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EXPOSIÇÕES ATUAIS


Lucian Freud, Girl in a Dark Jacket, 1947. Coleção Privada © The Lucian Freud Archive. Fotografia: Courtesy Lucian Freud Archive


Lucian Freud, Reflection (Self-portrait), 1985. Coleção Privada, Irlanda © The Lucian Freud Archive. Fotografia: Courtesy Lucian Freud Archive


Lucian Freud, Eli and David, 2005-06. Coleção Privada © The Lucian Freud Archive. Photo: Courtesy Lucian Freud Archive


Lucian Freud, Benefits Supervisor Sleeping, 1995. Coleção Privada © The Lucian Freud Archive. Photo: Courtesy Lucian Freud Archive


Lucian Freud, Girl with a White Dog (1950-51). Tate Collection. © Tate


Lucian Freud, Large Interior, W11 (after Watteau), 1981-83. Coleção Privada © The Lucian Freud Archive. Photo: Courtesy Lucian Freud Archive

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LUCIAN FREUD

Portraits




NATIONAL PORTRAIT GALLERY
St Martin’s Place
London WC2H 0HE

10 FEV - 27 MAI 2012



Que é que te habita, que é que está em ti e és tu?
Não, não é a carne, não é o corpo: é aquilo que lá mora,
aquilo que ainda dura de ti nestas salas, neste ar, aquilo que eras tu,
o teu modo único de ser, aquilo a que nós falávamos,
atravessando a tua parte visível.

Vergílio Ferreira


I sometimes looked so hard at a subject
that they would undergo an involuntary magnification
.
Lucian Freud




Falar sobre a obra de Lucian Freud (1922 – 2011) obriga-nos a uma reflexão em torno do corpo enquanto habitáculo de uma existência, tornando-se este simultaneamente limite e superfície espelhada na qual podemos contemplar os meandros interiores que aí se ocultam. É falar da pele na sua nudez, essa obscura fronteira, e de tudo o que esta erradia; da possibilidade de erguer um retrato de uma subjectividade; dos olhos que nos fitam através da tela. Lucian Freud é um “artista - talhante” que abre o corpo humano para nos revelar que dentro dele existe – afinal – uma alma, e que esta é representável. O seu realismo prende-se com uma franqueza na representação da figura humana com todas as suas angústias, as suas cicatrizes, as suas perdições, o tempo que a consome e o seu peso carnal no mundo. “I’m not interested in a painting that looks like a photograph. I want my paintings to feel like people. I want the paint to feel like flesh.”, afirma o artista numa entrevista por Michael Auping em 2009 [1].

Nos retratos de Freud, o olhar e a pele permitem-nos penetrar a intimidade, de um modo invasivo, por vezes mesmo incómodo, do corpo que se apresenta. A expressividade intrínseca à corporalidade é explorada de um modo exaustivo: cada rosto parece afirmar peremptoriamente que não estamos na presença de uma ficção mas de uma realidade exacerbada, escavada, ancorada no limite da visibilidade. As pinturas de Lucian Freud parecem resultar de um extravasamento da interioridade, convertendo-se esta em exterioridade corporal, e deste modo apropriável pelo artista.

“I never put anything into a picture that I don’t actually see when I’m painting a subject. However, I’m not trying to make a copy of the person. I’m trying to relay something of who they are as a physical and emotional presence. I want the paint to work as flesh does. If you don’t over-direct your models and you focus on their physical presence, interesting things often happen. You find that you capture something about them that neither of you knew.” O processo artístico resulta assim da captação/criação de uma subjectividade num tempo e num espaço específicos. O ser humano na sua corporalidade animal, desprotegida e vulnerável, despedida de quaisquer contextos exteriores a ele mesmo. “Doing a portrait is about seeing what you didn’t see before. It can be extraordinary how much you can learn from someone, and perhaps about yourself, by looking very carefully at them, without judgement.”, continua o artista, “A portrait isn’t just a flat image. It is a person. It needs to have dimension.”

