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Ivan Nascimento
Artista Plástico e Coordenador de Formação
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Qual a ultima boa exposição que viu?
A última boa exposição que vi foi Uma Coleção: Onde o Desenho Acontece (1993–2025), na Casa da Cerca, em Almada, uma mostra que revisita mais de três décadas de obras reunidas em torno do desenho como linguagem e prática artística, reunindo obras de artistas como Júlio Pomar ou Manuel Cargaleiro.
Que livro está a ler?
Striking Thoughts de Bruce Lee. Consiste numa criação de pensamentos e citações compilados após a sua morte e que em muitos momentos me permitem pensar sobre determinadas temáticas e me permite fazer reflexões profundas sobre a génese do meu percurso artístico.

Que música está no topo da sua playlist actual?
Ouço de tudo um pouco. Quando encontro uma música cujo ritmo e mensagem realmente me tocam, oiço-a repetidamente, quase como se estivesse a absorvê-la e a interpretá-la como se fosse uma pintura. Não consigo escolher apenas uma, mas deixo três que foram fonte de inspiração para alguns trabalhos meus: “Maybe Tomorrow”, dos Stereophonics, pela inquietação e busca constante; “When a Blind Man Cries”, dos Deep Purple, pela vulnerabilidade crua; e “Monsters”, de James Blunt, pela força emocional e confronto com os próprios medos.
Um filme que gostaria de rever…
Um filme que voltaria a ver seria Koyaanisqatsi, de Godfrey Reggio, pela forma como constrói narrativa apenas com imagem e ritmo, criando um impacto quase hipnótico que nos obriga a refletir sobre o desequilíbrio humano sem recorrer a palavras.
O que deve mudar?
O mundo precisa de mais empatia, justiça e cuidado com os mais vulneráveis. Seria importante reduzir desigualdades, valorizar a educação, a cultura e o ambiente, e promover relações humanas mais conscientes, onde a solidariedade e a colaboração se sobreponham ao individualismo.
O que deve ficar na mesma?
Devem preservar-se a criatividade, a arte e a diversidade cultural, assim como a capacidade de reflexão e de ligação entre pessoas. Os valores e tradições que fortalecem o tecido social e que inspiram proximidade e apoio mútuo merecem ser mantidos.
Qual foi a primeira obra de arte que teve importância real para si?
A primeira obra de arte que realmente me marcou foi Untitled (Fallen Angel) (1981) de Jean‑Michel Basquiat. A figura humana com asas abertas, a energia crua e a intensidade das cores criam uma presença quase hipnótica, capaz de transmitir emoção, tensão e simbolismo de forma imediata. Esta obra mostrou-me o poder da arte de tocar profundamente, comunicar sem palavras e transformar sentimentos complexos em imagem, deixando uma impressão inesquecível.

