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EXPOSIÇÕES ATUAIS


Allan McCollum, “216 Plaster Surrogatesâ€, 1987/88. Gesso pintado. Col. Fundação de Arte Contemporânea "la Caixa", Barcelona


Luc Tuymans, “Antichambre (Blauwe Kamer)â€, 1985. Óleo sobre tela. Col. Museum of Contemporary Art (MuHKA), Antwerp


José Pedro Croft, “Sem títuloâ€, 1988. Ferro. Colecção FLAD em depósito na Fundação de Serralves, Porto


René Daniëls, “Mr. Noordzeeâ€, 1984. Óleo sobre tela. Colecção Particular, Groningen

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ARQUIVO:


COLECTIVA

Anos 80: Uma Topologia




MUSEU DE SERRALVES - MUSEU DE ARTE CONTEMPORÂNEA
Rua D. João de Castro, 210
4150-417 Porto

10 NOV - 25 MAI 2007

O Espectáculo Ofende

“Contemporary mass-culture is historically necessary not merely as a result of the encompassment of life in its totality by monster enterprises, but as a consequence of what seems most utterly opposed to the standardization of consciousness predominant today, aesthetic subjectivism. True, the more artists have journeyed into the interior, the more they have learned to forgo the infantile fun of imitating external reality. But at the same time, by dint of reflecting on the psyche, they have found out more and more how to control themselves. The progress in technique that brought them ever greater freedom and independence of anything heterogeneous, has resulted in a kind of reification, technification of the inward as such. The more masterfully the artist expresses himself, the less he has to “be†what he expresses, and the more what he expresses, indeed the content of subjectivity itself, becomes a mere function of the production process…â€
Theodor Adorno, “Minima Moraliaâ€, Part Three, 1946 - 1947

“A necessidade de fazer uma nova abordagem à arte dos anos 80 levou o Museu de Serralves a organizar a maior exposição jamais apresentada sobre o tema e uma das maiores produzidas pelo Museu.â€
in Serralves, nº 13 Nov/Jan 2007 (folheto publicado pelo MACS)



250 obras, 70 artistas, 4000 metros quadrados de área expositiva, é (mesmo) assim anunciada, num spot televisivo, a exposição-catálogo “ANOS 80: Uma Topologiaâ€, comissariada por Ulrich Loock e patente no MACS desde o último dia 10 de Novembro. Para o visitante desprevenido a primeira estranheza é a perspectiva de um universo histórico alternativo, uns anos oitenta onde a SIDA, Margaret Thatcher e Ronald Reagan são rumores pouco perceptíveis e onde eram praticamente indiscerníveis os sinais de desgaste vindos dos países do pacto de Varsóvia enquanto a URSS se afundava no Afeganistão.

A exposição é construída em torno da ideia de uma História alternativa, de uma narrativa do que aconteceu sem ter acontecido, porque não foi propagada por um discurso crítico que, nos anos oitenta esteve, como nunca antes, ligado ao poder económico. Aceitando que a imagem que nos é oferecida pelas principais correntes de interpretação histórica, seja distorcida e afunilada, seja o produto de uma indústria espectacular e capitalista que teve nessa mesma década a confirmação do seu poder, e acreditava então na inevitabilidade da sua imposição à totalidade do globo, como o asseverou Francis Fukuyama em “The End of History and The Last Man†(1992). Ainda que se defenda, bem, com a ideia da topologia, de uma análise referente à posição, grupo e lugar e tenha o mérito de reabilitar o conceito de periferias numa época em que o discurso da autoridade, por via da negação, as produzia em profusão no extremo da realidade de Wall Street e do fenómeno yuppie, o conjunto de “ANOS 80: Uma Topologia†encontra-se numa posição muito delicada entre revisão e revisionismo.

Que os anos 80 tenham sido um equívoco, como talvez o prove a recente abjuração de Fukuyama e a sua ruptura com os neo-conservadores norte-americanos, que tenha havido sempre quem, longe da tentação das “grandes narrativasâ€, tenha feito um caminho, tanto na produção artística como no pensamento político, próximo do eixo Adorno – Lyotard que parece pautar a exposição que agora se apresenta em Serralves e que, finalmente, hoje esse modelo de produção se considere mais aceitável e tenha conseguido alcançar uma posição de um certo favoritismo tanto na crítica como no mercado; ainda assim os 80, naquilo que são as suas consequências, aconteceram de uma forma diversa. Sente-se que o lugar predominante nesta exposição é o lugar de hoje, são óbvios a influência e o encadeamento entre os trabalhos expostos no MACS e a arte do princípio deste século, mas é muito arrojada a ideia de descontinuar a produção dos 80 que foi e (até agora é) mais visível. Pode entender-se que se trata aqui uma visão topológica de um sistema de produção e, como tal, obrigatoriamente muito particular e fragmentada, mas encontrar este conjunto de obras sob o peso do título de uma década tão fresca na nossa memória faz com que, muito facilmente, este esforço seja percebido como a substituição de uma realidade por outra.

Entende-se que, perante a constatação do erro, seja positivo reabilitar quem o contestou e a ele resistiu, mas esta Topologia dos 80 entra em contradição com esta proposta, quer pelo modelo de exposição pelo qual se optou, porque a sobreocupação do museu colide com o carácter introspectivo e íntimo de muitos trabalhos, quer pela soberba da linguagem (e da contabilidade) utilizada para publicitar o evento. Tudo isto contraria o discurso de suposta alternativa à falsa “produção de segurança†que caracterizou a década. Sente-se que a exposição, para se anunciar, utilizou precisamente o material daquilo que desdenha e, pelo menos isso, é motivo de perplexidade.

Esta exposição é, acima de tudo, uma exposição de hoje e que reflecte uma produção artística que soube fazer um caminho desde o fim dos anos 70 até aqui apesar de algum desprezo a que foi votada, mas os “outros†anos 80 estão ainda muito próximos, em muitos campos vivemos simplesmente a sua continuidade, a Guerra do Golfo começou em 1990, encadeada com o fim da Guerra Fria e a retirada Soviética do Afeganistão. O Mundo ainda vive suspenso dela. Talvez seja esta uma das razões porque é agora mais compreensível considerar as certezas de há vinte anos como grosseiras e abusivas, mas o espectáculo ofende quando provoca esquecimento e se enrola nas suas contradições. É positivo que se ensaie uma mudança de discurso, mas não convém que com esse objectivo se apaguem os seus precedentes.


José Roseira