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EXPOSIÇÕES ATUAIS


Vista da exposição - André Banha. Fotografia: Centro Cultural Vila Flor


Vista da exposição. Fotografia: Centro Cultural Vila Flor


Vista da exposição. Fotografia: Centro Cultural Vila Flor


Vista da exposição - Vera Mota. Fotografia: Centro Cultural Vila Flor


Vista da exposição - Vera Mota. Fotografia: Centro Cultural Vila Flor


Vista da exposição. Fotografia: Centro Cultural Vila Flor


Vista da exposição. Fotografia: Centro Cultural Vila Flor


Vista da exposição - André Banha. Fotografia: Centro Cultural Vila Flor

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LABORATÓRIO DAS ARTES 10 ANOS - TERRITÓRIO DE TRABALHO




CENTRO CULTURAL VILA FLOR
Avenida D. Afonso Henriques 701
4810-431 Guimarães

24 JAN - 04 ABR 2015


O Laboratório das Artes comemora uma década de existência no Centro Cultural Vila Flor, o culminar de um processo centrado em Guimarães, a partir da actividade de um colectivo de artistas que pretendiam agitar culturalmente a cidade, formado por Nuno Florêncio, José-Emílio Barbosa, Max Fernandes, Jorge Fernandes e Luís Ribeiro, comissário desta exposição. Em 2005, ano fundador, apresentaram 16 salas, um espaço na Rua de Camões, contribuindo para a reabilitação de uma casa de finais do século XIX. O Projecto Teleférico, iniciado em 2006, obteve o apoio da Direcção Geral das Artes e reuniu trabalhos de, entre outros, Cristina Mateus, André Sousa ou Mauro Cerqueira. No ano seguinte, ergueu-se o Projecto Fábrica com o propósito de ocupar e transformar um espaço concreto (a antiga fábrica de curtumes), sensibilizando-o para a realidade da Arte Contemporânea e suas consequentes manifestações estéticas, como a performance ou a instalação. Finalmente, em 2008, montaram o Projecto Informal em locais como o Museu Alberto Sampaio, o Antigo Hospital, o Palácio da Justiça, o Paço dos Duques de Bragança ou o Arquivo Municipal Alfredo Pimenta, novamente financiado pelas DGARTES.

É sob o signo da política e do território de trabalho que se elabora esta exposição, encontrando na resistência, no protesto, na formação de uma consciência cidadã pelas artes os valores essenciais contra o predomínio da vulgaridade, da opressão e da submissão face a uma cultura de convenção instalada.

Quem entra, à esquerda, encontra imediatamente uma mensagem inscrita que interpela a acção e a reflexão: Tempo de (de)cisões difíceis – um jogo de palavras inteligente, da autoria de André Alves, que apela à sensibilidade da ruptura, a uma praxis que exige adoptar em época de trivialidade ecoante, da procura do prazer sem retorno. As palavras negras em fundo branco são acompanhadas por desenhos de estruturas, uma arquitectura a existir, um edifício ganhando um corpo coeso, criando a metáfora de um processo em construção, da nascença de um pensamento em cisão, renovado, decidido a questionar um tempo e um espaço em metamorfose.

Carla Cruz invoca o associativismo e o cooperativismo como palavras de ordem para compor dois quadros de natureza política instigando uma mobilização cívica de intervenção e protesto, desenhados a lápis de cor, inspirados na estética do cartaz soviético. Pretende-se a formação de uma verdadeira consciência cidadã, responsável e crítica, em fase de construção (os tijolos nos quais se gravam as palavras-mote indicam essa referência).

A ILHA de Paulo Mendes apresenta dois vídeos que dialogam mutuamente, exibindo o primeiro uma toalha estendida vislumbrando o nome de Portugal, e registando o segundo uma entrevista na qual é abordada a dificuldade de se habitar um país em crise e empobrecido, ambos filmados em planos fixos visualmente devedores do cinema de Oliveira ou Pedro Costa (note-se o tom sombreado em que a entrevista decorre), constituindo na sua essência uma peça marcadamente política que procura analisar a realidade social de um país que tem medo de existir, em clivagem e desencontrado de si próprio e da Europa do século XXI.