Jean-Michel Basquiat a pintar Untitled (Fallen Angel), 1981.
Qual a próxima viagem a fazer?
A minha próxima viagem seria para Okinawa, no Japão, atraído pela riqueza da sua cultura, pelas tradições únicas e, especialmente, pelas artes marciais que tenho praticado ao longo dos anos. Seria uma oportunidade de mergulhar no contexto histórico e filosófico que moldou estas práticas, conhecer a vida local e absorver a atmosfera singular desta ilha que combina natureza, história e disciplina. Estando no Japão, aproveitava para visitar outros locais também.
O que imagina que poderia fazer se não fizesse o que faz?
Se não estivesse a fazer o que faço atualmente, imaginar-me-ia a trabalhar novamente com crianças, estimulando o seu potencial criativo e acompanhando o desenvolvimento das suas ideias e expressões únicas. Também poderia ter seguido o caminho da psicologia, explorando de forma mais direta o impacto das emoções e das relações humanas — áreas que, de facto, estão na base de grande parte do meu trabalho e da minha abordagem ao mundo. Seria, sem dúvida, uma forma de continuar a combinar curiosidade, empatia e criatividade no contacto com os outros.
Se receber um amigo de fora por um dia, que programa faria com ele?
Se recebesse um amigo de fora por um dia, imaginaria um programa que combinasse cultura, natureza e momentos de partilha genuína. Começaríamos pela manhã com uma visita a um espaço cultural, museu, galeria de arte ou a uma exposição que despertasse reflexão, provocando conversas sobre cores, formas e ideias. Seguir-se-ia um almoço num espaço acolhedor com pratos tradicionais, onde a comida fosse desculpa para partilhar histórias, risos e pequenas descobertas. À tarde, um passeio a pé por ruas históricas ou parques naturais, com tempo para apreciar a arquitetura ou a calma de um miradouro, permitindo que o ritmo do dia se misturasse com a conversa e a contemplação. No fim da tarde, faríamos uma pausa num café tranquilo, mergulhando em debates sobre cultura, desporto, experiências de vida e memórias de dias anteriores. À noite, um jantar descontraído num local intimista, com música ao vivo, onde o dia se fechasse de forma leve e memorável, reforçando a sensação de que, mesmo num único dia, se pode criar um espaço de proximidade, curiosidade e partilha profunda.
Imaginando que organiza um jantar para 4 convidados, quem estaria na sua lista para convidar? Pode considerar contemporâneos ou já desaparecidos.
Convidava sem dúvida, Jean Michel Basquiat, Bruce Lee, Carl Jung e Fernando Pessoa. Contudo, se me fosse permitido, pediria para que o jantar fosse feito pela minha Avó Lurdes, que cozinhava como ninguém e que, apesar de nunca ter estudado, foi das pessoas com quem mais aprendi e tive o privilégio de poder aprender tanto, sobre tanta coisa.
Convidaria Jean-Michel Basquiat pela intensidade crua da sua obra e pela forma como transformava conflito, identidade e energia urbana numa linguagem visual visceral e profundamente pessoal.
Convidaria Bruce Lee pela sua defesa radical da autenticidade e da construção de um caminho próprio, livre de imitações, algo que procuro também na minha linguagem visual e na forma como afirmo a minha identidade artística.
Convidaria Carl Jung porque a sua reflexão sobre as máscaras sociais, a sombra e o processo de integração das diferentes camadas do eu dialoga profundamente com o meu trabalho, que explora precisamente a tensão entre aquilo que mostramos ao mundo e aquilo que guardamos no interior.
Convidaria Fernando Pessoa pela capacidade única de multiplicar o eu e explorar as várias camadas da identidade, algo que ressoa diretamente com a minha investigação sobre os diferentes rostos que habitamos.
Quais os seus projetos para o futuro?
Os meus projetos para o futuro passam por continuar a trabalhar de forma consistente e aprofundar uma linguagem artística própria, tanto em contexto expositivo como no espaço público. Interessa-me a arte de galeria e a relação mais íntima com o observador, mas também a arte urbana e acessível a todos os olhares, como ferramenta de aculturação, curiosidade e construção de identidade coletiva.
Neste momento, estou a apresentar o projeto “Máscaras do Interior”, um corpo de trabalho que surge como maturação natural de ciclos anteriores — DesconfinAr-te e LibertAr-te — projetos nascidos do impacto social e emocional da pandemia, da privação, da liberdade e da necessidade de expressão. Se nesses projetos o ponto de partida era o contexto exterior, em Máscaras do Interior o foco desloca-se para o território íntimo do eu.

À esquerda, Enquanto Houver Amor; à direita Máscaras de Dentro.
A série explora as máscaras sociais, emocionais e instintivas que habitamos — voluntárias ou impostas, conscientes ou inconscientes — e a forma como estas moldam a nossa relação connosco e com os outros. São rostos fragmentados, múltiplos, saturados de cor e tensão, que não representam alguém específico, mas todos nós. Obras que não oferecem respostas fechadas, mas criam perguntas, confrontando o observador com aquilo que mostra, esconde ou evita reconhecer em si próprio. É um trabalho que tem sido descrito como pioneiro de um Narrativismo Colorista, onde a cor intensa, a sobreposição de figuras e o caos controlado constroem narrativas abertas e profundamente humanas.
Depois de estar patente na Oficina da Cultura de Almada, a exposição segue para Tomar, onde será apresentada no Complexo Cultural das Levadas, entre 7 de março e 17 de maio, continuando posteriormente o seu percurso noutros contextos expositivos. Esta circulação faz parte do próprio conceito do projeto: criar encontro, diálogo e proximidade com públicos distintos, em diferentes territórios.
O objetivo é claro: mostrar trabalho, gerar reflexão, provocar diálogo e permitir que o confronto com quem visita influencie também o meu processo criativo. Quero consolidar o meu percurso a nível nacional, continuar a expor em espaços relevantes, colaborar com galerias e instituições, e, em paralelo, explorar as portas que se têm vindo a abrir a nível internacional. Acima de tudo, pretendo continuar este processo de crescimento enquanto artista plástico, mantendo a arte como espaço introspeção, inquietação e construção contínua.


A quem tiver curiosidade de conhecer o meu trabalho deixo os meus contactos: Website | Instagram | Email [nascivanart@gmail.com]