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FRANCISCO TROPAA Marca do SeioCULTURGEST (PORTO) EdifÃcio Caixa Geral de Depósitos Avenida dos Aliados, 104 4000-065 Porto 28 OUT - 20 JAN 2007 Durante as escavações de Pompeia foram encontrados corpos e negativos de corpos fixos pela cinza e lava do vulcão Vesúvio. A marca de um seio foi encontrada entre muitas outras. A combinação entre o tempo instantâneo que carbonizou aqueles corpos há mais de dois mil anos e, a marca negativa ou positiva, que constituem em simultâneo uma memória residual capaz de fazer chegar uma civilização até nós, estabelece, antes de qualquer análise mais profunda, uma relação similar com o advento fotográfico. Neste caso não terÃamos a imagem impressa, mas as pessoas-esculturas. Nem a pelÃcula negativo, mas as marcas reais que os corpos deixaram em baixo relevo no espaço, nas arquitecturas. “A Marca do Seioâ€, trabalho que Francisco Tropa ensaia na sala da Culturgest do Porto, inicia na consciência dessa memória residual e na necessidade de a fixar no tempo. Um cenário, ou uma escultura, estão permanentemente preparados para receber um acontecimento que se realiza numa performance de aproximadamente quarenta minutos. O que lá está sempre tem um aspecto complexo e heteróclito, cheio de detalhes que se requer ver: muros que fazem uma esquina, no interior penumbra preenchida de cal e o exterior de tijolos, dedos erectos presos por fios, uma plataforma em bronze irregular, pano preto, lente e rede, troncos de madeira, um projector de pelÃcula de 16mm, uma cerca alta feita de madeira e frinchas propositadas, mas cobertas por um layer vermelho transparente, fios, luz, etc. Os elementos escultóricos agrupam-se, compostos formam uma arquitectura, numa topologia própria de Tropa, um palco que se virá a completar. Seguramente a encenação manifesta um modo divino e um modo animal, imagens e objectos, almas e corpos. A acção estende três pontos de força — os dedos erectos pendurados por fios do lado direito, do lado esquerdo uma zona composta por vários elementos como a plataforma de bronze, focos de luz, o muro caiado, a lente e os troncos de madeira que seguram o pano preto e, por último, o sÃtio dedicado à projecção dos filmes. Neste triângulo aparece a imagem projectada de um homem sem rosto, um homem-corpo, que enterra cuidadosamente as partes de um esqueleto semelhante ao seu, situação fúnebre, guarda do “eu†e da morte. De seguida inicia outro filme de uma mão quieta que segura um caracol viril e irrequieto, de repente atento à mulher que despe e pousa a roupa nos dedos erectos, agora cabides. Essa mulher veste ganga e All Stars, mas nua, sobe o degrau da plataforma de bronze. Coloca-se. E projecta o seu seio inverso na parede de cal. Vénus. É inesperada esta metamorfose erógena. Mas, até aqui só se descreve. As referências neste trabalho são muitas e provenientes de muitos tempos e histórias. Desde a antiguidade clássica, ao inÃcio do mecanismo de projecção visual, passando por temas como a erótica ocidental. Assim dispostas derrapam qualquer tentativa de construção de uma narrativa linear, qualquer matriz de ordem cartesiana. De facto, este texto, será apenas uma perspectiva de quem assistiu à peça escultórica e ao acontecimento, e neste procurou um ponto de “olhar exclusivo†desobedecendo ao diagrama que o artista sintetizou. Francisco Tropa assinalou ironicamente um “ponto de observação idealâ€, quase um “observatório†para o espectador — o lugar de onde se via tudo, precisamente aquele por trás da paliçada, entre frinchas, um lugar quase de voyeur. A visita é pois necessária quando o mecanismo está desactivado, para lá da marca do seio escondem-se outras marcas pormenorizadas: a plataforma de bronze parece ter vestÃgios de garras. Julgo haver neste trabalho, para além de um domÃnio da matéria e da composição das memórias residuais, uma sensibilidade técnica da experiência que acciona e espera a performance. A experiência fotográfica, a experiência mecanicista da visualidade, a experiência da projecção imagética, é aqui exponencialmente emancipada na sua elementaridade. A ligação sensÃvel situa o convÃvio entre a materialidade e a imagem.
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