Apropriando-se da célebre tela Os pedreiros, de Gustave Courbet, mestre da pintura realista francesa no século XIX, José Almeida Pereira procede à desconstrução das imagens clássicas através de um gesto que visa conferir uma tonalidade contemporânea, uma roupagem 3D na era das estruturas digitais (repare-se nas cores esverdeadas e arroxeadas e na sobreposição dos movimentos, o que faz deste trabalho igualmente uma meditação sobre a natureza da temporalidade). O esforço dos operários relaciona-se evidentemente com a metáfora da construção que atravessa toda a concepção desta exposição, o papel (político) do artista de constantemente se reinventar no contexto de uma cultura socialmente dinâmica.

Uma bandeira de luto pousada no chão, duas palavras fundamentais, Last Hope, apenas tenuemente iluminadas, e uma serigrafia em que pontuam pedras e terra, elaboram a crónica de uma manifestação falhada organizada por um povo em resistência que sublinha a ruína do sistema capitalista, o colapso de um modelo de governação. Eis o conteúdo de nothing is left to tell, instalação de Fernando José Pereira, que alerta para a urgência da luta e da reivindicação política em período de austeridades e ausência de alternativas ideológicas, sob o risco de gerar a impotência do cidadão, a banalização da democracia e a relativização da liberdade individual. Se isso faltar ao humano, o que restará, interroga este trabalho. Aparentemente o nada, ou apenas a poeira e o vestígio que a serigrafia justamente testemunha.

Rui Mourão confronta-nos com As botas de Estaline, um díptico em vídeo que alterna entre imagens de época relativas à queda do regime estalinista (as botas foi o que restou literalmente da magnânima estátua do líder soviético) e filmagens recentes na Hungria, pretendendo relevar a permanência da memória e do discurso histórico em forma de visita guiada através do que já existiu, exigindo ao espectador uma posição na inquietante encruzilhada do passado e do presente. Análogo ao desta obra é o Sem título, de Carlos Lobo, conjunto de fotografias (refira-se aquela em que se observa a presença do autor junto do mausoléu de Marx, em Londres, de punho erguido homenageando o poder operário), que debatem a validade ou anacronia de uma ideologia e de um sistema de pensamento político, não estando ausente porém uma certa dimensão paródica.

Destacaria ainda a peça AAA/AAA/aaa, de Nuno Florêncio, um mapa de Portugal de areia, cálido e desertificado, que reflecte a sua demografia e posição geográfica, cujo título esclarece uma sátira de contornos políticos directos, a nota máxima atribuída pelas agências de rating, estando a economia nacional votada a uma classificação de lixo, reduzindo todo um país e um património ao estatuto de marginalizado, de não cumpridor, de fraco entre os poderosos, de excluídos entre as elites.

O trabalho de Max Fernandes, projecção que resulta da filmagem de uma peça de teatro amador influenciada pelos textos de Augusto Boal, autor célebre da década de 60 por ter explorado as capacidades do chamado teatro do oprimido, foca a tensa e conflituosa relação laboral entre patronato e funcionários de uma fábrica baseada na problematização de questões sociais como o desemprego, a carência económica, a luta de classes e a reivindicação de direitos políticos, fazendo desta encenação filmada um claro exemplo de arte comprometida e de intervenção.

António Gonçalves oferece um conjunto de reproduções a preto e branco baseadas nas capas do jornal Público, que se materializam em três momentos: o desenho das primeiras capas, em 2008, a edição de fotografia a partir de cinco exemplares, em 2010, e uma reunião final desse trabalho, síntese geral, traduzida em trezes cadernos que compilam 365 imagens, uma por cada dia do ano.
Houses with oil, de 2011, é o nome do trabalho realizado por Miguel Palma, maquete que desafia a ordem da gravidade, as regras da horizontalidade/verticalidade, casas em miniatura rodeadas por óleo de motor vistas de uma perspectiva aérea que visam um pensar da ideia de topografia, do próprio espaço enquanto matéria de criação, da arqueologia como imaginação dos lugares reduzidos a uma escala captada pela amplitude do olhar, atribuindo-lhe uma consciência geográfica.

