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EXPOSIÇÕES ATUAIS


Carolina Silva, “Revelação, Paragem, Fixação”, 2009. Lápis de cor sobre papel. 35 x 28 cm


Maria João Pacheco, “Ilha nova – o enterrar do ovo”, 2009. Grafite sobre papel. 56 x 76 cm


Carolina Silva, “Alçado_ 37º45’45’’N, 25º28’34’’W”, 2009. Esmalte aquoso sob vidro acrílico. 79,5 x 53 cm.


Maria João Pacheco, “Mundo”, 2009. Gravura sobre papel. 68 x 72 cm


Carolina Silva, “Direcções de Fuga”, 2009. Tinta acrílica e verniz poliuretano sobre ferro. 32 x 45 cm


Maria João Pacheco, “Sombra clara”, 2009. Grafite sobre papel. 76 x 56 cm

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ARQUIVO:


CAROLINA SILVA / MARIA JOÃO PACHECO

Vaivém sul




CASA DA CERCA - CENTRO DE ARTE CONTEMPORÂNEA
Rua da Cerca
2800-050 Almada

22 MAR - 24 MAI 2009

Duas artistas, uma ilha

Por uma série de características visuais e de problemática encontra-se no conjunto das obras de “Vaivém sul” a vontade de operativamente partir de um território específico. Ou, a bem dizer, de lá voltar. Refira-se aliás que esta exposição de Carolina Silva (n. 1983) e Maria João Pacheco (n. 1982), ocupando duas salas do Convento dos Capuchos, faz parte de um projecto criativo iniciado no ano passado entre Lisboa e os Açores, e portanto já assente noutros dois momentos exploratórios e interdependentes definidos pelas artistas: “Vaivém norte”, com os trabalhos então mostrados na Academia das Artes dos Açores (Ponta Delgada) a materializarem a premissa de estar num sítio, projectando-se para outro (1), e residência artística em São Miguel (durante Agosto de 2008), permitindo nos campos plástico e conceptual repegar agora, novamente do lado de cá, à distância, questões antes lançadas como hipóteses, intuições (2), mas que requisitam o conhecimento entretanto chegado na experiência in loco, vivencial, perceptiva, dessa mesma ilha.

Talvez porque o literal exercício de aproximação e afastamento estabelece o modo de entender o discurso artístico, na viagem pelas suas imagens “Vaivém sul” dá a ver construções pessoais de um lugar que, sem perder a sua função referencial, adquire formas onde interessantemente se adivinham as diferentes memórias e sensações surgidas da interacção de cada artista com uma geografia tão particular. Tomando duas lagoas enquanto elemento iconográfico, as magníficas pinturas sob vidro de Carolina Silva colocam-nos pois perante um subtil jogo de alteridade, de dentro e fora, efeito de enquadramento que parecendo mudar de sítio quem as observa encobre o facto de ambos os registos de paisagem terem sido obtidos do interior. Verticais, atravessa-as uma ideia de corte capaz de nelas sugerir uma relação relativa, reafirmada nas coordenadas dos títulos (“Alçado_37º45’30’’N, 25º20’03’’W” e “Alçado_37º45’45’’N, 25º28’34’’W”). Tenhamos depois em conta seis “Direcções de Fuga”: a busca de tipologias ou unidades mínimas de paisagem reenvia para as diversas possibilidades do olhar sobre um contexto físico de cuja finitude e tangibilidade se está mais consciente. De características abstractizantes, estas pequenas pinturas a acrílico vivem de uma escassez cromática (apenas o azul escuro da terra, o azul claro da água, do céu) através da qual por exemplo se valorizam o ponto extremo da ilha, os declives ou até a tensão de massas paralelas.

De certa maneira pode também um revelador conhecimento do lugar advir de uma capacidade inventiva ao redor de velhas fotografias, tiradas pelos avós numa visita a São Miguel, e que Carolina Silva refaz encontrando e captando esses mesmos locais e perspectivas. O que “Revelação, Paragem, Fixação” nos apresenta são desenhos quietos, reservados, que emergem de uma mesa de luz para pictoricamente coincidir duplas percepções, um tempo passado e um tempo presente, de regulamentação da paisagem. Significativo na legibilidade das obras é, a meu ver, o sentido de ir e voltar que a técnica de cor quase pontilhista induz. Se a unidade de qualquer desenho ganha em proximidade, percebe-se melhor ao longe o que há de novo, a branco: vedações, delimitação de estradas, alguma natureza.

Prática plena de significado, Maria João Pacheco sujeita a matriz das gravuras de “Vaivém norte” a outra prova. E abrindo cinzas e brancos no negro total lembra que toda a imagem precisa da perfeição do pequeno detalhe, assim como necessita de contínua mudança(3). “Mundo” salienta uma visão singular, metamorfoseada, da ilha e o dinâmico trabalhar da chapa põe-nos frente a uma materialidade sensível às forças que agitam a formação do território, vulcânicas quiçá, espécie de intermitente firmeza. No fundo, sempre a pulsão e a fisicidade.

Sinto que o fascínio que exercem seis dos desenhos de Maria João Pacheco (“Ilha nova – o enterrar do ovo”) se liga ao excesso de gesto e metáfora que deles emana. Surpreende o contraste entre o forte riscado da grafite e as estratificações obtidas pela sua textura sólida, como se a tentativa de recriar determinados arranjos naturais, relevos, sulcos, tornasse o material matéria. Estranho poder o do ovo, confere a uma paisagem única, gigantesca, um estado puro, perfeito, auto-gerido. Aí é também espaço do que (ainda) não se vê, tudo aguarda em latência esse momento em que rebenta, explode, expele, expande, irrompe, surge, nasce(4).

“Sombra Clara” foca três partes de São Miguel. Prováveis excertos de um desenho infinito, fica a impressão de um minucioso fazer, eminentemente dispersivo, assegurando relacionais leituras do lugar por intermédio da questão da luz.

Experienciada e mantida na memória das duas artistas, a ilha ressurge transfigurada em “Vaivém sul”. Pelo interior da criação artística, por distintas e mediadas espacio-temporalidades.



NOTAS

(1) Emília Pinto de Almeida, “A norte. A sul.”, in Catálogo da exposição, p. 13.
(2) Idem, ibidem, p. 13.
(3) João Miguel Fernandes Jorge, “A porta do céu”, in A gravata ensanguentada, Lisboa, Relógio d’ Água, 2006, p. 68.
(4) Emília Pinto de Almeida, ibidem, p. 21.



Emanuel Cameira