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10ª EDIÇÃO DO PHOTOBRUSSELS FESTIVALISABEL STEIN2026-02-16
Criado em 2016, o PhotoBrussels Festival afirma-se como uma plataforma dedicada à fotografia contemporânea, reunindo artistas e instituições em Bruxelas durante um mês. Integrado no European Month of Photography (EMOP), o festival reivindica para a cidade um lugar central no circuito europeu de fotografia, atraindo tanto um público local, quanto visitantes internacionais. Com cinquenta e duas exposições distribuídas por museus, galerias, centros de arte e locais públicos, o programa agrega mais de uma centena de fotógrafos nacionais e internacionais. No décimo aniversário, a programação do PhotoBrussels inclui um fim de semana de lançamento do evento com vernissages e uma série de atividades paralelas, como conversas com curadores ou artistas e visitas guiadas. Apesar de dedicar uma atenção especial a fotógrafas e fotógrafos emergentes, o festival não deixa de apresentar nomes consagrados, como Dolorès Marat, cujo trabalho pode ser visto no Studio Baxton. Em suas imagens oníricas, a fotógrafa utiliza uma técnica do século XIX conhecida como impressão em carbono. O resultado é um tipo de textura na imagem que remete à pintura. Os quadros fotográficos com composições simples ora referenciam o impressionismo, ora incorporam uma estética cinematográfica, e não raro assemelham-se a autocromos antigos. Cada fotografia encerra em si um fragmento sensorial, conduzido predominantemente por um único elemento na imagem: um detalhe, uma cor, uma forma. O trabalho, tão intenso quanto delicado, acessa o inconsciente do espectador, ativando memórias afetivas.
Lee Shulman, The Anonymous Project. Exposição The House, Hangar, PhotoBrussels.
Também o artista visual Lee Shulman integra o PhotoBrussels com a exposição The House, patente no Hangar — uma instalação imersiva que recria um ambiente doméstico da década de 1950. Nesse mesmo espaço, pode-se visitar a exibição coletiva Family Stories, que reúne obras de artistas com trajetórias diversas e de diferentes contextos, como Dear Father — um ensaio com temática queer do brasileiro Danilo Zocatelli Cesco, e Las Flores mueren dos veces, trabalho em que o fotógrafo mexicano Cristóbal Ascencio experimenta com glitches para acessar memórias familiares. Ainda no Hangar, Sylvie Bonnot apresenta a série Le Royaume des moustiques, exibida pela primeira vez na Paris Photo, em novembro de 2025. Não muito longe, a Box Galerie acolhe Homesick New York, de Michael Ackerman. A mostra coloca em cena personagens de Nova Iorque em uma estética granular, investida de ruídos e texturas. Utilizando uma câmara de médio formato, Ackerman retrata desconhecidos nas ruas da megalópole, acessando tanto o imaginário da cidade enquanto um local onde se encontram subjetividades marginais e desviantes, quanto sua própria experiência como sujeito pertencente àquele contexto, porém sob o signo do deslocamento. As séries de dípticos e trípticos, o uso do obturador lento que causa borrões nas imagens, e a sua aparência esfumaçada plasmam camadas rugosas nas fotografias que geram a sensação de uma constante transitoriedade, como se o intenso movimento da cidade invadisse irremediavelmente a estase fotográfica. Também voltadas à materialidade da imagem fotográfica, duas exposições situam-se na Tiny Gallery, um espaço dedicado à história da fotografia analógica e a processos antigos de revelação fotográfica. Mère-fille et filiations invisibles, de Delphine d’Elia, parte de arquivos domésticos para pensar sobre a finitude. Por meio da sobreposição de negativos, três gerações de mães coexistem no azul das cianotipias, construindo uma temporalidade híbrida e espectral. Essas presenças fantasmáticas convivem no espaço heterotópico das fotografias, tornando possível tangenciar a própria ausência através de uma fabulação da memória.
Mère-fille et filiations invisibles, de Delphine d’Elia. Tiny Gallery, PhotoBrussels.
