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EXPOSIÇÕES ATUAIS


Álvaro Lapa, "Campéstico (com muro vermelho)", 2004-2005. Acrílico s/ tela. 116 x 160 cm


Álvaro Lapa, “O Caderno de Freud”, 1976. Assemblage s/ platex. 49 x 103 cm.

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ARQUIVO:


ÁLVARO LAPA

Obras-Com-Palavras / Paisagísticas




MUSEU DA CIDADE
Campo Grande, 245
1700-091 Lisboa

25 NOV - 28 JAN 2007

Obras com palavras e imagens

Desaparecido no início deste ano, Álvaro Lapa teve uma vida relativamente recolhida, entre a poesia e a pintura, assumindo desde cedo uma atitude isolada e autodidacta. “Do que eu vivo é da recusa”, afirmou em 1971.

Desde de 1964, ano da sua primeira exposição individual na Galeria 111 (Lisboa), Álvaro Lapa viria a realizar, com persistente continuidade, uma espécie de gestão enigmática das formas, a partir de um oblíquo sistemas de signos, recusando qualquer equilíbrio ou habilidade estética, que funciona sobretudo como personalizado e polémico código de escrita. Esse código obriga-nos, por sua vez, a ponderar o fascínio das formas dissemelhantes e contíguas, onde o informe, à maneira de Artaud e Bataille, alude a eventuais filiações na pintura abstracto-expressionista tanto europeia como norte-americana – sobretudo Robert Motherwell – e no surrealismo europeu, nomeadamente na tensão narrativa que a desconstrução formal deixa em aberto, como possibilidade de significação. Estratégia evidente, por exemplo, na longa série de pinturas intituladas “As Profecias de Abdul Varetti” (1973), personagem que se assume como espécie de alter-ego do artista, em que um profundo sentimento de resistência e solidariedade espiritual se apresenta como sinuoso percurso de vital sobrevivência.

A autonomia dos valores plásticos desta pintura é contrabalançada com a marca indelével da referência autobiográfica a leituras e influências literárias que conduziram, entre outras séries pictóricas, à notável série dos “cadernos”, reportados a um conjunto de escritores que constituem, por assim dizer, a biblioteca subversiva de Álvaro Lapa: Rimbaud, Kafka, Henry Miller, James Joyce, William Burroughs, Sade, Michaux, entre outros. Aliás, a técnica do “cut-up” cara aos escritores da “Beat Generation” (em particular a Burroughs) terá nesta pintura uma influência fecunda no modo como fragmenta ou inviabiliza qualquer possibilidade de leitura semiótica definitiva ou mesmo estabilizada.

Álvaro Lapa é herdeiro de uma poética de intransigente subversão, em que a transgressão dos valores e das maneiras mais tradicionais de expressão plástica se realiza fundamentalmente em aliança com uma absoluta insurreição das palavras. A recusa das evidências e das convenções de legibilidade não é nunca um exercício teórico de análise conceptual, mas antes a demanda de uma espécie de autenticidade interior que ajuda a formar um idioma próprio, marcado pelo ritmo da intimidade, a pulsão silenciosa, na assunção de uma dialéctica pessoal mantida entre a luz e a obscuridade do sentido verbal e visual da sua prática artística.

Neste sentido, a pintura de Álvaro Lapa pode ser situada, exteriormente, no quadro histórico de uma avaliação subversiva da tradição da pintura, cúmplice das escritas clandestinas, ou intimamente, como diário de um universo preso à verdadeira idiossincrasia de um universo pessoal. Aliás, esse regime de transfusão é particularmente salientado pelo comissariado de João Pinharanda, quando propõe na presente mostra do Museu da Cidade, duas perspectivas sobre a obra do autor, entre as “Obras-com-Palavras” (Pavilhão Preto) e as “Paisagísticas” (Pavilhão Branco).

Porém, ao autonomizar-se como sistema de formas, a obra de Álvaro Lapa adquire a arbitrariedade inerente a todos os sistemas de significação e deixa-nos a nós o trabalho de decifração ou desocultação do sentido, tarefa que constitui o seu maior desafio e fascínio, muito para além do resultado estético-formal daquilo que é produzido enquanto imagem. Não podemos esquecer que esta é uma pintura que se realiza fundamentalmente contra o exercício anódino e peripatético da prática pictórica mais convencional.


David Santos