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EXPOSIÇÕES ATUAIS


Vista da exposição. Fotografia: Alberto Moreno.


Vista da exposição. Fotografia: Alberto Moreno.


Placa da Embaixada do NSK em Moscovo promovida por IRWIN en 1992.


Vista da exposição. Fotografia: Alberto Moreno.


Laibach.


Laibach, Cruz negra, 1980.


Laibach no ŠKUC, 1984.


Membros dos diferentes grupos do NSK e convidados durante o evento retroguardista Baptismo debaixo do Triglav em 1986. Réplica da obra escultórica da terceira internacional.


Teatro das Irmãs de Cipião Nasica. Cena do Evento Retroguardista Baptismo debaixo do Triglav, 1986.


IRWIN: Vade Retro.


Novo Colectivismo, Cartaz do Dia da Juventude, 1987.

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ARQUIVO:


COLECTIVA

NSK DEL KAPITAL AL CAPITAL. NEUE SLOWENISCHE KUNST. UN HITO DE LA DÉCADA FINAL DE YUGOSLAVIA




MUSEO NACIONAL CENTRO DE ARTE REINA SOFÍA
Santa Isabel 52
28012 Madrid

28 JUN - 08 JAN 2018

NSK, O EMBRIÃO DE UM NOVO ESTADO

 

 

Façamos um pouco de História e coloquemos uma data e um lugar, 4 de maio de 1980, Jugoslávia. O marechal Tito morria na Eslovénia aos 88 anos de idade, o líder que tinha conseguido unir todas as repúblicas balcânicas, deixava o país numa situação de equilíbrio tenso. O sistema económico, de tipo misto, e a sua permeabilidade tinham colocado a Federação num espaço político, social e cultural relevante, e era o exemplo de uma possível terceira via económica num mundo que viria a mudar drasticamente, e sobretudo um bloco, o socialista, que viria a desaparecer nos 10 anos seguintes. A Jugoslávia era uma República Federal socialista, sim, mas uma das mais abertas e ricas culturalmente – tinha ganho a sua independência da URSS - e com uma economia que funcionou bem até a década de 1980 (socialismo de mercado, um sistema mais ágil do que o dos seus vizinhos do leste). A Jugoslávia era a porta do ocidente e realmente uma experiência possível.

A década de 1980 foi a passagem de uma possibilidade, à intenção clara por parte do ocidente de acabar com o "socialismo" e sobretudo semear o terreno para a passagem de uma economia de produção para outra financeira, com a perda de peso do valor industrial. A Jugoslávia sofreu essa mudança drástica – tal como todo o bloco de leste - especialmente na descida dos produtos manufaturados e das matérias primas, além do aumento do petróleo que a levou a pedir crédito ao FMI. No final da década de 1980 a Jugoslávia vivia num colapso e as diferenças entre as Repúblicas que se revezavam no governo da Jugoslávia iam estalar. Em 1991 começava a guerra da Jugoslávia.


NSK

Neste contexto, havia na Jugoslávia de finais dos anos 70, princípio dos 80, uma eclosão cultural de primeira ordem num mundo em mudança. Para entender o NSK (Neue Slowenische Kunst, em alemão - Nova Arte Eslovena), o colectivo criado em 1984, era preciso ter em conta a encruzilhada que supunha ser essa Jugoslávia e especialmente o movimento cultural na Eslovénia (na fronteira com a Itália). Para dar um exemplo, o movimento punk evoluiu na Eslovénia ao mesmo tempo que na Inglaterra. A Jugoslávia era, portanto, outra coisa, e dentro da Jugoslávia, a Eslovénia era a mais ocidentalizada das federações e economicamente a mais abonada. Durante esses primeiros anos oitenta, o movimento contracultura jugoslavo tinha em Ljubljana um foco activo de vanguarda. O punk vivia o seu esplendor, grupos como O'Kult, Otroci Socializma, Pankrti, Lublanski psi e... Laibach faziam da pequena capital um lugar de peregrinação da própria Itália. Laibach, ainda assim, é um dos grupos mais reconhecidos de rock electrónico ou rock industrial, que influenciou outros, como os alemães Rammstein, e o único grupo ocidental que tocou na Coreia do Norte. Laibach foi o ninho embrionário do NSK. Formado no seu início por Dejan Knez, Ivan Novac, MIlan Fras, Tomaž Hostnik e Srečko Bajda (a formação renovou-se na actualidade, embora a figura visível ainda seja Milan Fras), estes criadores, quer no plano musical quer no videoclip, foram os mentores de outras duas formações, sobretudo o grupo de artistas visuais IRWIN, que criaram o "eclectismo enfático" (um compêndio de obras onde cabia tudo) e, finalmente, o grupo teatral Scipion Nasice Sisters Theatre (THEN) que depois de se dissolver em 1987 se reconstruiria no Gabinete Cosmocinético Noordung. Um movimento artístico de vanguarda que se definiu como retro-vanguarda, e em que a apropriação de elementos artísticos supôs uma das primeiras grandes rupturas: a negação da autoria e da criação própria, a reutilização de objetos e com ela a crítica a uma forma de produção e consumo.


