosas, mitológicas e místicas podiam ser apontadas, assim como outras funções e usos provenientes destes pequenos e admiráveis seres. Importa, no entanto, vincar o seu papel fulcral na manutenção da vida, e como o seu declínio populacional deve gerar preocupações e fomentar ações no sentido de combater e minimizar este flagelo. Afirmam os cientistas da NASA (National Aeronautics and Space Administration) que a manutenção da diversidade de insetos é essencial para a segurança alimentar, a purificação do ar e da água e para milhões de empregos ligados à agricultura. Num estudo realizado a partir de uma amostra de insetos de sangue-frio, concluíram que 25 das 38 espécies estudadas, ou seja 65%, podem enfrentar um risco de extinção aumentado no próximo século, devido a oscilações dramáticas e erráticas de temperatura nos seus habitats, representando um impacto negativo na diversidade biológica.[2]

A consciência ambiental e o dilacerar de estereótipos negativos serviram de substrato para a exposição “Insectário – Considerações artísticas” realizada na Galeria da Biodiversidade – Centro Ciência Viva do MHNC-UP, no âmbito da 5.ª Bienal Internacional de Arte Gaia 2023 | Bienal de Causas, com curadoria de Fátima Vieira, e na qual “as obras expostas afirmam-se como perspetivas e interrogações sobre formas de preservação destes verdadeiros escultores da beleza, complexidade e diversidade das paisagens, dos quais depende a saúde humana e do nosso planeta.”[3] O desenvolvimento de projetos de articulação arte-ciência, por parte da Galeria da Biodiversidade, apologiza a sua filosofia de museologia total e proporciona outras configurações de apresentação do conhecimento científico. Na exposição “Insectário – Considerações Artísticas” houve a sensibilidade de estabelecer, de forma profícua, contacto entre os artistas e o curador de entomologia, para que a produção artística resultasse do diálogo entre duas áreas distintas. Desta forma, a curadoria artística, como prática de mediação, elaborou narrativas apelativas através da heterogeneidade de meios de produção artística, para comunicar ciência e, neste caso em particular, plasmar no espaço expositivo hodiernidades ecológicas e as suas vulnerabilidades. E comprometeu-se como uma atividade profissional que “(…) molda a visão de mundo, a experiência de mundo e a 'sensação de mundo'/consciência. Tal prática deve ser capaz de configurar o projeto curatorial como uma situação social, pesquisa ou experimento que se infiltra nos afetos, emoções e mentes do público de arte.” [4] São sete os artistas que compõem a exposição “Insectário – Considerações artísticas” e cujas obras se encontram dispostas ao longo de quatro salas contíguas. O painel de Maria Beatitude, “Acobertados por entre a folhagem” (2023), abre as hostes. A artista opta por uma paleta cromática que segue um jogo de antinomia, por um lado, através das cores fluorescentes e dos tons pastel e, por outro, nos traçados a preto e branco. É a figura humana que tem de ser descoberta entre a folhagem, assim como palavras, frases, indicações. Os insetos surgem em destaque, numa escala ampliada, para que sejamos confrontados com a sua importância para a manutenção da vida e que, não raras vezes, esquecemos e descuramos. Segue-se a instalação “Presos Ainda aos Atilhos do Avental das nossas Mães” (2023), do artista Robert Wiley, composta por uma malha metálica com a forma de avental, símbolo da domesticidade, e que aqui se apresenta descarnado de um corpo e da sua função, surgindo como suporte de lâmpadas transparentes feitas de vidro soprado que, destituídas do seu núcleo elétrico-condutor, se apresentam como habitáculo para insetos mortos. É no regaço da subversão e poetização de objetos familiares, que é tecida e representada “a vulnerabilidade da experiência animal e humana e a tragédia anunciada pelo carácter efémero de cada respiração.” [5] Muitos insetos são atraídos pela luz artificial e nela, esvoaçando freneticamente e desorientados em seu torno, encontram, num golpe de ironia, o seu último suspiro. Sucumbem à exaustão e às asas queimadas. A iluminação artificial pode também afetar a reprodução, uma vez que impede que machos e fêmeas se identifiquem e se reproduzam. Tal acontece com o Pirilampo-Pequeno-de-Lunetas (Lamprohiza Mulsantii) que recentemente foi identificado no Parque Biológico de Gaia. Este foi o mote da obra “Lamprohiza Mulsantii ou a Sobrevivência dos Vaga-Lumes” (2023) de Tomás Ribas. Em seis fotografias a preto e branco, distribuídas por duas caixas de luz, os