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EXPOSIÇÕES ATUAIS


Renato Ferrão, “Vão”


Renato Ferrão, “Harmónica I”


Renato Ferrão, “Harmónica II”


Renato Ferrão, “atelier em voo”


Renato Ferrão, “atelier em voo”. Pormenor

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ARQUIVO:


RENATO FERRÃO

A C ack of ence




UMA CERTA FALTA DE COERÊNCIA
Rua dos Caldeireiros 77
4050-140 Porto

30 MAI - 29 JUN 2008

A C ack of ence. Suspenso, até acontecer o acontecer…

É em Aristóteles, que encontrámos explanada a ideia que na potência está também a potência de não. Ou seja, a potência de fazer algo contém em si, a potência de não o fazer. Na razão de economistas e analistas financeiros, existe algo análogo a que chamam custo de oportunidade, e que integra qualquer decisão de risco ou plano de investimento. No movimento (vontade), já algo nos escapa… Partimos, e esse partir é em n-1, subtraídos. Veja-se, a título de exemplo, a potência sem querer, que Herman Melville coloca no seu Bartleby: O escrivão que “preferiria” não escrever!...

Parto destes exemplos, ciente que muitos mais haveriam. Para descrever os actos de suspensão, que se encontram nas obras da exposição “A C ack of ence” de Renato Ferrão. Que logo pela forma como o título é encontrado, intervindo sobre um convite que anteriormente apresentou o espaço: A Certain Lack of Coherence; e donde aparece o cacofónico título, que é coerente com a incoerência do espaço, onde dificilmente se encontra um ângulo recto.

Numa primeira sala, que é também um corredor, é nos permitido ver três colunas que remetem para uma frágil sustentação de uma área, também ela fragilizada pelo seu manifesto estado de degradação. A disposição em que elas se encontram, condiciona o movimento e obriga a um serpentear para acedermos às outras salas. As colunas, peça que o autor nomeou de “Vão”, são feitas de material idêntico ao que se encontra ali a forrar as paredes, e que permanece como indício de uma actividade que aquele lugar já albergou. A peça “Vão” integra-se perfeitamente no espaço, ganhando uma invisibilidade ao mesmo tempo que o satura. Como se fossem, três palhas perdidas num palheiro. Uma das colunas chega mesmo a reforçar essa ideia, quando lhe é intencionalmente incorporado uma degradação, que põe em risco a sua função de inerte que sustêm. Sendo também esta, a que melhor ajuda o desmontar da ilusão.

Numa outra sala-corredor, deparamo-nos com uma instalação que ocupa toda a extensão da sala e que consiste num prato e numa cadeira que desenham uma rota de colisão através de cabos elásticos, que lhe potenciam a trajectória e de outros, que o não deixam passar ao acto. Este jogo de forças congeladas, recria a situação de tensão empregue numa trajectória bem delineada, que foi suspensa. Possui um desenho, em que se pode antecipar o desfecho se lhe imaginar o movimento. O prato, como um dos objectos escolhidos para este dispositivo, não deixa de remeter para filmes onde a luta de tartes é uma paródica ocorrência.

Na mesma sala, inicia-se em idêntica disposição, uma outra obra que desenha uma trajectória, desta vez, entre uma pedra de dimensão considerável e um candeeiro abajour. Que vindo de outra sala difunde uma luz suave contra parte da pedra. O jogo de tensão mantém-se, cabendo à luz, na sua difusão, um contaminar intimista que expõe a sua fragilidade face ao objecto mais grave, desenhando-lhe um rosto, que no mesmo instante é a zona de um impacto em potência.

Estas duas instalações (“Harmónica I” e “Harmónica II”) revelam na sua situação de congelamento e suspensão, um ser e fazer, que assim suspensas, nada são. A potência, a ser possibilidade, não escapa ao anúncio das forças. Porém, a forma suspensa é aquela em que nada nela podemos acrescentar ou subtrair. Nada podemos emancipar. Daí que uma forma fácil e imediata de suspensão se verifique quando retiramos um objecto do seu contexto. Do ser ou não ser shakespeariano, à contingência de ser e não ser, reforça-se um convite ao silêncio ao não passar a um acto, e nessa suspensão, ser um a-ser.

Já na última sala, uma disposição de vários elementos sugerem uma dinâmica diferente. São-nos apresentados duas colunas, semelhantes às que se encontram no início da exposição. Onde uma delas, ao ter sido erigida por um processo mais frágil, cedeu às condições de humidade do espaço, e, está caída a um canto da sala. A coluna tombada é trespassada por cabos e molas elásticas que sustêm uma colher com um resto de tinta branca apodrecida, que mais parece um gelado salpicado por pedaços de chocolate. Na outra, pende um pano manchado fixo num ponto à coluna.

Nesta instalação que se chama “atelier em voo”, Renato Ferrão usa alguns dos materiais esquecidos ou abandonados, que compõem o universo do seu atelier. Um pano, nunca antes utilizado e que coabitava esse universo, desvela-nos os vincos e as manchas da sua inutilização. Uma espécie de mortalha, que nos permite ler a passagem do tempo. Um sudário de uma inacção. A colher, esquecida com um pedaço de tinta, dispõem-se agora à ambígua plasticidade, que uma tensa e rasteira elevação com esticadores e molas, cria. Sugere o pairar de um voo. E a suspensão é aqui também a sua condição. Que num ímpeto para a escolha de uma hipótese sempre verdadeira, poderíamos socorrer de um sentido wittgensteineano do tipo “amanhã dar-se-á ou não se dará” o voo da colher e do atelier. Porventura, não será menos verdade se disser: suspenso, até acontecer o acontecer…




Rui Ribeiro