A Exposição: NSK de Kapital para Capital

Durante os anos oitenta e depois na guerra na Jugoslávia - na Eslovénia teve lugar a guerra dos 10 dias em 1990, o que não provocou um conflito tão voraz - o colectivo NSK desenvolveu-se em diversas facetas multidisciplinares, como o Design Gráfico, a Literatura, a Filosofia ou a Arquitectura.

As salas do Reina Sofía projectam este compêndio de criações multidisciplinares onde os pósteres, as pinturas, a arte audiovisual, os videoclips, a cenografia, a fotografia, a escultura ou a arquitectura nos vão surpreendendo de sala em sala com uma visão totalmente ecléctica do grupo. Um espaço onde a identidade das criações tem uma forte influência retro (a retro-vanguarda). Este é o fio condutor e o aroma de toda a exposição, onde as obras se apropriam da Vanguarda russa, inclusive dos realismos totalitários (estalinista e nazi), misturadas com a Bahaus ou o Fluxus. Também elementos tradicionais da cultura eslovena, como a cultura das florestas, ou o grande veado símbolo do país. Mas há duas ideias principais que emergem da exposição, essencialmente a estética dos totalitarismos, utilizados a partir da provocação e da paródia juntamente com as críticas que implica, liberando assim as suas antigas ressonâncias, para de alguma forma recuperar o seu fascínio e, ao mesmo tempo, ironizar sobre ele. Por outro lado, a heterogeneidade de objectos e técnicas, o conjunto, cabe dentro de uma ideia global, como um Estado com uma ideologia marcada, que assume tudo sob a sua intenção - isto é, uma ironia mais, homogeneizar sobre a heterodoxia.

O primeiro impacto da estética totalitária e da estranheza da proposta começou como um problema "divino", como foi o caso nas primeiras manifestações de Laibach, pois a sua música, estética e cenografia foram censuradas, podia insultar a sensibilidade da população - em muitas aldeias o respeito aos guerrilheiros fazia de qualquer manifestação estética do nazismo, uma afronta. Além disso, durante o final da década de oitenta os conflitos sociais intensificaram-se, o que fez com que a provocação artística tivesse problemas no momento de encontrar espaços, fazendo da ilegalidade da proposta todo um risco, uma reivindicação, mas acima de tudo, um sucesso artístico: a eterna provocação.

As formas da tirania do estado e as suas manifestações estéticas fizeram com que o NSK ocupar um imaginário distante, mas infelizmente latente numa Jugoslávia que iria rebentar pelos ares. Essa estética, a do líder, diante da cultura "liberal" (falsamente livre do neocapitalismo com a sua estética de triunfador e os seus slogans sob as letras da música popular), podemo-la ver em muitas das referências da exposição. A partir desta contraposição revelavam o discurso das nossas manifestações artísticas "livres", com uma encenação transformada em totalitária. Ainda hoje as últimas criações de Laibach e IRWIN propõem uma reflexão sobre a nossa própria sociedade ocidental, a falsa liberdade do discurso e a sua encapuçada comunicação triunfante e classista. Da paródia à tragédia, o colectivo nas suas variáveis musicais e teatrais utilizou a estética para manifestar a sua insatisfação com ironia, principalmente sobre o novo discurso que se estava a gerar. A boa nova que a democracia ocidental iria trazer... e especialmente o seu mundo livre e o seu capitalismo para "reconstruir" os Balcãs e impor a sua economia. A exposição aprofunda essa ideia, e também a crítica que o NSK representava. Passou-se da ideologia do Kapital marxista - a formação sempre se definiu como neomarxista próxima do pensamento do filósofo esloveno Slavoh Zizec, - à imposição do capitalismo. Sob a ideia de democracia e utilizando as manifestações culturais do ocidente, Laibach fez versões com um sarcasmo elegante da música do mundo livre (One vision, Queen, Life is life, Opus), repensando os próprios conteúdos dessas canções como discursos totalitários, que com a sua estética se descobriam como falsidades. As luzes de néon do ocidente escondiam as mesmas trevas que o totalitarismo: a imposição do poder e uma nova arma, o individualismo contra a ideia de colectividade.