Monya Ghabantani apresenta, no mesmo espaço, La fatigue des Anges, que explora a figura do anjo utilizando dispositivos diversos como polaroids e suportes pintados. As texturas evocadas encarnam o destino trágico desses seres, ao deslocá-los de sua iconografia luminosa: um estado de vigilância constante, marcado pelo desgaste. As duas mostras dialogam com a exposição patente na galeria, com curadoria de Olivier Guyaux. Symbolism, Esotericism, Occultism (1860 – 1918) Photography in the Art Nouveau Period é uma impressionante exibição voltada para o ocultismo e as práticas espíritas na fotografia do século XIX. Com textos muito precisos e réplicas de fotografias antigas feitas através de processos de revelação obsoletos — ambos produzidos pelo curador — a galeria é transformada em uma viagem no tempo, onde é possível acessar dispositivos de visualização de autocromos e estereoscópios em um ambiente intimista. Sustentadas entre o mágico e o científico, as imagens exibidas sublinham o aspecto uncanny e assombrado da fotografia oitocentista enquanto um meio que traduz o invisível através de procedimentos laboratoriais e da transmutação de matérias, à semelhança dos alquimistas modernos. A mostra ainda recupera mulheres pioneiras na fotografia, como Julia Margaret Cameron, Frances Benjamin Johnston, Gertrude Käsebier e Anne Brigman, que questionaram as representações convencionais do feminino na sua época. Dentro do tema das figurações de gênero, a pequena Stieglitz 19 acolhe People in Mirror are closer than they appear, de Pixy Liao. O título sugestivo da exposição contém um humor que é observado nas fotografias cinematográficas de Liao. A artista revelou que o filme Blow-Up foi responsável pelo seu desejo em estudar fotografia e que parte da sua obra foi influenciada por um gênero de filmes japoneses conhecidos como “pinky violence” [1]. Efetivamente, o repertório do cinema é evidente em seu trabalho e vai além das referências citadas: com suas paletas cromáticas e temperaturas de cor, as “cenas” criadas poderiam ser fotogramas extraídos de uma obra oriunda do Novo Cinema Taiwanês, ao mesmo tempo em que atualizam composições complexas que exploram a profundidade de campo, como os interiores estratificados filmados por Kenji Mizoguchi — apenas para citar algumas referências. Mas a presença do disparador dentro das cenas fotografadas denuncia a performatividade do projeto: as imagens são, na verdade, auto-retratos em que Liao posa com seu companheiro Moro. Nessa prática fotográfica, está em jogo não apenas a sua auto-representação, mas também uma crítica aos gêneros historicamente constituídos. Através da performance do casal e da rearticulação de gestos sobreviventes que frequentemente citam obras escultóricas ou pictóricas, a artista questiona a estrutura de relações hétero-normativas.
Hidden Role (2022) de Pixy Liao. Da exposição Mirror are closer than they appear. Stieglitz 19, PhotoBrussels.
A performatividade ganha outros contornos no trabalho de Tarrah Krajnak, cuja exposição RePose ExPose CounterPose encontra-se na Fondation A. O espaço amplo da galeria abriga diversas séries da artista. Transitando entre o auto-retrato e a releitura de arquivos — que remetem tanto a fotógrafos canônicos como Edward Weston e Ansel Adams, quanto a imagens oriundas de antigos jornais — a artista investe suas obras com uma forte dimensão política. Krajnak utiliza maioritariamente fotografias em preto e branco para elaborar temas como a ditadura militar no Peru (1968-1980) — seu país natal —, o extermínio de indígenas na América do Norte e a representação do corpo feminino. Com uma diversidade considerável de práticas fotográficas, referências e temáticas, o acervo exposto configura-se como uma elaborada resposta às estruturas de poder e a traumas político-epistemológicos. Ao contrário de Krajnak e Liao, K.R. Sunil utiliza uma estética mais clássica em seus retratos de artistas de performance no contexto do Chavittu Nadakam — um gênero teatral da região de Kerala, Índia. Com cores vibrantes, Chavittu Nadakam: Storytellers of the seashore inunda imediatamente os olhos de quem entra na galeria Modesti Perdriolle. Apesar de nitidamente influenciado pelo fotojornalismo, K.R. Sunil propõe mais do que um simples registro dos performers em suas casas alagadas pelo mar em consequência das mudanças climáticas que violentam aquele território. O caráter fantástico das fotografias — intensificado pela estranha desproporcionalidade produzida pela lente grande-angular — conduz o espectador à imersão em um universo simultaneamente precário e exuberante, no qual o artifício se afirma como uma potente força crítica.
Isabel Stein
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[1] Entrevistas cedidas a Francesca Marcaccio Hitzeman (Atomo #3) e a Jon Feinstein (aperture).
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