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E.M. DE MELO E CASTROO Caminho do LeveMUSEU DE SERRALVES - MUSEU DE ARTE CONTEMPORÂNEA Rua D. João de Castro, 210 4150-417 Porto 10 FEV - 25 ABR 2006 VÃdeografia“(…) passa do peso do átomo do papel e do átomo da tinta e até do peso dos instrumentos escreventes, digamos assim, para a virtualidade dos bits e a virtualidade dos pixels, ou seja, passamos da matéria para a energia (…).†E. M. de Melo e Castro Quando o nosso olhar, o olhar humano, através da técnica alcança o limite da matéria encontra a instabilidade — a instabilidade criada por energia génese da matéria. O que se vê deixa de ser o contorno da forma para passar a ser movimento, velocidade e transformação. Não serão estes os indicadores que definem melhor a dinâmica da criação na contemporaneidade? Pelo menos, desde que as novas tecnologias e os media se atravessam entre nós e o mundo onde a criação não pode ser mais definida como estática, esses indicadores mostram-nos outras realidades em simultâneo, como disse Melo e Castro “(...) eu delego numa máquina para alterar as condições da minha percepção.†O olhar cada vez mais nÃtido foca profundo o corpo, a natureza, o universo. A imagem já não é só o jogo entre espelhos, é também o que está para lá desse jogo: a informação do ADN, a energia das partÃculas elementares, as galáxias para além das galáxias. Depois de duas ou mais visitas à exposição de E. M. de Melo e Castro, patente no Museu de Arte Contemporânea de Serralves, não consegui prescindir do seu trabalho como escolha para realizar o presente texto. Nascido na Covilhã em 1932, afirmou-se como artista e teórico da poesia experimental, concreta e visual, nos anos 60 e 70, direccionado para as ligações entre a arte e a tecnologia. O antecedente profissional em engenharia têxtil marca o encontro com a mecanização e o princÃpio da automatização na produção. A intenção não é descrever integralmente o trabalho de Melo e Castro, mas antes detectar uma ou mais entrelinhas que mantêm essa integridade, como, de facto, a exposição mostra. VÃdeografia parece querer dizer uma forma de escrita que já não é a mesma, diferente da escrita caligráfica ou de raiz gutenberguiana mas, como termo, pode também ser relativo à quela imagem que se extrai do mundo, da realidade, e mais uma vez do corpo através dos aparelhos imagiológicos. Se nos desviarmos do sentido deste texto, ou seja, se entrarmos no processo difÃcil e esquecermos por um momento o sentido das palavras, ao desfocar a retina conseguimos ver a mancha de texto negra sobre o fundo. Ao focarmos de novo, o texto passa a caracteres sobre suporte. A escrita, a mancha no papel quando se imprime. Os caracteres pontos concretos. Aproxime o olhar do ecrã e repare no desenho de cada carácter. Palavra versos imagem. A palavra é elemento gerador de imagem e, em simultâneo, de significado. Teste o limite do olhar, entre pelos caracteres a dentro. O que estará para lá do ecrã? Nos videopoemas/fractopoemas de Melo e Castro, realizados nos anos de 2004 e 2005, aquilo que na palavra é significado, dissipa-se em plasma (“Plasma total†2004). Numa imagem, numa textura. “Gerador de Universos†(2005) inicia, num traço, linha escrita. Um traço que ocupa o nada, o preto. Mas esse nada parece apenas ser o espaço que o Gerador de Universos não alcançou e que lentamente ocupa, enviando as extremidades. A repetição desse traço numa ordem elÃptica, a ordem do caos, preenche o ecrã videográfico. Os traços cruzam e formam outros centros explosivos que continuam o movimento. Satura o ecrã, contamina o monitor, ocupa a parede e o chão, a cadeira, o meu corpo. O alcance não parece ter fim. Os fractais são elementos em profundidade, formas da constituição deste ecrã, da matéria em geral, da árvore, das nuvens, que só puderam ser estudados depois da chegada do computador e da consequente matemática fractal. Mesmo as coisas que nos escapam e que naturalmente residem no caos poderão ser, um dia, submetidas ao controlo. Estamos de momento a atingir a essência das coisas. Disse assim o autor: “(…) as transformações são genéticas; se a gente destrói um poema produz outro (…). E não tem fim, não tem absolutamente fim, porque o que pode vir a resultar desta transformação é o inesperado, é o desconhecido.†O que traz de relevante para a arte? A criatividade é uma instância em potência, mas não quer dizer que o processo de produção tenha que ser uma potência de fabricação. Não assento o trabalho artÃstico nos pilares da produção, mas antes a produção como uma consequência da responsabilização e consciencialização de um mundo hoje repleto de informação instantânea. As possibilidades da tecnologia são sedutoras e praticamente infinitas, o efeito não deverá ser um resultado a atingir. “Concepto Incerto†(1974), apresentado em desenhos reproduzidos em conjunto com um vÃdeo/entrevista de E. M. de Melo e Castro, formam um bloco irónico e paradoxal, no âmbito artÃstico e polÃtico da época. Este conjunto está decidido a apresentar o conflito entre paradigmas, precisamente aqueles subentendidos na frase de abertura deste texto: analógico/digital, arte/ciência, texto/hipertexto, moderno/pós-moderno, etc. Sem constrangimento, o artista representa no desenho o exacto ponto da controversa mudança na arte, no sistema óptico, na palavra e na ciência, assim como, a preparação da palavra sem sentido, da imagem sem contorno, da letra como desenho, da fractovisão, que coloca tanto a poesia como a imagem numa só imagem retirada da energia – flatten image. Não se trata apenas da busca incessante pela tecnologia, mas da procura da intimidade no medium; “(...) eu tanto escrevo um soneto, como faço um videopoema (…)â€. Fontes: Entrevista a E. M. de Melo e Castro por Maria Virgilia Frota Guariglia e Jorge Luiz Antonio, São Paulo, Maio de 2001. DisponÃvel em: www.uoc.edu/in3/hermeneia/sala_de_premsa/M_Virgilia_e_JLAntonio.pdf
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