Indivíduo versus Estado

A ideia de indivíduo, portanto, e a ideia de grupo, de comunidade ou identificada com o Estado, se confrontam. O ocidente, com os Estados Unidos e a Grã-Bretanha como estandartes, propunham a liberdade do indivíduo sobre todas as coisas e a liberdade do capital sobre o indivíduo, nessa década de ruptura dos 80 – e ainda continua. O socialismo, pelo contrário, era a ideia de Estado, o seu extremismo patético já se comprovou no Nazismo ou no Fascismo (Tudo no Estado, nada contra o Estado, nada fora do Estado), mas a construção do Estado ideal na Europa reflectia-se no Estado do bem-estar. De outra vertente, o socialismo de cara mista, de mercado ou liberal, com zonas de capitalismo, foi-se desenhando em alguns países da Europa de Leste ou nos países não alinhados. O indivíduo constrói-se na comunidade, não se dilui na massa, uma ideia recorrente de uma Jugoslávia possível. A crítica à ideia de Estado opressor de iniciativas, mas também a negação da ideia do indivíduo, como existir fora da comunidade, flui nas expressões artísticas do colectivo e, acima de tudo, na sua forma de criação: a negação do valor da autoria da obra. A arte que NSK cria não contemplava a autoria individual, tudo era do grupo, negando o ego do autor, para diluir a obra na comunidade. O indivíduo expressa a sua criação, mas a comunidade também, os outros também.


Ready made

Tudo estava organizado para não criar nada inventado, antes construir algo novo a partir do já existente. Através da técnica de ready made, toda a arte de NSK era uma apropriação de objectos, cópias ou reproduções transformadas em arte ou em cartazes políticos. A exposição é uma recomposição irónica de objectos reutilizados, de símbolos transformados e de um e outro apertar do torniquete sobre o quão bonito será viver no capitalismo, a estúpida grandeza dos totalitarismos e um certo anseio daquilo que o socialismo poderia ter sido e não foi. É relevante contemplar os murais realizados sobre a fantasia cósmica da cultura cosmonáutica do Bloco de Leste. E ainda, combinações substanciais entre dois símbolos opostos, como por exemplo o retrato de Tito e por baixo da sua imagem a suástica. O mesmo acontece com o cartaz emblemático do povo ariano, transformando-o em mais uma ironia. Os antagonistas são, de alguma forma, os mesmos. O NSK comportou-se como um verdadeiro bufo: o ironizar do nazismo, do comunismo e do capitalismo, tudo era parodiável e criticável. Ainda que tivessem usado a ideia do líder até ao paroxismo, existia na essência do NSK uma ideia marxista (desse comunismo belo e utópico), uma realização comunitária da arte. A arte é feita pelo povo, e não é importante quem a assina. No final o colectivo abrangeria o último salto da verdadeira criação: a criação do Estado.


O novo Estado

NSK fez uso de tudo, incluindo a cruz no braço (parodiando o bracelete com a suástica do partido nazi) para construir um logotipo e utilizar esse símbolo como manifestação estética, neste caso de uma nova criação, a grande criação: um novo Estado. Para isso inspirou-se num referente muito mais vanguardista, a cruz do artista soviético Malévich, para identificar um símbolo desse novo país. Em cada concerto de Laibach, ou em cada pose diante dos fotógrafos, o colectivo mostrava-se com os seus uniformes nazis ou soviéticos metamorfoseados com a cruz. IRWIN e THEN usavam roupas com fatos macaco, uniformes proletários e sovietes...

Na entrada da Exposição contemplávamos o organograma do novo Estado NSK. Que maior criação artística do que um novo Estado... Junto vários passaportes de NSK. Portanto, se todos aqueles Estados sucumbiram, se o fascismo sucumbiu, se o socialismo caiu... o capitalismo cairá. O único Estado possível é NSK. A ironia de tudo isto é que o NSK foi na altura repudiado pelo sistema, para hoje ser assumido por ele e expor-se num museu. O capitalismo ainda sobrevive...

Slavoh Zizec deixou-nos algumas palavras sob a inércia do conceito provocador do NSK na apresentação deste movimento. O pensador repensava a ideia de Estado com os acontecimentos gerados na China pela contaminação global "ar-apocalipse" [poluição atmosférica de níveis catastróficos], que mobilizou 500 milhões de pessoas para fora das cidades. O mais surpreendente no estado chinês sobre este ar-apocalipse, explicava Zizek, "é que as autoridades já não puderam negar o problema e trataram de estabelecer um novo procedimento que permitisse às pessoas continuar a sua vida quotidiana seguindo novas rotinas, como se o ar catastrófico fosse apenas um novo facto da vida". O indivíduo então é parte do Estado, uma molécula dele, de um só Estado com as suas catástrofes. A auto-justificação do desastre seria uma manifestação de uma loucura colectiva. Esse Estado estaria longe da ideia global do comunal, da solidariedade entre os países, ou da comunidade de pessoas conscientes. Ou seja, retomar a ideia primordial do "comunismo", um bem global de indivíduos, ao contrário dos Estados actuais e daqueles totalitários da então, constituídos a partir das cúpulas do poder. O NSK, de alguma forma, representava essa eterna crítica e uma ideia de comunidade fecunda de indivíduos, a bela ideia do comunismo germinal.

 

 



ALBERTO MORENO