A Gruta, pintada por Miguel Leal, uma entrada ou caminho obscuro que prolonga o espaço expositivo, continua ilusoriamente aquilo que as paredes encerram irreversivelmente. A metáfora erótica é óbvia, podendo esta imagem poderosa assemelhar-se facilmente a uma vagina, a origem do mundo, de onde brota a intensidade do acto de criação, a imaginação seminal que empresta a sua dignidade à condição mesma do artista.

Mafalda Santos, em Carta pras Icamiabas, empilha uma série de páginas de livros recortadas e fragmentos de revistas, representando uma imagem que se confunde com a esfera do digital (neste sentido, partilha uma intimidade com a obra de José Almeida Pereira), propondo assim uma formulação crítica acerca da ubiquidade da informação e da sua massificação mediática e tecnológica.
Resultando de uma performance decorrida no dia da inauguração, Vera Mota descobre um padrão de traços abstractos (Pollock ou Vieira da Silva são referências possíveis) unidos por um fio branco que segue um percurso logicamente estabelecido neste Sistema mais vasto de implicações estéticas grandiosas e impactantes.

Jorge Fernandes, em Two hands one needle, recria o trabalho exposto em 27 artistas, uma casa a demolir, uma mostra igualmente comissariada por Luís Ribeiro em 2005, cravejando a parede de fissuras e brechas, desenvolvendo o tema da ruína, do envelhecimento dos materiais e do vestígio como marca do tempo.

A bobine suspensa, a projecção e o filme definem Onde me levas? ___________ (silêncio), criado por Manuel Santos Maia, um projecto que convoca nomes como a Maria Gabriela Llansol de Um Falcão no Punho (“é a minha própria casa e creio que vim fazer uma visita a alguém”) e Álvaro Lapa, desenhando a tinta branca numa tela da mesma cor um eloquente TU inspirado na sua pintura, propondo estabelecer a intensa potencialidade da palavra literária em diálogo com a performance do corpo e da sua gestualidade bem como da fotografia como génesis da prática cinematográfica.

Uma garrafa e um saco despersonalizados, símbolos da cultura de consumo e da estética kitsch, rodando ad infinitum e desgastando-se, permitem visualizar argant, trabalho em vídeo de Eduardo Matos que se traduz numa reflexão singular sobre o impacto da passagem do tempo e da efemeridade necessária dos objectos e da própria arte enquanto meio imprescindível do humano para combater e transcender a morte.

Isabel Ribeiro representa em Pilha polaca um mural preenchido por fotografias transpostas para pintura revelando paisagens desprovidas de presença humana que remetem para o imaginário dos campos de extermínio nazis localizados na Polónia, influenciadas pelo cinema de Claude Lanzmann, numa acumulação de memória essencial para se ponderar a beleza trágica que as imagens podem conter na sua própria condição de irrepresentabilidade.

A ideia de território e a arqueologia estão presentes no trabalho de Luís Ribeiro, apresentando uma maquete (neste sentido, relaciona-se com a peça de Miguel Palma) na qual pontificam um conjunto de casas afectadas por um incêndio, simulando assim um desastre, sendo a preocupação central a de racionalizar o acidente e a catástrofe como inevitabilidades imanentes ao percurso do mundo, ao ciclo das transformações, sugerindo um espaço intimamente relacionado com a natureza.

A exposição que assinala os 10 anos do Laboratório das Artes em Guimarães, no Centro Cultural Vila Flor, vigora até ao dia 4 de Abril, cruzando um olhar politicamente activo com a materialidade de um território sem fronteiras, híbrido, entre o fantasmático e o concreto.

 

Joaquim P. Marques Pinto
 

 

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Esta exposição reúne obras de André Alves, André Banha, António Gonçalves, Carla Cruz, Carlos Lobo, Dalila Gonçalves, Eduardo Matos, Fernando José Pereira, Isabel Ribeiro, Joana da Conceição, João Giz, João Marçal, Jorge Fernandes, José Almeida Pereira, José Emílio Barbosa, Luís Ribeiro, Mafalda Santos, Manuel Santos Maia, Max Fernandes, Miguel Leal, Miguel Palma, Nuno Florêncio, Paulo Mendes, Pedro Valdez Cardoso, Rui Mourão, Vera Mota e André Sousa (exposição individual no Laboratório das Artes).

 

 



Joaquim P. Marques Pinto