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EXPOSIÇÕES ATUAIS


Carlos Noronha Feio, “Snow wall, will you show me the way to restart it all?”


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ARQUIVO:


CARLOS NORONHA FEIO

Snow wall, will you show me the way to restart it all?




MUSEU NOGUEIRA DA SILVA
Avenida Central 61
4710-228 Braga

06 FEV - 28 FEV 2010

Branca de Neve.

A ideia de um recomeço tem sido a tónica na qual Carlos Noronha Feio (1981) tem flectido o discurso que acompanha o seu trabalho artístico. Foi o caso da exposição “Tentando alcançar o ponto zero”/ “Trying to reach point zero” em Novembro de 2009; e é o caso de “Snow wall, will you show me the way to restart it all?” do ano e mês corrente. Quando digo «discurso que acompanha» é no propósito de evidenciar o caso, não de todo único mas revelador de um sintoma, que é o forçar um certo discurso num formalismo que não o sustém. Quanto ao discurso, quero dizê-lo claramente que falo do discurso político e da sensação frequente de estarmos diante de um pau-de-cabeleira para formas artísticas que anseiam uma espécie de via rápida para as legitimar. Sabemos que toda a arte é política e etc., etc., e poder-se-á também adjudicar que nada disto é do recente. Mas a receita ainda se revela eficaz: à dimensão do sonho, que por si só parece já não bastar, incorpora-se a vontade de negação e de combate. E como a maioria das propostas artísticas nunca estabelece o que nega ou o que é para combater, fica-se pela vontade justificada na insuficiente razão de não se tratar de uma questão de acto, mas sim de atitude. Trata-se de um argumento particularmente típico de uma juvenilia artística. Bem mais frutífero seria deixar o sonho marinar na amargura… mas isso está-se mesmo a ver que é cozedura demasiado lenta.

Não é então de admirar que trabalhos de arte política tenham tido um decréscimo significativo de produção e exposição (o que é praticamente a mesma coisa) e trabalhos de arte acompanhadas com discursos políticos (textos ou citações) sejam cada vez mais frequentes. Estes últimos, com o denominador comum de sustentar o preconceito de não querer disputar questões “óbvias” onde pululam políticos cartonados e de agenda. No entanto, o recurso ao “statement” político sempre dá para justificar a pertinência de um corpo de trabalho, uma espécie de cartada sempre segura e conclusiva. Evoca-se o ex-machina político para emaranhar todas as pontas soltas e abrir campos de leituras – é que isto de obra aberta, efectivamente, quanto mais aberta melhor.

É a partir daqui que é possível, que uma exposição extremamente minimalista como é o caso de “Snow wall, will you show me the way to restart it all?”, onde nos é dado a ver um conjunto de telas pintadas apenas com a sua base preparatória de gesso branco, e que parecia evidenciar, por exemplo, um diálogo com as pinturas de Malevitch ou de Robert Ryman, e uma projecção de vídeo, em que o autor executa uma elevação numa alvenaria de pazadas de neve, não seja mais do que a forma que Carlos Noronha Feio encontrou para, e cito do texto da brochura que acompanha a exposição: “uma tentativa de criar uma antítese de muro. Este não é um muro que divide crenças, mas sim um muro que cria um espaço branco para a reflexão, um muro que permite criar uma base do que tem por trás e construir nesta.” Esta explanação surge posteriormente a uma outra: “Poderia aqui rematar com exemplos concretos e recentes, Muro de Berlim, guetos, campos de concentração, campos de refugiados, muros construídos pelos Israelitas dos quais acabou de ser aprovado a construção de mais um, desta vez a separar Israel do Egipto.”

Sobre o acontecimento pictórico proposto, todo ele acessível a um transporte pela história da arte, nem uma linha. Afinal toda esta exposição alinha pela bitola da actualidade política, onde parece ser necessário propor sempre um novo começo na experiência partilhada de que o rumo actual dos acontecimentos está irremediavelmente borrado para lá de qualquer compostura. É sempre fácil propor essa distância, que é inerente a qualquer acto sério de reflexão. Tão fácil, que a posição extremada da não existência da representação de um objecto é já uma consequência natural desse percurso, é o lugar branco da mimese que se opõe ao contar da diegese. Basta a lembrança de termos levado durante anos com esse pérfido conceito de não lugares para voltar a sentir a náusea.

Mas que novo? E por onde recomeçar? Isso são perguntas às quais já nos habituámos a não obter resposta. Se a arte é o novo, o novo é o que não tem modelo de referência disse-o Malevitch numa carta a Alexandre Benois mostrando o poder de rasura que o seu “Branco” impunha a qualquer tentativa de pintura representativa. Já Carlos Noronha Feio propõe-nos um lugar de ardósia branca e vazia para pensarmos. E podemos pensar no branco, no nada? E será nova esta ardósia? Não, de todo. O branco da reflexão é essa potência sem vontade, e aberta a todas as possibilidades, mas que nunca poderá passar à acção sem deixar de imediato de ser “a” potência. Além de ser uma ideia com barbas, essa barbas já vêm de Aristóteles. É no livro De Anima, talvez o livro mais disponível deste fundador da filosofia e do pensamento, que surge, pasme-se, idêntica imagem à de Carlos Noronha Feio “O muro branco como espaço de reflexão” em nada difere da tabula rasa que sucessivas traduções latinas de Aristóteles preconizaram como sendo a “imagem” em que nada está escrito em acto mas tudo em potência. Fazer tábua rasa nem sempre é uma boa forma de recomeçar. Até porque é aí, no tudo possível, que o deslumbre é maior. E o mais certo, é que depois de começar, o recomeçar, tudo se pareça com um caminho já trilhado, e é já longo o caminho percorrido.

Desculpamos o autor de uma percepção semelhante à de Aristóteles. Mas é triste constatar que ainda andamos nisto. O que em termos conceptuais significa um gigantesco retrocesso. Este é um caso paradigmático em que a exposição que vi, não sendo nada de especial, mas nessa potência, era bem melhor do que a exposição (ou fazendo cair o “ex”) – a posição, de Carlos Noronha Feio, que mais tarde li, enviesada numa questão política que sem o texto é inexistente. Sinto mesmo que a mosca caiu na sopa, e era daquelas sopas brancas que ajudam o restauro do convalescente e onde a mosca ganha bastante em contraste. Mas pode ser que seja só impressão minha ser impressionável.

Rui Ribeiro