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EXPOSIÇÕES ATUAIS


Anselm Kiefer, “Für Paul Celan”. Cortesia: Anselm Kiefer e Yvon Lambert Paris. Fotografia: Jean Breschand


Anselm Kiefer, “Für Paul Celan”. Cortesia: Anselm Kiefer e Yvon Lambert Paris. Fotografia: Jean Breschand


Anselm Kiefer, “Für Paul Celan”, Cortesia: Anselm Kiefer e Yvon Lambert Paris. Fotografia: Jean Breschand


Anselm Kiefer, “Für Paul Celan”. Cortesia: Anselm Kiefer e Yvon Lambert Paris. Fotografia: Jean Breschand


Anselm Kiefer, “Für Paul Celan”. Cortesia: Anselm Kiefer e Yvon Lambert Paris. Fotografia: Jean Breschand


Anselm Kiefer, “Für Paul Celan”. Cortesia: Anselm Kiefer e Yvon Lambert Paris. Fotografia: Jean Breschand


Anselm Kiefer, “Für Paul Celan”. Cortesia: Anselm Kiefer e Yvon Lambert Paris. Fotografia: Jean Breschand

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MARC LENOT

ARQUIVO:


ANSELM KIEFER

Für Paul Celan




YVON LAMBERT
108, rue Vieille du Temple
75003 Paris

21 OUT - 02 DEZ 2006

A paisagem era branca de neve

Galerie Yvon Lambert e Galerie Thaddaeus Ropac, Paris

Se a humanidade tivesse desaparecido após um incêndio universal e o vendaval pós-apocalíptico tivesse varrido todos os corpos restaria a neve espessa sobre a paisagem queimada, onde os únicos sobreviventes da memória humana seriam os enormes livros de chumbo com estames de girassóis eternamente nocturnos a marcarem as páginas.
Assim é a paisagem que nos é trazida pela nova série de obras de Anselm Kiefer, “Für Paul Celan” apresentada nas duas galerias vizinhas do norte do Marais, Yvon Lambert e Thaddaeus Ropac.


Nesta série de trabalhos em pintura e escultura de grandes dimensões as cores são o ferrugem, o cinza chumbo, o branco imaculado da neve e a cor da madeira. Madeira que, em pequenos ramos que poderiam ser transportados por crianças, se encontra sobre as cadeiras que pontuam a paisagem onde o ponto de fuga é um horizonte infinitamente árido.


Sente-se o eco dos poemas de Paul Celan, poeta de origem romena que viveu o holocausto nazi e produziu diversas obras tal como Kiefer em França. Poemas como “Todesfuge“ (A fuga da morte) ou “Scheneebett“ (Leito de Neve) desvelam-nos uma paisagem de silêncio, como diria Yvette Centeno no prefácio à antologia de poemas ”Sete Rosas mais Tarde”:
“ … a poesia de Celan é o lamento ou o requiem por esse mundo que se sabe irremediavelmente destruído. O que nos sobra são as testemunhas impassíveis e silenciosas que se exprimem nas metáforas recorrentes: as árvores, a neve, onde se dissipam as pegadas dos que nela pereceram, um olho (o olho do tempo) cego que nada vê, nem reflecte nada, o cabelo que sobrou das cinzas” ( ed. Cotovia , 1996, Lisboa)


Anselm Kiefer nasceu em 1945 em Donaueschingen na Alemanha e é uma das figuras cimeiras da cena artistica alemã com uma carreira que começou nos anos 60 e que se tornou internacionalmente conhecida após a sua participação na 39° Bienal de Veneza em 1980, onde partilha a representação do pavilhão germânico com Georg Baselitz.


A critica alemã nem sempre acolheu favoravelmente a obra de Kiefer pela sua notória ligação à genealogia do pensamento e da arte germânicas, seja por referências a criadores deste século, como Paul Celan, Walter Benjamin ou Levinas ou a figuras mais remotas como Holderlin, Hegel ou Wagner; estas referências oferecem aos seus co-nacionais, sempre sob o peso do complexo de culpa do nacionalismo alemão uma ambiguidade significacional, como é o caso da série dedicada à arquitectura alemã do período nazi “Vision of a New World” realizada entre 1980 e 1987.


Na América Kiefer é bem acolhido. Realiza uma grande exposição apresentada no Art Institute de Chicago em 1987 e no MoMA em Nova Iorque em 1988-1989; o catálogo é da responsabilidade de Mark Rosenthal que defende a tese de que o fantasma da era alemã precede o período nazi e é desde logo patente em obras românticas como as de Friedrich.


Como bom discípulo de Joseph Beuys, Anselm Kiefer desde os anos 80, adopta materiais orgânicos como a palha e a cinza ou tecnicamente elaborados como o chumbo.
Este “filho de Saturno”, desde 1991 a viver e a trabalhar na região de Ardeche em França, realiza diversas séries onde irrompem os girassóis e os livros em chumbo como a exposta em Paris na galeria Yvon Lambert em 1996 “Cette obscure clarté qui tombe des étoiles”.


Em 1997, uma vasta retrospectiva da sua carreira tem lugar em Veneza no Museu Correr com trabalhos como “Les femmes de la révolution” série começada em 1991.
Nestas obras a presença humana era ainda visível mas em “Für Paul Celan” apesar de continuar a palavra escrita do pintor, um barco e algumas cadeiras presas nas telas, que parecem abandonadas como no fim de um espectáculo de Pina Bauch.
A componente cenográfica é forte mas o rasto do vivo desaparece sobre os layers de matéria.
Resta o peso dos seus livros gigantes carbonizados: “ … o mundo é um livro à espera como todos os livros de ser consumido e queimado…” (Massimo Cacciari na introdução ao catálogo da exposição Anselm Kiefer, Ed Charta, Milão).


As obras de Kiefer são um teatro em forma de livro em que o verbo nos remete para todo o compêndio da história comum aos que sobreviveram ao espectáculo surdo da guerra.


Sílvia Guerra