A pele é o maior órgão do corpo humano. É a superfície de contacto entre interior e exterior. A nudez na obra de Lucian Freud prende-se com uma representação do ser humano que se desprende das amarras civilizacionais e culturais para ser apenas um animal entre tantos outros. “I think the nudes have to do with making a larger, more complete portrait. It’s a more specific portrait. I can simply see more of the person. Anyone can put on different clothes. The naked body is somewhat more permanent, more factual.” Em Girl with a White Dog (1950-51), observamos uma mulher sentada num sofá com um cão a seu lado, podemos ver um dos seus seios, no entanto, a expressão e o ambiente do retrato não evocam qualquer eroticidade: os olhos da mulher parecem fixar-nos apenas, atentos mas apáticos, numa introspeção que nos é devolvida pelo olhar. A repetida presença de animais em convivência com as pessoas retratadas parece sempre sublinhar o carácter animal no humano, representado num estado selvático. Naked Man with Rat (1977-8) dá a ver um homem nu com uma ratazana; o olhar do homem, que se dirige para o exterior da tela, reflecte a indiferença e a naturalidade com que este se relaciona com o animal que tem nas mãos, como que realçando que são feitos da mesma matéria.

“I have always been interested in bringing a certain kind of drama to portraiture, the kind of drama you have found in paintings of the past. If a painting doesn’t have drama, it doesn’t work. It is just paint out from the tube.” O carácter dramático dos momentos retratados pelo artista, e que se evidencia em obras como Large Interior, WII (after Watteau) (1981–3), onde o movimento e a temporalidade da situação parecem concentrar a continuidade de uma vivência na imagem contemplada, as pessoas relacionam-se, partilhando um espaço, mas recolhem-se numa introspeção espontânea. Não se trata no entanto de uma suspensão, pois que a ilusão do movimento permite-nos apreender a mobilidade de toda a quadra. “Stillness in painting is an illusion just as movement in painting is an illusion.” A própria totalidade da obra de Freud parece converter-se em acto contínuo ao observarmos que o artista reutiliza os panos brancos nos quais limpa os pincéis, que passam a ser parte do fundo de outros retratos, como na obra Standing by the Rags (1988-9). A tinta usada para um rosto passa assim a estar presente no retrato de outro, como que num eterno palimpsesto no qual todos vão deixando a sua marca.

O peso e o excesso da carne começam a surgir nos retratos, a gravidade da matéria de que somos feitos, como que numa ostentação de grandiosidade corporal. Em Leigh Bowery (Seated) (1990), os olhos do modelo fitam-nos na sua altivez carnal, como se afirmasse a sua presença imensa através do corpo nu que transborda, forma e deforma a pele, pedindo para existir na desmedida. Também em Benefits Supervisor Sleeping (1995) este excesso está presente, sendo que nesta obra a modelo repousa, de olhos fechados, como que num abandono da carne.

Nos seus auto-retratos, Lucian Freud assume um duplo papel: além do “talhante” que observa e decompõe uma intimidade para a retratar, torna-se ele mesmo a carne talhada, exposta, retratada a cor e forma. Não é já um modelo retratado na sua distância e alteridade, mas um próprio que se vê e dá a ver. No entanto, é sempre o humano, naquilo que tem de omnipresente em todos nós que não escapa às suas obras.

A exposição de Lucian Freud na National Portrait Gallery, mais do que uma homenagem póstuma à obra colossal de um artista que ficará para a posteridade como um dos maiores artistas da contemporaneidade, permite-nos pensar a corporalidade e a subjectividade humanas na sua representação pictórica e compreender o olhar singular de um artista que sempre colocou nas suas obras mais do que a visão da realidade nos devolve: colocou o seu conhecimento íntimo da natureza humana e uma compreensão aguda do corpo e da carne enquanto lugares de acolhimento de uma existência.



NOTA:
[1]
Todas as citações presentes no texto são da autoria de Lucian Freud, no contexto de uma entrevista realizada em Maio de 2009 por Michael Auping e publicada no catálogo da exposição Lucian Freud Portraits, National Portrait Gallery, Londres, 2012.


Maria Beatriz Marquilhas