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ARMANDO FERRAZUm Atelier MínimoGALERIA GRAÇA BRANDÃO (PORTO) Rua Miguel Bombarda, 410 A 4050-382 Porto 13 JAN - 17 FEV 2007 A Trivialidade do CaosA mitologia grega imaginou que, no princípio, era o caos. Essa confusão inicial, uma vez ordenada, se transforma em cosmos. Na verdade, só um povo amante da ordem, da harmonia, embora sensível a tudo o que pudesse perturbá-la, poderia ter concebido a ideia de “caos”, não apenas como ameaça no coração do cosmos, mas como condição de toda a ordem. Em suma, o caos como exorcismo. Eduardo Lourenço A casa está um caos, tudo o que existia mais estes trabalhos: escultura de poliuretano na mesa da cozinha, a maqueta no chão da sala, fotografias espalhadas, etc. E gosto destes objectos assim, ao lado e por cima de todos os outros. Gosto do confronto, do conflito, da indescernibilidade também. Uns falam sobre os outros e todos podem ter alguma importância ou importância absolutamente nenhuma, (...) Armando Ferraz Relativamente há pouco tempo, durante a projecção de um filme numa sala de cinema do Porto, acabou por entrar tarde e sorrateiramente uma pessoa, mais ou menos descontrolada, que resolveu comportar-se à vontade. Riu alto, comentou o filme e riu. Respondeu a uma imagem de mulher nua, etc. Alguns dos presentes protestaram fazendo o “chiu” repetidas vezes, mas outros reagiram agressivamente, conseguindo fazer maior distúrbio. Conduzidos por este último factor, os seguranças tentaram retirar imediatamente a pessoa da plateia, sem sucesso. A cultura tem definidos os seus modos comportamentais, quem os desobedecer padece de ser profundamente marginalizado, tanto quanto um louco na rua. A proeminência do caos nestas ordens, apropriando as palavras de Eduardo Lourenço, acaba por ter uma força e carga de irracionalidade, espontaneamente negativa e inaceitável. Da exposição de Armando Ferraz focamos momentos onde o avesso e o estado de caos se tornam trivialidades absolutas. Ou seja, o ponto onde a ameaça é bem vinda, se não intencionada, em vez de ser uma situação que provoque a intolerância. Sabemos que a representação da realidade foi exercida através da racionalidade, e com tudo que de racional acabou por ser nomeado; mas, e se a realidade nos apresentar exaustivamente caótica? E se a representação não esquecer os restos que ficam numa mesa depois de uma conversa, ou a cinza nos cinzeiros, ou o lugar arquitectónico da passagem do cão? Ou ainda, não esquecer a forma propositadamente irregular que a escultura de poliuretano vai sobrepondo aos objectos quotidianos. Armando Ferraz fotografa o caos sem a recorrência ao imediato, atendendo que, por vezes, a imagem caótica esclarece o fascínio pelo efeito deslumbrante. Neste caso os objectos são fotografados com o mesmo grau de deposição do olhar, resgatando um termo de Vítor da Silva, incluindo a anormalidade escultural. Da simplicidade do caos, e não da sua performance esplêndida e dita complexa. Aquela que se descobre e provoca ali mesmo. Neste sentido é preciso fazer ver e olhar uma experiência inversa, não a da poética, dado que a desordem padece de ser considerada uma condição global/generalista. Esta exposição faz isso rebatendo a possibilidade do debate caos/ordem, mas fica pela sensação de que estes se tocam, e esquece que, por vezes, o caos se entranha e desenvolve carreiras de desvios. O passeio invertido, imagem do flyer da exposição, é mais um apontamento da tangente entre um verso/inverso. Do olhar que detecta, depõe, e talvez prefira, uma qualidade avessa. A exposição acaba por ficar na definição do conflito entre fronteiras que descrevem o lugar de uma realidade objectual deposta desordenadamente, e o lugar de um corpo que aleatoriamente depõe. Digamos que existe uma objectividade do caótico de repente ocupada pela irracionalidade da matéria incerta. A exposição também aborda uma hipotética relação entre a escultura, o espaço e a fotografia. Ou se quisermos, o olhar da escultura e o olhar da fotografia, ambos reflectindo a fronteira e essa necessidade avessa. Mas, centrando o argumento, não se pode deixar de pensar que a maior dificuldade deste trabalho terá sido a (des)territorialidade do caos — da casa, da escultura, do mundo (dado que a ciência nos ensinou o entendimento da escala, no qual o mínimo se reverte no máximo)— para o espaço limpo da galeria. Não se concluí que tudo aquilo ali deposto são os restos de uma mise en scène, do atelier mínimo, que funcionam como provas para uma espécie de museu científico. Ou se, nessa passagem se perdeu, de facto, o conflito, o inverso e o avesso, abdicando do caos. O artista detecta essa dificuldade, mesmo assim decidiu optar por deslocar as peças para a galeria, com o intuito, pensamos, de tornar a refazer o exercício de deposição. Um exercício que por um lado resulta pela sua forma objectiva, mas que acaba por conformar o sopro antagónico do caos. Nestas premissas a construção espacial não normativa das arquitecturas de Thomas Hirschhorn, ou mesmo das armadilhas e derrapagens de Fernanda Gomes, conseguem retirar a trivialidade que se refere ao caos. Por outro lado, a exposição é sedutora na sua simplicidade e franqueza. Na sua humildade e sinceridade, mostrando que supostamente a galeria não seria o espaço mais adequado, a não ser que a exposição reflicta o tal exercício de deposição. E aí justificar-se-ia numa dialéctica que reenvia para um princípio do advento fotográfico — o mise en abyme. O exercício de pensar o olhar como uma deposição, a realidade já aparecendo deposta, e por fim, a exposição como um enquadramento de todo esse pensar que espelha um outro exercício deposto. Pois não podemos acreditar que a desordem deixou de ser adversa.
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