Links

EXPOSIÇÕES ATUAIS


Mariana Viegas, “S/título, Monument Valley National Parkâ€, 2005/06


Mariana Viegas, “S/títuloâ€, Napa Valleyâ€, 2005/06


Mariana Viegas, “S/título, Bear Mountain State Parkâ€, 2005/06


Mariana Viegas, “S/título, The man in the centerâ€, 2005/06


Vista geral da exposição


Mariana Viegas, “S/título, Brooklynâ€, 2005/06. Pormenor da instalação

Outras exposições actuais:

COLECTIVA

1º CICLO EXPOSITIVO 2026


Museu Arpad Szenes - Vieira da Silva, Lisboa
CATARINA REAL

SUSANA PILAR

NOT ALONE


Galleria Continua (Paris - Marais), Paris
FILIPA BOSSUET

JOSÉ MAÇÃS DE CARVALHO

21 MINUTES POUR UNE IMAGE


CAPC - Círculo de Artes Plásticas - Sede, Coimbra
CONSTANÇA BABO

WILFRID ALMENDRA

HARVEST


Galeria Municipal de Arte de Almada, Almada
CARLA CARBONE

RITA MAGALHÃES

FACE A FACE – RITA MAGALHÃES E A NATUREZA-MORTA NA COLEÇÃO DO MNSR


Museu Nacional de Soares dos Reis, Porto
MARC LENOT

SUSANA ROCHA

LEAKING BODIES


Plato (Porto), Porto
SANDRA SILVA

ANDRÉ ROMÃO

INVERNO


Galeria Vera Cortês (Alvalade), Lisboa
MARIANA VARELA

PEDRO CASQUEIRO

DETOUR


MAAT, Lisboa
CARLA CARBONE

HUGO LEITE, ED FREITAS E THALES LUZ

EU SOU AQUELE QUE ESTÃ LONGE


Espaço MIRA, Porto
LEONOR GUERREIRO QUEIROZ

ANNE IMHOF

FUN IST EIN STAHLBAD


Museu de Serralves - Museu de Arte Contemporânea, Porto
MAFALDA TEIXEIRA

ARQUIVO:


MARIANA VIEGAS

Fuga




VERA CORTÊS - ART AGENCY
Avenida 24 de Julho, 54, 1º Esq.
1200-868 Lisboa

13 JAN - 02 MAR 2007


Uma certa ideia do modo como a paisagem se nos apresenta, mediante a existência do elemento humano como agente transformador da Natureza, é o ponto de partida para Fuga, a recente mostra de trabalhos de Mariana Viegas que, até ao dia 2 de Março, poderá ser vista na galeria Vera Cortês. Trata-se de um conjunto de fotografias e projecções vídeo que prolongam reflexões acerca da percepção e do olhar que a artista tem desenvolvido em anteriores trabalhos, utilizando a paisagem como campo operativo de onde subtrai, fotografando, diversos elementos específicos de análise.

Fuga desenvolve-se a partir de uma reflexão sobre as condições em que uma imagem da Natureza nos impele para uma determinada categoria de juízo a propósito da acção humana e, nomeadamente, do nível de evidência que essa acção arrasta consigo, seja nos jardins, parques e outras zonas verdes desenhadas na integra com o objectivo de se harmonizarem numa lógica artificial e urbana, seja nos locais imersos em extensas paisagens, como as reservas naturais onde, sob determinadas condições de controlo, é ainda possível reproduzir a sensação de percorrer um território puro. E é numa das fotografias em exposição (“Monument Valley National Parkâ€) que se concentra essa experiência de duplicidade (de fuga), proporcionada a quem, procurando essa Natureza disfarçada de estado puro, acabará por alcançar um estado contemplativo interior genuíno, como se verdadeiramente contactasse com um local ainda intacto e não contaminado pelo Homem. A fotografia enquadra três indivíduos a percorrer uma planície a cavalo, vendo-se ao fundo Monument Valley, formação geológica celebrizada por inúmeros westerns de John Ford. A procura de uma experiência de fuga em plena e incorruptível Natureza está comprometida pela estrada de terra batida, contida na mesma imagem. Este incontornável deslizar, da procura incessante da “viagem primeiraâ€, para uma condição de involuntário turismo, repete-se e incorpora tendencialmente a totalidade da experiência física da paisagem contemporânea. Numa outra fotografia (“Redwoods National Parkâ€), uma floresta envolve os vestígios do que terá sido certamente uma árvore de grande porte. A evidência do corte da mesma por processos não naturais devolve-nos a reflexão sobre a condição de uma liberdade encarcerada e redutível a um sistema totalizante, que tudo abarca em si mesmo.

Fundamentalmente, importa perceber até que ponto pode ser uma imagem paisagística equacionada à margem da acção humana. A mediação de um enquadramento anula já a possibilidade de um olhar livre, mas é na constatação dessa imagem (representação fragmentada de um real) que ganha sentido o querer perceber as relações possíveis entre espaço e poder. Assim, e num contexto contemporâneo ocidental em que o tempo, porque é insuficiente, é supérfluo, o vector espaço conquista preponderância crescente enquanto unidade de pensamento. Os vídeos de Mariana Viegas, pressupondo o acrescento de tempo enquanto possibilidades narrativas, adensam também, e sempre, o peso de uma experiência diacrónica do lugar. O mundo configura-se enquanto estrutura de unidades de colocação e a concepção do espaço assume contornos funcionalistas e estruturais que se categorizam por efeito relacional com o elemento humano, e assim, para além dos espaços que são lugares de passagem, de paragem ou de repouso, também a paisagem aparentemente pura de uma vasta e virgem planície submergirá sob uma qualquer tipologia dos lugares de fuga cujo efeito de evasão interior se processe sob os mesmos pressupostos.

Esta cruel evidência realiza-se também no lugar de exposição. Um denominador comum a todas as obras objectiva-se numa tipologia específica de problema que se desenvolve sob o contexto humano, seja o do lugar (galeria) seja o do receptor (para quem a artista seleccionou as imagens). A impossibilidade de nomear um qualquer lugar não abrangido pela acção ou pensamento humanos (a nomeação abrangê-lo-á), coloca-nos perante um problema que é preciso ultrapassar. A artista convida-nos para esse tal exercício do pensamento, livre e clarificador dos dispositivos de mediação, enquanto plataforma de liberdade e de navegação, pois na navegação (Foucault referia-se às civilizações sem barcos como aquelas onde os sonhos se esgotam), reinventamos em cada instante um lugar com vida própria que, de flutuante, não se fixa e se abre ao infinito e a uma nova possibilidade.



Miguel Caissotti