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MARIANA VIEGASFugaVERA CORTÊS - ART AGENCY Avenida 24 de Julho, 54, 1º Esq. 1200-868 Lisboa 13 JAN - 02 MAR 2007 Uma certa ideia do modo como a paisagem se nos apresenta, mediante a existência do elemento humano como agente transformador da Natureza, é o ponto de partida para Fuga, a recente mostra de trabalhos de Mariana Viegas que, até ao dia 2 de Março, poderá ser vista na galeria Vera Cortês. Trata-se de um conjunto de fotografias e projecções vÃdeo que prolongam reflexões acerca da percepção e do olhar que a artista tem desenvolvido em anteriores trabalhos, utilizando a paisagem como campo operativo de onde subtrai, fotografando, diversos elementos especÃficos de análise. Fuga desenvolve-se a partir de uma reflexão sobre as condições em que uma imagem da Natureza nos impele para uma determinada categoria de juÃzo a propósito da acção humana e, nomeadamente, do nÃvel de evidência que essa acção arrasta consigo, seja nos jardins, parques e outras zonas verdes desenhadas na integra com o objectivo de se harmonizarem numa lógica artificial e urbana, seja nos locais imersos em extensas paisagens, como as reservas naturais onde, sob determinadas condições de controlo, é ainda possÃvel reproduzir a sensação de percorrer um território puro. E é numa das fotografias em exposição (“Monument Valley National Parkâ€) que se concentra essa experiência de duplicidade (de fuga), proporcionada a quem, procurando essa Natureza disfarçada de estado puro, acabará por alcançar um estado contemplativo interior genuÃno, como se verdadeiramente contactasse com um local ainda intacto e não contaminado pelo Homem. A fotografia enquadra três indivÃduos a percorrer uma planÃcie a cavalo, vendo-se ao fundo Monument Valley, formação geológica celebrizada por inúmeros westerns de John Ford. A procura de uma experiência de fuga em plena e incorruptÃvel Natureza está comprometida pela estrada de terra batida, contida na mesma imagem. Este incontornável deslizar, da procura incessante da “viagem primeiraâ€, para uma condição de involuntário turismo, repete-se e incorpora tendencialmente a totalidade da experiência fÃsica da paisagem contemporânea. Numa outra fotografia (“Redwoods National Parkâ€), uma floresta envolve os vestÃgios do que terá sido certamente uma árvore de grande porte. A evidência do corte da mesma por processos não naturais devolve-nos a reflexão sobre a condição de uma liberdade encarcerada e redutÃvel a um sistema totalizante, que tudo abarca em si mesmo. Fundamentalmente, importa perceber até que ponto pode ser uma imagem paisagÃstica equacionada à margem da acção humana. A mediação de um enquadramento anula já a possibilidade de um olhar livre, mas é na constatação dessa imagem (representação fragmentada de um real) que ganha sentido o querer perceber as relações possÃveis entre espaço e poder. Assim, e num contexto contemporâneo ocidental em que o tempo, porque é insuficiente, é supérfluo, o vector espaço conquista preponderância crescente enquanto unidade de pensamento. Os vÃdeos de Mariana Viegas, pressupondo o acrescento de tempo enquanto possibilidades narrativas, adensam também, e sempre, o peso de uma experiência diacrónica do lugar. O mundo configura-se enquanto estrutura de unidades de colocação e a concepção do espaço assume contornos funcionalistas e estruturais que se categorizam por efeito relacional com o elemento humano, e assim, para além dos espaços que são lugares de passagem, de paragem ou de repouso, também a paisagem aparentemente pura de uma vasta e virgem planÃcie submergirá sob uma qualquer tipologia dos lugares de fuga cujo efeito de evasão interior se processe sob os mesmos pressupostos. Esta cruel evidência realiza-se também no lugar de exposição. Um denominador comum a todas as obras objectiva-se numa tipologia especÃfica de problema que se desenvolve sob o contexto humano, seja o do lugar (galeria) seja o do receptor (para quem a artista seleccionou as imagens). A impossibilidade de nomear um qualquer lugar não abrangido pela acção ou pensamento humanos (a nomeação abrangê-lo-á), coloca-nos perante um problema que é preciso ultrapassar. A artista convida-nos para esse tal exercÃcio do pensamento, livre e clarificador dos dispositivos de mediação, enquanto plataforma de liberdade e de navegação, pois na navegação (Foucault referia-se à s civilizações sem barcos como aquelas onde os sonhos se esgotam), reinventamos em cada instante um lugar com vida própria que, de flutuante, não se fixa e se abre ao infinito e a uma nova possibilidade.
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