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COLECTIVAHysteria SiberianaCRISTINA GUERRA CONTEMPORARY ART Rua Santo António à Estrela, 33 1350-291 Lisboa 16 NOV - 06 JAN 2007 “Hysteria Siberiana†é o tÃtulo da exposição colectiva comissariada por Marc-Olivier Wahler que até 6 de Janeiro estará patente na Galeria Cristina Guerra. O mediático tÃtulo proposto por Wahler evoca uma passagem de “South of the Border, West of the Sunâ€, do escritor japonês Haruki Murakami, segundo a qual, os camponeses siberianos sofreriam um efeito de exaustão e ruptura psicológicas, provocadas pela contÃnua exposição a um estilo de vida insuportavelmente repetitivo e fatigante, agravado pela visão incomensurável e entediante da planÃcie siberiana, onde o movimento do Sol constitui a única fonte de notÃcia sobre a passagem do tempo. “Hysteria Siberiana†traz um conjunto de artistas internacionais a Portugal, permitindo a Marc-Olivier Wahler (actual director do Palais de Tokyo), continuar uma linha de raciocÃnio curatorial que tem procurado (quer enquanto agente institucional quer enquanto comissário independente) a articulação e a transmissão de saberes distintos e a sensibilização do público para as formas mais emergentes da arte contemporânea. Para esta exposição, foi definida uma estratégia muito evidente de criação de pontos de contacto com outras áreas que não apenas as artÃsticas, adoptando-se uma lógica de interdisciplinaridade e de rede que remete todos os dez trabalhos apresentados para cruzamentos com outras tantas áreas distintas de saber, como as que as podem representar Aldous Huxley ou William Burroughs, Erik Satie, o mágico renascentista John Dee, ou ainda o artista Kurt Schwitters, o lÃder da seita canadense Raël ou os cientistas Konstantine Raudive, entre outros. Uma visita mais demorada à galeria desencadeará certamente o infindável dispositivo de causa/ efeito das múltiplas associações que cada um, de si próprio conseguir libertar. E assim, as lentes de contacto usadas com que Norma Jean enuncia um registo da memória visual de todo um ano da vida do seu utilizador; os cumes das montanhas rebaixadas de Luca Francesconi; as propostas de experiências sonoras de Loris Greaud e Karl Holmqvist ou a perpetuação de ervas daninhas de Tony Matelli, constituem sucessivos e renovados enunciados ou simples exaltação de um estado de alucinação, nem sempre em harmonia com a nossa descodificação do tÃtulo de uma exposição, onde ainda podem ser vistas as transcrições gráficas que Philippe Decrauzat realizou a partir de experiências de estimulação óptica; bem como um vÃdeo sobre a seita Raël, de Gianni Motti; uma instalação de Pierre Vadi; ou os trabalhos de Joachim Koester ou Dave Allen. Nada, porém, neste projecto, nos remete para uma forma de aproximação especÃfica à experiência siberiana que Murakami descreve. “Hysteria Siberiana†celebra, se é que assim se pode dizer, uma cumplicidade por formas de delÃrio cativo. Ora, essa será precisamente a caracterÃstica que, na literatura, tem feito correr tinta desde sempre. Os inverosÃmeis monstros marinhos (bem como a mÃtica sereia, perdição dos marinheiros europeus dos Descobrimentos) não são mais do que uma outra abordagem do mesmo horizonte inatingÃvel de Murakami. Desidratado, febril, também o efeito da miragem do oásis, no deserto, e os navios-fantasma, no oceano, desencadeiam o esgotamento irracional das últimas e débeis energias do homem errante, impotente face à Natureza, mas responsável pelo destino que o próprio, obstinado, deixou afunilar. Melville, Defoe ou Garcia Marquez (por mar), Bowles ou Dostoievski (por terra); fixariam o mesmo horizonte de Marc-Olivier Wahler; Não pela partilha das categorias do delÃrio (“Hysteria…â€), mas pelo que de imaginário e fantasmagórico ele proporciona. Muito no limite do que é ou pode deixar de ser humano. Muito tentador por essa mesma razão.
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