faróis dos carros que passam pelas laterais do Parque Biológico são tidos como pirilampos poéticos, num close-up progressivo, desde a amplitude da rua até à abstração dos pontos de luz expandidos. Na continuação do percurso surge a obra de Graciela Machado que herdou um pano de cozinha onde vinham impressas as circunstâncias materiais e o quotidiano de uma família rural e, subliminarmente, o uso mais consciente dos bens materiais e dos recursos naturais. Concebeu “Pano Roto” (2023), uma instalação constituída por fotogravura sobre papel químico e matriz de zinco, na qual é possível discernir o traçado texturado do pano que se vê rompido pelo fogo, num “sentido de perda que não se consegue estancar”. [6] Como a desferida pela indústria têxtil que numa produção ultra massificada acompanha o consumismo megalómano. E seguimos (hipócritas) como espectros contemporâneos da Vénus de Pistoletto, “nus”, encarando as toneladas de roupas usadas amontoadas no deserto de Atacama, no Chile, e em países africanos como o Gana, e “sem nada” para vestir. A iminência da catástrofe soa retumbante, e ecoa pelas salas, no batuque de um instrumento que se mescla com o som emitido por diversos insetos. Estas sonoridades capturadas pela artista Catarina Rocha, na sua pesquisa de campo, acompanham a instalação “O ruído das minhas folhas é a minha linguagem” (2023). Troncos e galhos de árvores, assim como folhas de papel branco pejadas de manchas aquosas e abstratas de aguarela, em tonalidades de azuis, verdes e púrpuras, encontram-se pelo chão e albergam pequenas figuras de insetos, moldados pela artista. Está patente uma ligação entre a vida, pela necessidade da preservação da diversidade de ecossistemas, e a morte nas reminiscências da árvore que nos impele às já irreversíveis consequências da ação humana. Esta linha ténue entre vida e morte é igualmente plasmada na pintura “Equilíbrio” (2023) de Juan Ricardo Nordlinger. Debaixo de um céu esfarelado em pontos de luz, de diversas cores, três insetos “equilibristas” atravessam, periclitantes, um arame preso entre as cúpulas de dois edifícios. Norteia-os, ainda, a resiliência perante o assombro da fragilidade em que os colocamos devido à poluição, ao uso de pesticidas, à falta de água e ao aquecimento global, no sentido de manterem o equilíbrio dos ecossistemas e a sobrevivência de todos, incluindo a nossa. Por último, a artista Xiang Xinying completa esta exposição com três pinturas que, contextualmente, parecem inusitadas: “Homogeneização” na qual um rosto parece ter sido intervencionado com uma rinoplastia e “Cicatriz 2”, uma obra de duas telas, em que surge representada uma mamoplastia de aumento por meio de prótese de silicone e um torso dividido em volumetrias corporais distintas. A cirurgia cosmética tem repercussões nefastas para o ambiente e é parte da cultura de consumo que alimenta a padronização do corpo ideal e, consequentemente, a correção do inconforme, numa antítese de diversidade. Mesmo conscientes que as alterações climáticas são, também, provocadas por determinados comportamentos e padrões de consumo, somos resistentes em mudá-los. Jonathan Safron Foer, autor do livro “Salvar o planeta começa ao pequeno-almoço” (2019), explica porquê num capítulo que designou de… “Inacreditável”.


Sandra Silva
Licenciada em História da Arte pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto e mestre em Estudos Artísticos - variante Estudos Museológicos e Curatoriais, pela Faculdade de Belas-Artes da Universidade do Porto, com uma dissertação sobre a interligação entre arte e ciência. Dedica-se à investigação independente, com particular interesse pelos diversos temas da arte e curadoria contemporânea.


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[1] Grosso-Silva, J.M. [MHNC – UP]. (2023). Exposição Insectário – Considerações Artísticas [video]. Youtube.
[2] NASA (2022, novembro 9). Climate Change Can Put More Insects at Risk for Extinction. https://www.nasa.gov/feature/climate-change-can-put-more-insects-at-risk-for-extinction-0
[3] Vieira, F. (2023). Insectário – Considerações artísticas. [Excerto do texto de introdução à exposição]
[4] Linn, O. M., & Ostoić, S. (2019). Curatorial perspectives on contemporary art and science dealing with interspecies connections. Technoetic Arts: A Journal of Speculative Research, 17(1:2), p.80
[5] Santos, A. (2023, maio 5). "Insectário" convida a espreitar a vida dos insetos na Galeria da Biodiversidade.
[6] Excerto do texto que acompanha a obra na sala de exposições.

 



SANDRA SILVA