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COLECTIVAIda e Volta: Ficção e RealidadeCAM - CENTRO DE ARTE MODERNA Rua Dr. Nicolau de Bettencourt 1050-078 Lisboa 23 NOV - 26 ABR 2008 A Partilha entre Ficção e RealidadeRecentemente inaugurada no Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian, a exposição intitulada “Ida e Volta: Ficção e Realidade”, comissariada por Christine van Assche, directora do departamento dos Novos Media do Centre Pompidou, reúne uma selecção de trabalhos de onze artistas, nomeadamente Didier Fiuza Faustino, Laurent Grasso, Rachel Reupke, Melick Ohanian, Rodney Graham, Clemens von Wedemeyer, David Claerbout, Chris Marker, Alexandre Estrela, Jordi Colomer e Isaac Julien, na sua maioria realizados entre 2000 e 2007. Se, durante a década de 90, o cinema foi sobretudo pensado pelo vídeo a partir dos seus códigos, como a narrativa ou dos seus mecanismos de espectáculo, através de estratégias de desconstrução, fragmentação ou remake, hoje, algumas das propostas parecem trazer uma outra reflexão, ao reconfigurarem um paradigma intimamente ligado ao aparecimento do próprio cinema, i.e., Ficção e Realidade. Mas é em torno do esbatimento da fronteira destes territórios e não da sua distinção que a exposição se organiza. À entrada, Didier Fiuza Faustino apresenta “Temps Sauvages et Incertains”, 2007, um dispositivo panóptico de vigilância que, em circuito fechado, capta e transmite em ecrãs espalhados pela exposição imagens do interior e exterior do espaço, convidando o visitante a participar como actor e espectador dos seus movimentos, difundidos por vezes em directo, outras em diferido. Ao documentar a exposição, Faustino, também responsável pela sua arquitectura, estabelece um jogo com o tempo e o espaço anunciando desde logo a proposta curatorial. É ao longo de um grande muro branco que atravessa longitudinalmente a nave do CAM que um conjunto de portas entreabertas dão acesso a um corredor (inspirado em “Alphaville” de Godard) onde os trabalhos, rigorosamente bem instalados, se sucedem em cabines individuais e variam nas suas abordagens para pensarem o real a partir de categorias como o fantasmagórico, o fantasmático, as narrativas virtuais e documentais, a memória ou a história. No centro deste percurso, é projectado o filme “La Jetée”, 1962 de Chris Marker. Deitados em chaises longues numa sala transformada em cápsula futurista, somos confortavelmente levados para essa viagem no tempo que, sob o pano de fundo de uma Paris destruída por uma ataque nuclear, narra a trágica história de um homem marcado por uma imagem do passado que, através da acção da memória, regressa no presente para ser experimentada. Neste sentido, ao estabelecer a intersecção dos registos ficcional e histórico, resta lembrar que em 62 terminava a guerra da Argélia, “La Jetée” reúne na integra os pressupostos do enunciado da exposição, correspondendo também a um momento de transição entre os trabalhos de natureza mais ficcional que manipulam imagens a um nível infra, como os de Laurent Grasso, Rachel Reupke ou David Claerbout, e os de natureza mais documental que decorrem da colagem e sobreposição de imagens, entre os quais os de Rodney Graham, Alexandre Estrela e Isaac Julien. Em “Sans titre, Projection”, 2003-05, de Laurent Grasso, uma nuvem de impacto percorre as ruas de Paris, tragando tudo o que está à sua volta. Com subtileza e humor, o artista funde neste vídeo algumas das catástrofes naturais e monstros criados pela indústria cinematográfica americana bem como certos episódios da nossa história recente e suas imagens. É também a memória do cinema que “Edge of a Wood”, 1999 de Rodney Graham convoca. A partir do som de um helicóptero retirado do filme “Apocalypse Now”, este, sem nunca aparecer no campo de visão, ilumina um bosque nocturno para procurar algo numa acção que se repete infinitamente frustrando as expectativas do observador que, numa atmosfera sonora de guerra, se perde entre aquilo que ouve, aquilo que vê e o que anseia encontrar. Continuamos a ser despistados, mas agora pelas minuciosas narrativas virtuais de Reupke e Claerbout, que têm vindo a desenvolver um trabalho centrado nas possibilidades do digital como produção de realidade. Se a primeira, misturando o vídeo e a fotografia, cria uma rede imaginária de transportes numa paisagem idílica onde não-lugares são simultaneamente palco de pequenos momentos de conflito e drama humanos, o segundo, em “Sections of a Happy Moment”, 2007, retrata uma família asiática a brincar num parque de um complexo habitacional, à medida que, através da proliferação de dezenas pontos de vista fotográficos, desconstrói o instante da acção, único objecto de todas as imagens, insinuando também a expansão da narrativa. Já sob um registo diferente e mediante a apropriação, Alexandre Estrela ao estabelecer em “Cross Sharing”, 2000 uma sequência e continuidade de imagens oriundas de dois filmes, “Soylent Green” e “Far from the Madding Crowd”, constitui um interface que cola uma narrativa a outra, estendendo o processo de morte enunciado pela primeira à segunda produzindo com isso um ciclo autofágico. Explorando a via do documental, mas nem por isso menos ficcional, “Fântome Afrique” de Isaac Julien, completa a exposição. Co-produzida pelo Pompidou e pela Ellipse Foundation em 2005, esta instalação de tripla projecção, é o segundo filme de uma trilogia concluída este ano e que, a partir de imagens de arquivo e de outras filmadas pelo artista na “urbana” Uagadugu e nas regiões áridas do Burkina Fasso, questiona um conjunto de temas da história africana, como a colonização, a exploração e a migração, revistos por duas personagens. “Ida e Volta: Ficção e Realidade”, constitui assim um excelente olhar sobre o que de mais recente se tem feito no domínio da imagem em movimento, contribuindo para um entendimento da realidade como um acontecer que só se manifesta na sua ficcionalização.
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